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The Tower of Druaga: 40 anos da saga de Gilgamesh

Lançado há 40 anos, The Tower of Druaga se inspirou em Dungeons & Dragons, mitologias e se tornou extremamente influente

08/01/2024 às 10:08

Muito antes de Final Fantasy, muito antes de Dragon Quest e até antes de The Legend of Zelda, houve um jogo que conquistaria o público japonês, misturando RPG de mesa com mitologia. The Tower of Druaga foi imaginado como um “Pac-Man de fantasia” e com muitos segredos, se tornou bastante influente.

The Tower of Druaga

Crédito: Reprodução/Dori Prata/MobyGames

Lançado nos fliperamas em junho de 1984, o desenvolvimento do The Tower of Druaga começou um ano antes, após Masanobu Endō realizar uma viagem aos Estados Unidos. Na época, o game designer tinha acabado de lançar um jogo que estava fazendo um enorme sucesso, seu nome? Xevious.

Enquanto visitava a Terra do Tio Sam, Endō acabou comprando uma cópia do Dungeons & Dragons e aquele jogo de tabuleiro teria um grande impacto na sua vida. Encantado com sua mecânica e apaixonado pelo jogo Wizardry, para Apple II, o japonês decidiu que queria fazer um RPG e ao voltar para o Japão, iniciou o projeto que batizou como Quest.

Naquele jogo, o nosso objetivo seria explorar diversas salas interconectadas enquanto derrotávamos os mais variados inimigos e procurávamos por chaves que abririam as portas. Porém, conforme o desenvolvimento avançava, Endō — que foi creditado no Xevious como Evezoo — começou a ficar incomodado com a quantidade de elementos de RPG presentes no título.

Naquele momento, ele percebeu que o melhor seria mudar o rumo da sua criação, adotando um estilo mais voltado para a ação e a solução de quebra-cabeças. Contudo, era preciso um pano de fundo para aquela aventura e Evezoo foi buscá-lo nas mitologias da Suméria, Mesopotâmia e Babilônia.

The Tower of Druaga

Crédito: Reprodução/GTramp/MobyGames

Suas maiores fontes de inspiração foram a Torre de Babel e o poema A Epopeia de Gilgamesh, com vários personagens que aparecem em The Tower of Druaga sendo nomeados com base em deuses da mitologia hindu e da Mesopotâmia. Entre eles, vale destacar a própria Durga, ou Druaga, a mãe do universo e que no jogo responde como grande antagonista.

Na pele de Gilgamesh, nossa missão seria resgatar nossa amada Ki, que fora raptada pelo demônio de oito braços e quatro pernas. Para isso, teríamos que subir até o topo de uma torre composta por 60 andares, cada um deles com seus próprios perigos e segredos. De quebra, ainda poderíamos salvar o mundo, já que Druaga quer utilizar um artefato conhecido como Blue Crystal Rod para escravizar a humanidade.

Um detalhe curioso é que a quantidade de andares presentes no jogo não foi escolhida ao acaso. Para chegar a tal número, Endō se baseou no Sunshine 60, maior prédio da Ásia na época e que ficava localizado na cidade de Tóquio. Outra curiosidade foi o The Tower of Druaga ter sido criado para o hardware do jogo Mappy, o que explica sua tela ser disposta na vertical.

Contudo, uma característica pela qual aquela criação sempre será lembrada, são os muitos segredos que continha. Em sua essência, o jogo tinha uma mecânica bastante simples, pois bastava encontrar a chave que abria a porta para avançarmos para o próximo andar. Porém, fazer isso sem acharmos os muitos itens disponíveis tornava a tarefa quase impossível e aquilo que foi elogiado por alguns, também virou alvo de críticas para outros.

O jogo se saiu bem no NES (Crédito: Reprodução/chirinea/MobyGames)

O problema é que as exigências para acessarmos esses itens eram muito aleatórias. Por exemplo, no segundo andar você pode encontrar botas que aumentarão muito a velocidade dos movimentos e para isso, basta derrotar dois slimes pretos. Já para pegar um sino que indica a direção da chave, basta passar pela porta antes de pegar a chave do quarto andar.

A coisa começa a complicar quando precisamos nos mover de um ponto específico da fase para outro, gastar um determinado tempo ou encostar nas laterais da fase. Além disso, algumas dessas ações desbloquearão um determinado item várias fases depois, passando a sensação de que todo o esforço foi em vão.

“Fico feliz que o Tower of Druaga tenha sido amado pelos fãs, mas o fato de o jogo ter deixado os jogadores mais paranoicos em procurar segredos e de ter dado uma ênfase à ‘limpeza’ de um jogo são duas consequências sobre as quais tive tempo de refletir [nesses anos],” declarou Masanobu Endō. “Foi realmente um bom exemplo para outros jogos? Por outro lado, graças a Druaga nasceu a cultura do compartilhamento de anotações (onde os jogadores de arcade partilhavam os seus segredos e dicas), o que foi bom.”

Se aquele título poderia ter pegado um pouco mais leve nos segredos, isso é algo que talvez nunca saibamos, mas o fato é que ele se mostrou extremamente influente, servindo como inspiração para vários jogos japoneses, como The Legend of Zelda, Dragon Slayer, Hydlide e Ys. Ele também deu origem a várias conversões, continuações e spin-offs, numa série que ficou conhecida como Babylonian Castle Saga.

Entre esses derivados do Tower of Druaga estava The Return of Ishtar, título lançado em 1986 e que foi baseado no primeiro protótipo desenvolvido por Endō. Com a aventura se passando logo após os eventos mostrado no antecessor, nela duas pessoas podiam jogar simultaneamente, com uma controlando Gilgamesh, enquanto a outra assumia o papel da sua amada Ki.

The Return of Ishtar (Crédito: Reprodução/FatherJack/MobyGames)

A franquia ainda viraria jogos para diversas plataformas, do Nintendinho ao PlayStation 2, chegando até mesmo a um MMO lançado em 2009 para PC, o The Tower of Druaga: The Recovery of Babylim. Já a última vez em que ela recebeu um capítulo foi em 2011, quando os celulares japoneses viram a chegada do The Labyrinth of Druaga.

E para entendermos o tamanho da sua popularidade no Japão, basta dizer que a criação de Masanobu Endō virou um parque temático inicialmente disponibilizado na Expo '90, em Osaka e depois transferido para um fliperama da Namco localizado em Tóquio. A franquia ainda seria transformada em jogo de tabuleiro e seus personagens fariam participações em alguns títulos da Namco e até no Super Smash Bros.

No entanto, a obra que talvez tenha contribuído mais fortemente para popularizar a marca por aqui, foi o anime The Tower of Druaga: The Aegis of Uruk. Lançada em 2008, a série se passa cerca de 80 anos após a história do primeiro jogo e depois ela recebeu uma continuação, chamada The Tower of Druaga: The Sword of Uruk.

The Tower of Druaga

O TurboGrafx-16 ganhou uma versão muito mais bonita do The Tower of Druaga (Crédito: Reprodução/chirinea/MobyGames)

Hoje, jogar a aventura de Gilgamesh é algo que nem todos teriam paciência. Do alto nível de dificuldade à jogabilidade travada e lenta, descobrir seus muitos segredos soa mais como uma penitência do que uma motivação. Mesmo assim, a importância desse jogo não deve ser ignorada e sua criação serve como lembrança de como alguns game designers estavam muito a frente do seu tempo.

Pode ser que uma hora ou outra alguém surgiria com algo como o The Tower of Druaga e a evolução seguisse seu ritmo naturalmente, nos trazendo a muitos dos jogos que temos atualmente. Porém, quem merece os créditos por ter influenciado tantos títulos é Masanobu “Evezoo” Endō, com sua lendária (e penosa) escalada por aqueles 60 andares.

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