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Acidente misterioso em Severodvinsk gera contaminação radioativa na Rússia

Um teste de míssil com propulsão nuclear contaminou uma região da Rússia. O quanto, qual a gravidade, o Governo não diz

16/08/2019 às 4:16

Dois acidentes em uma semana, explosões descontroladas e pânico, a situação está russa pros lados do Putin, e de todos os acidentes o de Severodvinsk pode ser o mais sério. Autoridades negam, depois autoridades confirmam e desconfirmam passando a bola para outras autoridades.

Em resumo, um depósito de munições explodiu, dois dias depois um teste de mísseis deu errado e contaminação radioativa de grau indeterminado atingiu uma região da União Soviética Rússia, o Governo se nega a dar detalhes, e muita gente está achando que temos uma nova Chernobyl, o que não é verdade, mas por outro lado é mentira que nada aconteceu.

1 - A Irresponsabilidade da Mídia

Primeiro de tudo, não houve uma explosão nuclear, muito menos duas. SE for confirmado que a explosão em Nyonoksa envolveu um reator nuclear, não houve uma explosão atômica, reatores não funcionam assim. Para sustentar uma reação de fissão uma bomba atômica precisa de Urânio235 enriquecido a pelo menos 85%. Um reator nuclear funciona com Urânio enriquecido entre 3% e 5%.

Reatores explodem? Sim, com certeza, aqui vemos o reator número 1 de Fukushima explodindo em 2011:

A questão é que não é uma explosão nuclear, essencialmente um reator nuclear defeituoso é uma panela de pressão, sem ter como resfriar o interior do reator, a temperatura aumenta, a água usada para gerar vapor e mover as turbinas (ok, são dois circuitos isolados mas vamos simplificar) vira vapor cada vez mais quente, o metal no interior do reator começa a derreter, a água dada a alta temperatura se divide em Hidrogênio e Oxigênio, e eventualmente começa a vazar, se a pressão sozinha não explodir o reator, o ambiente cheio de Hidrogênio o fará. Sim, é apavorante, eu também morro de medo de panela de pressão.

Uma boa analogia: Uma explosão nuclear é um botijão de gás explodindo em um incêndio, criando uma bomba termobárica que dizima tudo à sua volta. Uma explosão de reator é um tanque de carro a gás explodindo quando é abastecido com gás demais.

Não é excelente, mas não é terrível. O estrago é feito pela onda de pressão, mas sem nenhuma fonte primária de ignição, o gás não entra em combustão, nada se queima. Uma explosão nuclear seria o tanque de gás explodindo e entrando em ignição.

Há vários sites que se dizem sérios chamando a explosão de nuclear, o que não foi o caso, e confundindo com outro caso. Foram DOIS acidentes distintos: O primeiro foi dia 6 de Agosto, um depósito de munições perto de Achinsk, na Sibéria, explodiu de forma espetacular. Essa foi a explosão que todo mundo viu, divulgou e vários sites repassaram como se fosse a "nuclear".

Dia 8 de Agosto, outra explosão, desta vez perto de Nyonoksa, que como você pode ver no mapa, fica muito, muito longe e não há nenhuma relação entre as duas ocorrências:

Não há nenhum vídeo ou foto da segunda explosão; ela ocorreu no mar, em uma área reservada para testes de mísseis, parte de uma instalação militar que existe na região desde os Anos 50.

A instalação é usada para testes e desenvolvimento de motores de mísseis de combustível líquido, e a história oficial era que um teste deu errado, um motor explodiu, nada para ver aqui, circulando cidadão. Só que para tristeza dos envolvidos, não estamos mais nos sinistros Anos 80, e por mais que a Rússia ainda seja a Rússia, não vive sob o totalitarismo comunista de antigamente e a informação correu solta. Pessoas começaram a conversar, gente com acesso a contadores Geiger começou a fazer medições e eis que em Severodvinsk, a 30Km de distância do ponto zero, a radiação de fundo sofreu um pico.

O pico na região chegou a 1.78μSv/h. A radiação de fundo normal da região costumava ser de 0.11μSv/h. As medições mostraram um aumento de 16 vezes.

A administração municipal emitiu um aviso de possível contaminação radioativa, e instruiu as pessoas a ficarem em casas de janelas fechadas e a tomarem pílulas de Iodo. Minutos depois o aviso foi tirado do ar, as autoridades explicaram que como a jurisdição era do Ministério da Defesa eles dariam as informações. Claro, todo mundo correu pras farmácias e esgotaram as pílulas das prateleiras.

Nosso amigo Iodo, mais precisamente I131, um isótopo formado em reatores nucleares deu as caras na Noruega, onde foi detectado por estações de monitoramento. Enquanto isso os feridos, que trabalhavam diretamente com o míssil foram levados para Moscou.

Em ambulâncias lacradas com plástico e operadas por técnicos vestindo trajes de proteção. Detalhe: Moscou fica a 1000Km do local do acidente.

Mais tarde foi revelado que pelo menos cinco engenheiros morreram no acidente.

Imagens de satélite mostraram na região uma plataforma de testes com marcas recentes de danos causados por fogo, muito próxima da área marítima reservada para testes de mísseis:

 


Ah sim, na mesma região está o Serebryanka, um navio usado para transporte e manuseio de combustível nuclear.

Em uma fração de dias os russos decidiram evacuar os 100 mil habitantes de Achinsk, mas depois mudaram de idéia. Por conta própria o governo de Arkhangelsk, também na região decidiu licitar a compra de 1000 máscaras de proteção contra contaminação química e radiológica.

A Versão Oficial vem variando do "nada aconteceu", passando pelo "foi um motor que explodiu" e agora já há fontes que confirmam que um pequeno reator nuclear explodiu. É a hipótese mais provável, ninguém em são consciência testaria um motor de um míssil com uma ogiva real instalada. Nem nos loucos tempos da Guerra Fria isso acontecia, conta-se nos dedos os testes de ICBMs usando ogivas reais, e esses testes eram anunciados com meses de antecedência e acompanhados por todo mundo.

A alternativa mais provável é que foi um teste mal-sucedido de um míssil anunciado alguns anos atrás por Putin e que tem o codinome de SKYFALL.

O conceito já foi tentado pelos Estados Unidos nos Anos 50, e foi devidamente abandonado, por ser uma idéia muito idiota, perigosa e desnecessária. Claro, o Idiota-Mor do Trump não sabe disso, e falou groselha, como sempre, dizendo que os EUA detém aquela tecnologia, só que melhor.

O conceito do míssil é usar, ao invés de combustível comum, um reator nuclear, que aqueceria o ar gerando propulsão, ao mesmo tempo resfriando o equipamento. Com isso o míssil teria autonomia para voar por meses seguidos, mantendo órbitas de patrulha próximas ao inimigo, mas em águas internacionais. Em caso de necessidade um comando seria enviado e ele levaria sua ogiva termonuclear até o alvo.

No papel é ótimo, na prática o Projeto Pluto, tentado nos anos 50 foi um desastre.

Fora refrigerar um reator nuclear usando a mesma tecnologia usada em um Fusca, o equipamento teria que sobreviver a chuvas, granizo, um eventual urubu, com o agravante de contaminar o ar ingerido e expelido, deixando para trás uma trilha de radiação. Em 1964 o bom-senso prevaleceu e o projeto foi cancelado.

Agora os russos querem tentar a mesma idéia, e já acidentaram  vários 9M730 Burevestnik, o nome russo do SKYFALL. Putin parece tão interessado no míssil que novos testes foram marcados mesmo depois do último acidente, mas alguém se tocou e cancelaram ao menos por um tempo.

Oficialmente há muito pouco a ser dito, o SKYFALL é um míssil relativamente pequeno, qualquer reator nuclear que ele leve é igualmente minúsculo, com muito pouco material radioativo para contaminar uma área muito grande.

Provavelmente o pior já passou, mas é assustador saber que tudo que sabemos veio por meio de redes sociais e o bom e velho jornalismo investigativo, com os governos como sempre mentindo,enganando, iludindo e obstruindo. Que fique a lição, não adianta tentar construir as armas do futuro com a mentalidade do passado.

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