Carlos Cardoso 1 ano e meio atrás
IA é uma revolução que tornará a próxima década irreconhecível, indústrias inteiras sumirão do mapa, outras surgirão, a vida de cada indivíduo do planeta será afetada por IA, mas fora isso, também há muito hype envolvendo essa tecnologia.

Crédito: ComfyUI
Muitos anos atrás um sujeito me pediu para criar uma homepage. “Mas tem que ter Java”. Eu perguntei o motivo, visto que Java era um negócio incômodo que só servia para criar applets inúteis, exigia plugin e não trazia nenhuma vantagem em relação ao bom e velho HTML.
“Eu li que Java é o futuro, então eu quero Java na minha página.”
A indústria tende a seguir essa filosofia. Inúmeros CEOs, CTOs e outros Os possuem pouca familiaridade com tecnologia, se informam pela Velha Mídia, e compram os hypes. Foi assim com Crypto, Blockchain, Agile, XML...
Ser hypada não significa que uma tecnologia é inútil, mas muita gente perde dinheiro querendo enfiar uma tecnologia em um lugar onde ela não se encaixa. Definitivamente ninguém precisa de IA no WhatsApp. Em outros casos, a IA é extremamente útil, alguns desenvolvedores reportam ganhos de produtividade de mais de 10 vezes.
De olho nesse ganho de produtividade, a Orange, uma empresa especializada em localização de mangás, resolveu apostar em IA.
Como todo mundo que já pegou fansubs e encontrou barbaridades como propaganda políticas, legendas de 5 linhas e até legendas com nota de rodapé (juro!) sabe, tradução é algo complicado, ainda mais de idiomas culturalmente distantes da realidade ocidental, como o japonês.
Esse é um dos, e talvez o principal fator que faz o mercado de mangás no Japão movimentar U$ 13,98 bilhões em 2023, enquanto nos EUA mangás são responsáveis por apenas US$ 880 milhões.
A tradução de mangás para inglês é muito cara e demorada, e dado o baixo número de vendas de títulos individuais, muitas vezes não compensa. Não é só traduzir o texto. Cada página precisa ser refeita, os textos em japonês ocupam espaços diferentes dos textos em inglês. A ordem de leitura é diferente, os balões têm tamanhos diferentes.

Imagem criada via Flux, localmente, com pouquíssimo esforço. Imagine um profissional com essa ferramenta (Crédito: Flux/Meio Bit/Editoria de IArte)
Tradução automática, tipo Google, não é suficiente, ela não pega nuances mais obscuras. Já a tradução via IA – Inteligência Artificial, é capaz de entender quando você quer uma tradução mais formal ou mais coloquial, e pode ser editada e corrigida “on the fly”, mais ou menos como com um tradutor humano, mas bem mais rápido.
A Orange usou várias IAs, inclusive soluções próprias, até chegar ao Claude 3.5, da Anthropic. Customizada, a ferramenta transcreve o texto original nas páginas dos quadrinhos, traduz, adapta e reposiciona nas páginas.
O serviço é supervisionado e revisado por humanos, e no final, segundo reporta o MIT Tech Review, eles conseguem um produto final em inglês em 1/10 do tempo normal, sem falar na redução de custos.
Perfeito, não?
Claro que não.
Durante a Anime NYC de 2024, houve gente dando chilique no stand da Orange. Jan Cash, editora, postou uma thread raivosa no Twitter exigindo que a organização BANISSE do evento a Orange e qualquer outra empresa de IA.
Esse tipo de atitude racional e compreensiva como sempre instigou a fúria coletiva da horda do Twitter, com 53,5 mil pessoas visualizando o tweet, mas provando mais uma vez que Twitter é onde aparece quem fala mais alto, mas é só barulho ao vento, desses 53 mil, somente 765 deram like, 207 fizeram retwits e apenas oito comentaram.

Bem patético esse engajamento (Crédito: Twitter)
Mesmo assim é um povo barulhento que acaba prejudicando iniciativas de IA, principalmente pequenas.
O argumento é o mesmo desde que inventaram a roda: tecnologia nova tira empregos, e humanos são melhores e nunca seremos substituídos, etc, etc. E que o trabalho deveria ser feito por tradutores, ilustradores, letristas humanos.
O problema desse argumento é que o produto, sem IA, não é viável. Aqueles US$ 880 milhões, das vendas de mangás nos EUA estão incrivelmente pulverizados. Um título de 45 páginas, segundo o Claude, leva entre 7 e 12 dias para ser traduzido e localizado, com uma equipe entre 3 e 5 pessoas.
O povo protestando contra IA não entende que sem ela, o mangá simplesmente não seria traduzido.
Segundo a Orange, os autores dos mangás estão apoiando a iniciativa, gostam da ideia de ver sua obra lida (e comprada) por leitores de outros países, ampliando seu mercado.

Um dos mangás traduzidos pela IA da Orange (Crédito: Reprodução/Kadokawa Shoten/Orange)
De resto, se o problema é a tradução por máquina, não deveriam protestar contra o botão “traduzir”, presente em quase todo aplicativo de rede social? Quantos tradutores as legendas automáticas do Google carburador espinafre sem serviço?
Há um grupo bem vocal na Internet que odeia tudo relacionado a IA, e é triste ver como são egoístas. Se recusam a entender como a tecnologia funciona, e pulam de elogios a ameaças, quando descobrem que uma imagem que gostaram foi feita usando IA.
Essa ferramenta está proporcionando uma liberdade criativa como nunca vista. Gente que gosta de escrever, mas tem zero talento com um pincel, está conseguindo criar suas próprias histórias em quadrinhos. E não, dizer “pague um ilustrador” não funciona, a maioria das pessoas não tem dinheiro para isso.
Autores estão usando IAs para revisar e corrigir suas obras, gente que não tem R$ 5 mil para pagar um revisor de verdade. E não, a capa feita por um adolescente do Tumblr que cobra R$ 25 não vai ficar melhor que uma feita com IA. A melhor que IA vai custar R$ 2 mil.
A IA é uma ferramenta que veio para ficar, vai sobreviver quem aprender a usá-la a seu favor. Ficar reclamando e pedindo boicotes não vai fazer mais que -na melhor das hipóteses- adiar a entrada da IA na maioria dos fluxos de trabalho das editoras.
O conselho então, já que reclamar não adianta, é se adaptar. Até porque datacentres são bem-guardados e não dá para jogar tamancos nos servidores.