Ronaldo Gogoni 1 ano atrás
Onimusha 2: Samurai's Destiny é um retrato de sua época. Lançado pela Capcom em 2002, a sequência de Onimusha: Warlords usa diversos elementos dos primeiros games da série Resident Evil, envoltas em uma roupagem medieval para a 6.ª geração de consoles. A trilogia original é a precursora de franquias da casa como Dead Rising e Devil May Cry, e influenciou títulos como Sekiro e Nioh.
Com exceção de spin-offs e experimentos curiosos, a série principal ficou dormente por muitos anos, até o remaster de Warlords lançado em 2018. Só agora, 7 anos depois, a Capcom lembrou de fazer o mesmo com o subestimado Onimusha 2, para medir o interesse do público por Onimusha: Way of the Sword, que chega em 2026.
A versão revisitada de Onimusha 2: Samurai's Destiny foca em se ajustar às mecânicas dos games de hoje, enquanto permanece datado em outros aspectos, mas, por outro lado, é bom termos mais um capítulo da história dos games novamente acessível, de forma oficial.
O game se passa anos após os eventos de Onimusha: Warlords, e desta vez centra mais em acontecimentos reais ocorridos durante o período Sengoku. O protagonista desta vez é um personagem histórico, o samurai Jūbei Yagyū, que busca vingar sua vila que foi massacrada pelos Genma, uma raça de demônios agora controlados pelo warlord Oda Nobunaga (outra figura histórica), após Samanosuke Akechi, o herói do primeiro game, derrotar Fortinbras.
Jubei, por ter sangue Oni, outra raça mística e que se opõe aos Genma, tem acesso a poderes para derrotar e absorver as almas dos demônios, e contará com a ajuda de diversos aliados, como a guerreira misteriosa Oyu, o monge guerreiro Ekei Ankokuji, o viajante e atirador Magoichi Saiga, e o ninja Kotarō Fūma, todos também baseados em personagens históricos.
Diferente do primeiro game, a Capcom procurou dar mais contexto histórico a Onimusha 2, para fugir da longa sombra de Resident Evil. Warlords de fato derivou da franquia de Survival Horror (o protótipo do PlayStation original foi baseado no mítico RE 1.5), e o produtor Keiji Inafune o descreveu inicialmente como uma derivação da ideia de Yoshiki Okamoto, para "um RE com ninjas em um castelo cheio de armadilhas".
A decisão de usar cenários pré-renderizados, como os primeiros Resident Evil, também não ajudava nesse sentido. Se mecanicamente Samurai's Destiny seria próximo a Warlords, ao menos no roteiro ele seria mais dramático e calcado na história, enquanto a jogabilidade foi expandida, sejamos justos, de formas até mesmo controversas.
A apresentação inicial do game é excelente, a introdução posiciona muito bem a história, personagens, e a importância da missão de Jubei, embora a caracterização típica de um game de 2002 hoje se pareça um tanto caricata. Era o que se podia fazer na época, e o resultado, dado o contexto, foi excelente.
Uma das mecânicas novas da época era o sistema de relacionamento. Você pode dar presentes a Oyu, Ekei, Magoichi e Kotarō, e dependendo de suas escolhas, você apronfudará seus laços com seus aliados, oque inclui habilitaro novas cenas, liberá-los para serem controlado em certos momentos, contar com sua ajuda em combates difíceis, e o próprio enredo muda um pouco.
Hoje, games de ação, RPG, e outros gêneros com sistemas de relacionamento são comuns, mas na época, um título AAA implementar uma mecânica mais voltada a Dating Sims era algo completamente inesperado.A execução pode não ter sido das melhores, mas a Capcom estava claramente tentando coisas novas com a série Onimusha.
O que nos traz a...
Quando a 6.ª geração de consoles viabilizou modelos 3D mais definidos, a Capcom foi um dos primeiros estúdios a colocar rostos de pessoas reais nos seus protagonistas. Em Onimusha: Warlords e Onimusha 3: Demon Siege, o ator japonês Takeshi Kaneshiro foi escalado para dar vida ao protagonista Samanosuke, enquanto a 3.ª aventura também contava com o policial Jacques Blanc, modelado no francês Jean Reno (O Profissional).
Em Onimusha 2, a desenvolvedora decidiu por uma abordagem diferente, e na época um tanto polêmica: recriar o rosto de um ator já falecido. O escolhido como modelo de Jubei foi Yūsaku Matsuda (1949–1989), famoso por seus vários filmes de ação dos anos 1970, e mais conhecido no ocidente como Koji Sato, o yakuza que aparece em Chuva Negra de Ridley Scott, que foi seu último filme.
Claro, o tributo da Capcom a Matsuda não foi o único, o ator inspirou vários outros personagens da mídia antes e depois de Onimusha 2, como Kenshiro (Hokuto no Ken/Fist of the North Star), Spike Spiegel (Cowboy Bebop), e Kuzan/Aokiji (One Piece).
O estúdio vai repetir a estratégia em Onimusha: Way of the Sword, o protagonista Miyamoto Musashi, outro personagem histórico e considerado o maior samurai que já existiu, terá o rosto do ator Toshirō Mifune (1920–1997), um dos mais reverenciados no Japão, e um dos principais colaboradores do cineasta Akira Kurosawa; na verdade, a Capcom já o fez com o anime de 2023.
Tecnicamente, a remasterização de Onimusha 2: Samurai's Destiny segue a mesma decisão empregada em Warlords, em primar por melhorias de QoL (Quality of Life) frente à polidez visual. Sim, os gráficos estão mais bem definidos, mas os modelos em 3D dos personagens e NPCs, e os cenários pré-renderizados são essencialmente os mesmos. Não espere a mesma qualidade técnica de Dead Rising: Deluxe Remaster, a Capcom sequer teve essa intenção, de modo a mantê-lo essencialmente original, como diz o aviso em tela ao iniciar o game.
Uma mudança essencial é o controle, o padrão usa a movimentação com o analógico livre, mas você pode usar a clássica jogabilidade de "tanque" (você se move sempre na direção em que Jubei está olhando, o direcional é usado para rotacioná-lo em 360º), uma das marcas registradas de, claro, Resident Evil nos primórdios. Você também pode acessar suas armas com mais facilidade, sem depender de menus.
De novo, os saudosistas podem ajustar os controles como acharem melhor, inclusive deixando tudo como era em 2002.
De resto, todos os elementos do game original foram preservados, incluindo os minigames, com destaque para o bizarro The Man in Black, em que você controla Jubei (na verdade, Matsuda caracterizado como Shunsaku Kudō, da série de TV Detective Story) armado apenas com um espaguete de espuma, em um ambiente limitado, cheio de inimigos e armadilhas, para encontrar filmes e habilitá-los na galeria, em apenas 5 minutos.
Ah, sim, não podemos esquecer da presença em cena do espalhafatoso genma Gogandantess, "o mais poderoso espadachim entre os demônios" em sua armadura peitoral com mamilos, não devendo nada a Joel Schumacher.
Onimusha 2: Samurai's Destiny não é a entrada mais lembrada da franquia de samurais da Capcom. Muitos lembram com carinho de Warlords, em sua simplicidade e honestidade em se distanciar do molde de Resident Evil, enquanto consideram Onimusha 3: Demon Siege o melhor dos títulos principais.
Ainda assim, a saga de Jūbei Yagyū e seus aliados tem seu charme, ao entregar uma história mais dramática e calcada (com óbvias liberdades criativas) na história do Japão, oferecer combates ferozes, e até um pouco de descontração com mecânicas de Dating Sims.
Ao não mexer no que fez do game original um clássico, a Capcom fez do remaster de Onimusha 2 uma janela para o passado, com ajustes para tornar a experiência confortável, principalmente para os mais jovens, que terão a oportunidade de apreciar o título em uma forma quase original, e oficialmente, em mais um esforço da desenvolvedora japonesa em revisitar seu passado, tornar seus games antigos disponíveis de outros modos que não via emulação, e auxiliar nos esforços pela preservação dos games.
E enquanto aguardamos a chegada de Onimusha: Way of the Sword, fica a torcida para que o estúdio resgate o excelente Onimusha 3, e lhe dê a mesma atenção que Warlords e Samurai's Destiny receberam.
Pontos Fortes
Ponto Fraco