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Bolsonaro quer que o Brasil tenha uma bomba atômica. Boa idéia ou viraremos a nova Coréia do Norte?

16/05/2019 às 2:25

Primeiro de tudo, que fique claro: Eu acho a idéia de ter uma bomba atômica excelente, eu adoraria ter uma, resolveria um monte de problemas e ninguém mais me mandaria boletos, mas é uma coisa pessoal, MINHA bomba. A idéia de outros, principalmente Estados terem acesso a armamento nuclear, já não é tão atraente, mas isso não impediu muita gente de tentar. Por isso a ambição do nobre Deputado nem é tão original.

Em uma declaração feita dia 14 de Maio, em uma audiência da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, à qual preside, o Deputado Eduardo Bolsonaro disse, para representantes das Forças Armadas:

“Se nós tivéssemos um efetivo maior, talvez fôssemos levados mais a sério pelo (Nicolás) Maduro, ou temidos pela China ou pela Rússia", afirmou. “São bombas nucleares que garantem a paz ali... cadê o colega do Paquistão? Como é que é a relação do Paquistão com a Índia se só um dos lados tivesse uma bomba nuclear? Será que seria da mesma maneira que é hoje? Óbvio que não. Quando um desenvolveu a bomba nuclear, o outro desenvolveu no dia seguinte e ali está selada, ao menos minimamente, uma espécie de paz. Eu sou entusiasta desta visão”

O próprio deputado diz que não há nenhuma discussão sobre isso na Câmara, e que o momento atual não comporta esse tipo de idéia, mas não é a primeira vez que ele ventila a idéia de que possuir armas nucleares aumenta o prestígio político de um país, visão compartilhada por quase todo shithole no planeta. Há sentido nisso?

Antes de tentarmos responder, um breve histórico: O Brasil já teve um programa nuclear secreto, na verdade vários.

Tecnicamente a ambição começou com Getúlio Vargas, mas o sonho de um Brasil Nuclear começou a se fortalecer na década de 1970, mas as idéias de uso pacífico da tecnologia, em usinas e reatores navais logo se ampliou, quando descobrimos que a Argentina havia embarcado em um programa nuclear secreto.

Não poderíamos ficar para trás, então começamos nosso próprio programa nuclear, com blackjack e prostitutas, mas para fazer bombas atômicas, mísseis e reatores nucleares é preciso mais do que dinheiro, é preciso inteligência, e para isso o Governo Militar fez algo que está completamente fora de moda hoje em dia: Investiu pesado em educação, e a principal estratégia foi o...

"...envio de pesquisadores brasileiros ao exterior. Entre 1979 e 1983 foram concedidas 700 bolsas para cientistas brasileiros estudarem na França, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha e na Argentina. Os estudantes eram civis e militares. Desse grupo, retornaram ao Brasil 55 doutores, 396 mestres e 252 especialistas em áreas como segurança de reatores, materiais nucleares, ampliação de técnicas nucleares, infra-estrutura de pesquisa e desenvolvimento, além de recursos humanos." (fonte)

Antes disso o Brasil já tinha um acordo nuclear com a Alemanha, mas era tão restritivo que éramos obrigados a comprar o combustível nuclear do exterior, e não envolvia qualquer repasse de tecnologia. Acabamos correndo atrás, para desespero dos EUA e de todo mundo lá de fora, conseguimos desenvolver tecnologia de purificação de Urânio.

Urânio não é puro?

Urânio, como qualquer elemento natural, existe na forma de vários isótopos. De longe o mais abundante, formando 99.28% do Urânio natural é um 238U. Ele pode ser usado em alguns reatores primitivos mas não rende e não serve para ser usado em bombas. O ideal para isso é o Urânio 235. Infelizmente o 235U só forma 0.72% do Urânio natural.

Imagine o problema: Você tem um minério com 99.28% de um tipo de um material, e precisa separar outro material que tem as MESMAS características químicas, só é 3 nêutrons mais leve. (estou desconsiderando os outros 30 ou 40 isótopos de Urânio, mais leves ou mais pesados mas que aparecem em frações de percentual).

Esse problema comeu boa parte do dinheiro e do tempo do Projeto Manhattan, e foi resolvido com isto aqui:

É a K-25, uma instalação que custou o equivalente hoje a US$7.4 bilhões, eram quatro andares e 44 acres de tubos hermeticamente fechados filtrando hexafluoreto de urânio, separando os isótopos. A muito custo conseguiram produzir os 64Kg de Urânio enriquecido (com maior concentração de 235U) usado na bomba Little Boy, lançada em Hiroshima.

Do outro lado da cortina de ferro, os russos preferiram o método de ultracentrífugas, que separavam os isótopos com base em seu peso molecular. Foi essa tecnologia que o Brasil reinventou.

E aprimorou. Depois que os EUA começaram a usar eles mesmos centrífugas, e claro ninguém queria dar a receita do bolo pro Brasil, a gente começou a pesquisar e conseguimos algo inovador: Centrífugas muito mais eficientes, com eixos eletromagnéticos ao invés de físicos. Sim, hoje é algo que você encontra em coolers de CPU high-end, mas 30 anos atrás não era comum.

Por isso muita gente se assustou quando o Presidente Sarney anunciou que o Brasil já dominava a tecnologia de enriquecimento de Urânio, e as estimativas eram que em 1989 teríamos Urânio enriquecido a 20% e logo chegaríamos a mais de  80%.

Urânio usado em reatores convencionais em geral é enriquecido entre 3% e 5%. 80% é Urânio para uso em armas, e essas declarações deixaram muita gente assustada, por mais que todo mundo falasse o tempo todo que o Brasil era da paz, que nunca iríamos produzir armas nucleares.

Tecnicamente ele não tem nada a ver com isso mas o filho é dele...

Enquanto isso programas paralelos corriam em segredo, mas para a sorte do mundo e de Buenos Aires a ciumeira tradicional nas forças armadas fez com que QUATRO programas de enriquecimento de Urânio fossem desenvolvidos em paralelo, o oficial do governo e 3 secretos do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Acompanhando o discurso pacifista, em 1982 o Chefe do Estado-Maior da Armada Brasileira, o Almirante-de-Esquadra José Gerardo Theophilo Albano de Aratanha (ufa!) deu uma entrevista dizendo que o Brasil tinha sim tecnologia para fazer uma bomba atômica. Entretanto o Almirante, Físico de formação, descartava armas nucleares como boas alternativas, por causa dos danos causados pela contaminação.

Em uma rara visão futurista ele disse que as armas do terceiro milênio deveriam ser raios laser, micropartículas e tudo. A gente se arrastando tentando replicar tecnologia de 1945 e o Almirante pensando em phasers!

Claro, o resto do Governo não pensava assim, e em 1986 surgiu a notícia de que na Serra do Cachimbo, no Pará a Aeronáutica havia preparado um campo de testes de armas nucleares, incluindo um buraco de mais de 300 metros de profundidade.

Imediatamente todo mundo entrou em regime de controle de danos, repórteres foram levados para visitar a base, militares e o Presidente da República negaram que o tal buraco era nuclear, alguns afirmaram que era usado para treino de tiro de bombas e mísseis, provavelmente para caso de invasão dos Homens-Toupeira.

Para sorte do governo, rolou o acidente em Goiânia com o 137Cs e alguém teve a brilhante idéia de armazenar na Serra do Cachimbo as toneladas de materiais contaminados. A Aeronáutica apoiou com entusiasmo. "Isso mesmo, foi pra isso que construímos o buraco, pra armazenar lixo radioativo, nada de teste de bombas, isso, isso!". O Governador do Pará chiou, os índios chiaram, ecologistas chiaram e a idéia acabou descartada.

Claro que depois que saiu uma CPI a casa caiu, e foi confirmado que as instalações eram mesmo para testes de armas nucleares, que estavam sendo desenvolvidas, ou ao menos desejadas, como afirmou o chefe do projeto da Marinha, o Vice-Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva.

Agora a melhor parte!

Em 1995 a Folha revelou a existência de um documento secreto do Conselho de Segurança Nacional para o Presidente Figueiredo. Assinado pelo então General Danilo Venturini, o texto fala sobre a necessidade do Brasil desenvolver tecnologia de "reprocessar material irradiado", isto é, usar o 235U dos reatores nucleares para produzir Plutônio, pois o documento era de 1984, Plutônio só começaria a ser vendido em farmácias em 1985.

Mais adiante o texto fala sobre produzir "explosivos nucleares", mas consultado pela Folha, o General (já aposentado) explicou que não tinham qualquer propósito bélico, que ninguém queria construir uma bomba atômica, que o objetivo era criar explosivos nucleares para fins pacíficos, como construir canais, abrir túneis, etc.

Pausa para risadas.

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Acabou? OK, prossigamos.

Em algum momento desse sarapatel, surgiu o valor de US$111 bilhões para o desenvolvimento de uma bomba atômica brasileira. Parece realista, visto que o Projeto Manhattan, corrigindo pela inflação custou US$23 bilhões, e dada nossa tradição de fazer dinheiro sumir em projetos estatais, é factível o número.

Os militares foram perdendo o interesse, o dinheiro foi encurtando e os projetos se tornaram oficiais, como o programa de desenvolvimento do Submarino Nuclear, a tecnologia de centrífugas foi reconhecida oficialmente, aceitamos (com restrições) inspeções internacionais e em 1990 Fernando Collor colocou literalmente uma pá de cal no assunto, enterrando simbolicamente o buraco na Serra do Cachimbo.

O Brasil já tinha assinado vários tratados de não-proliferação, inclusive com a Argentina, e deixou de ser pária. Hoje o resto do mundo tem razoável certeza de que nossas pesquisas nucleares são para fins pacíficos de geração de energia ou de propulsão.

Isso, claro, não impediu que gente sem noção continuasse falando bobagem, e antes do Eduardo Bolsonaro, não podemos esquecer do Enéas Carneiro, que prometia uma bomba atômica em sua campanha eleitoral, e de José Alencar, Vice-Presidente da República que em 2009 declarou que o Brasil deveria ter uma bomba atômica para proteger o pré-sal e que

"armas nucleares seriam importante fator de dissuasão e dariam mais respeitabilidade ao país."

Isso mesmo: O Vice do Lula e o Filho do Bolsonaro repetindo o MESMO velho discurso de que armas nucleares garantem respeito. É a postura do hominídeo de 85 mil anos atrás que descobriu um tacape maior que o do vizinho e acha que assim ele vai parar de roubar suas frutas.

Armas nucleares não geram respeito?

Em uma palavra: Não. No máximo elas geram medo. O mundo só sobreviveu à Guerra Fria por causa de um conceito chamado MAD - Destruição Mútua Assegurada. Os dois lados sabiam que se atacassem, destruiriam o inimigo mas seriam destruídos no inevitável ataque de retaliação.

Tony Stark diz que o ideal é ser temido E respeitado, mas na prática você só é temido, o bastante para seu vizinho não-nuclearizado gastar o que tem e o que não tem para se igualar. Isso aconteceu com a Índia. Eles decidiram em 1967 que iriam ter armas nucleares, e conseguiram, depois de um projeto onde usaram tudo que tinham e não tinham, detonaram seu primeiro artefato em 1974. Sete anos apenas.

Lembrando que a Índia em 1967 era a definição de shithole. A renda per capita dos Estados Unidos era de US$4,336.40, a do Brasil US$346.90, A da Índia, US$96.60.

Quando ficou claro que a Índia seria bem-sucedida, o Paquistão começou em 1972 a desenvolver seu próprio programa nuclear, mesmo com uma renda per capita de US$151.80. Eles conseguiram uma detonação só em 1998, hoje têm um arsenal de 150 ogivas, a Índia tem 140, mais que o suficiente para ambos se destruírem, mesmo assim a dissuasão não está funcionando.

Eles já se pegaram pra valer um monte de vezes, inclusive em conflitos chamados abertamente de "guerras". Até agora os dois lados confiam na lógica de que se um lado não usar armas nucleares, o outro não vai usar, o que é insano. No momento em que algum dos dois chegar em um ponto decisivo, quando perceber que a derrota é iminente, IRÁ utilizar um míssil balístico, na esperança de amedrontar o outro lado, no melhor estilo Mel Gibson, "eu sou louco não tenho nada a perder", mas a resposta será automática.

Ah sim, os dois estão se pegando tem mais de mês, já morreu gente, etc.

No caso da Melhor Coréia, em 1956 o país já tinha ambições de desenvolver um programa nuclear, coisa que a União Soviética era contra, mas como tinha controle absoluto do país, treinou cientistas e ajudou a montar uma indústria nuclear, com reatores para produção de energia.

Quando a União Soviética acabou e a Melhor Coréia ficou sem sua principal fonte de renda, achou que a única forma de se defender seria com armas nucleares, e acelerou o programa. Entre 1992 e 1996 o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Hans Blix tentou inspecionar as atividades nucleares da Melhor Coréia, sem sucesso, sempre sendo bloqueado de visitar instalações, ou com promessas vazias.

Hans Blix

No final em 2006 a Melhor Coréia detonou sua primeira ogiva nuclear, e de lá pra cá foram só mais e maiores bombas, e mísseis capazes de levar artefatos maiores por distâncias igualmente maiores. Por um momento pareceu que Donald Trump havia convencido o Grande Líder a encerrar seu programa nuclear, mas aparentemente os testes de mísseis recomeçaram. Mesmo assim...

A Coréia do Sul nem os EUA nunca invadiram o Norte. A preocupação sempre foi a imensa força de artilharia convencional, são mais de 10.000 peças apontando para Seul. Sem dividir um átomo sequer boa parte da cidade seria arrasada, invadir a Melhor Coréia sempre teve um custo muito alto, bomba por bomba a paz não foi mantida pelas armas nucleares, e sim pelas bombas convencionais.

Quanto a ser respeitado? Sejamos sinceros, pouca gente foi mais zoada nos últimos anos do que o Grande Líder e seus Generais:

Conclusão:

Hoje o mundo tem oito países que possuem armas nucleares:

  1. Estados Unidos
  2. Rússia
  3. Reino Unido
  4. França
  5. China
  6. Índia
  7. Paquistão
  8. Coréia do Norte

Israel para todos os fins práticos também possui armas nucleares mas nunca confirmou isso publicamente, o que as tira da equação.

De qualquer forma desses 9 países seis são racionais o suficiente para não temermos um uso impensado, mas a intercessão entre países racionais e países que querem armas nucleares é muito pequena, sempre tem um Zé Alencar ou um Bolsonaro com esses sonhos megalomaníacos, e o resultado é sempre catastrófico.

Um Brasil nuclear significa uma Argentina nuclear, todos os anos de boa-vontade e promessas de amizade cairão por terra, gastaremos dinheiro que não temos para manter um arsenal que (com sorte) não iremos usar, ao mesmo tempo que sofreremos sanções econômicas de todos os lados.

Eu sei que internamente somos os velhos selvagens do Serengeti, e desejamos esmagar nossos inimigos, vê-los caídos diante de nós e ouvir os lamentos de suas mulheres, mas armas nucleares não farão isso. A forma mais eficiente é criar um país forte, com uma economia robusta, uma elite intelectual que aproveite os talentos de todas as parcelas da população e que resolvam com ciência e tecnologia nossos problemas.

Quando esse dia chegar, o máximo de tecnologia bélica que vamos precisar é um muro na fronteira, idealmente com a Argentina pagando.

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