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Resenha — Alita: Anjo de Combate (sem spoilers)

Após quase 20 anos, a visão de James Cameron e Robert Rodriguez para Alita: Anjo de Combate chega aos cinemas. Confira nossa análise

3 anos e meio atrás

Demorou (muito), mas Alita: Anjo de Combate, a visão de James Cameron e Robert Rodriguez para o mangá de Yukito Kishiro, sobre uma ciborgue guerreira em um mundo distópico finalmente chegou aos cinemas.

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Divulgação/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Divulgação/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Afinal, tempo de espera se justificou? Descubra no review sem spoilers a seguir.

Anjo Enferrujado

A trama do filme se passa no século 26, 300 anos após uma grande guerra que devastou o mundo. A Cidade de Ferro é um caldeirão cultural, com gente de todas as partes sobrevivendo à sombra de Zalem, uma cidade aérea futurista, que extrai produtos e mão-de-obra dos rejeitados abaixo.

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

É no lixão da cidade (os rejeitos de Zalem, jogados para baixo) que muitos tiram seu sustento, inclusive o dr. Dyson Ido (Christoph Waltz, de Bastardos Inglórios), um médico que em uma de suas incursões, encontra uma ciborgue semi-destruída (Rosa Salazar, de Maze Runner), com o cérebro em estado de hibernação, sabe-se lá por quanto tempo.

Ela desperta sem memória, e Ido passa a criá-la e instruí-la, dando-lhe o nome de Alita, até que ela se lembre quem ela é de onde veio.

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Gradualmente, Alita tem flashes de sua encarnação anterior, que apontam para um passado conturbado: ela seria uma arma de combate avançadíssima mesmo para os padrões do presente, uma guerreira de elite treinada numa poderosa arte marcial perdida a séculos. Alita quer lembrar, mas não entende boa parte de suas visões.

Ao mesmo tempo, ela conhece o jovem Hugo (Keean Johnson), por quem ela se apaixona (eu sei, é clichê, mas no mangá já era assim), mas mesmo seu namoradinho guarda segredos, que envolvem o chefe do submundo Vector (Mahershala Ali, de House of Cards e Luke Cage), e sua associada Dra. Chiren (ah, Jennifer Connelly...), ex-esposa de Ido.

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

De qualquer forma, seus instintos a empurram para uma batalha atrás da outra, e cai de cabeça numa trama envolvendo os guerreiros-caçadores da Cidade de Ferro (mercenários que caçam criminosos, subordinados à administração da Zalem), o Motorball, o esporte número um da cidade, Vector, Chiren e claro, a utópica cidade aérea, que vive da miséria de quem está abaixo dela.

Anjo Translúcido

A saga de Alita nos cinemas começou muito tempo atrás, mais precisamente em 1999, quando James Cameron conheceu o mangá Battle Angel Alita (no Japão, GUNNM: Hyper Future Vision) por Guillermo Del Toro. No ano seguinte, o diretor adquiriu os direitos da obra, e começou a desenvolver as ideias para a película.

Desde o início, Cameron deixou claro que enquanto as tecnologias de CGi não fossem boas o bastante, para criar uma Alita/Gally, uma ciborgue que não fosse nem humana e nem máquina, e, ao mesmo tempo, crível, o projeto não veria a luz do dia. Só que nesse meio tempo, Avatar (2009) aconteceu.

A aventura dos na'vi rendeu tanto dinheiro à Lightstorm Entertainment (a produtora de Cameron) e à Fox, que o diretor acabou se enfiando na produção de quatro sequências simultaneamente, enquanto Alita juntava pó. Ele poderia produzir, mas não o dirigiria tão cedo.

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

A solução foi passar o bastão para Robert Rodriguez, que tem em Alita: Anjo de Combate sua primeira direção de um filme PG-13; até então, ele só comandou produções adultas (Um Drinque no Inferno, Planeta Terror), ou para crianças (a franquia Pequenos Espiões).

O resultado é uma produção ágil, com ritmo perfeito nas cenas de ação (a sequência no Motorball é fantástica), enquanto alguns dos maneirismos de Cameron despontam aqui e ali. Há a heroína deslocada, a manic pixie dream girl na forma de Hugo (ele é basicamente o Jack, de Titanic, em versão mais suja), um vilão maior do que tudo o que protagonista pode enfrentar, mas ela entra de cabeça mesmo assim, e por aí vai.

Claro, há alguns probleminhas. A trama do filme é uma condensação dos quatro primeiros volumes do mangá original, com a adição de personagens e um subplot do OVA, uma animação lançada direto para Home Video em 1993, e que nem é tão boa assim, falemos a verdade.

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Ou seja, Alita: Anjo de Combate tem conteúdo demais, e personagens demais. Masherhala Ali está perfeito como Vector, mas aparece pouco; já a Chiren de Jennifer Connelly é extremamente contraditória, rasa até, e acaba se contradizendo, em palavras e ações, no decorrer da história, em nome de um instinto que até determinado momento, ela não mostrou ter.

Já Keean Johnson até convence como Hugo, o personagem é essencialmente o mesmo do mangá, mas como o filme precisa de dividir entre ação, drama e romance, quase não há foco em todos esses núcleos. O espectador não consegue se conectar com todo mundo, e vai simpatizar com no máximo dois ou três personagens, enquanto espera pela próxima cena de ação.

E sobre personagens: Alita é incrível. A atriz Rosa Salazar conseguiu, com performance vocal e captura de movimentos, dar vida a uma das personagens mais fortes e complexas dos quadrinhos (oriente e ocidente, tudo junto). As feições da protagonista, com olhos grandes como no mangá caem no Vale da Estranheza, o que foi feito de propósito, mas seu carisma, inocência e determinação vencem o incômodo, e você vibra a cada chute e soco que ela desfere nos adversários.

Para quem leu o mangá, há uma série de elementos, personagens e situações ipsis litteris, enquanto outros foram sutilmente adaptados, de forma a criar um ambiente coeso e multicultural, como a Cidade da Sucata sempre foi. Não é exagero dizer que Alita: Anjo de Combate é uma das três melhores adaptações de um mangá para a tela grande, junto com No Limite do Amanhã e A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, mas ficando à frente de ambos.

No fim, fica a promessa de uma franquia, que pode manter Alita viva por muito tempo, desde que James Cameron não leve outros 20 anos para soltar uma sequência.

Conclusão

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Alita: Anjo de Combate (Crédito: Reprodução/Lightstorm Entertainment/Troublemaker Studios/TSG Entertainment/20th Century Studios/Disney)

Robert Rodriguez fez um excelente trabalho, dando a Alita: Anjo de Combate o tom e aventura juvenil que ele precisava. Ao mesmo tempo, James Cameron conseguiu conter boa parte de suas manias de roteiro; até o clássico momento "agora é pessoal" do vilão mudou, desta vez caindo no colo de Alita.

Por outro lado, condensar quatro volumes do mangá original (e uma subtrama do esquecido OVA) em duas horas de filme cobra seu preço: bons personagens ficaram subaproveitados, ou fazem coisas que não condizem com sua apresentação inicial. Ainda assim, Alita: Anjo de Combate não é tão sem substância quanto a crítica diz; ele É clichê, assim como o mangá é. Quer algo mais básico do que o romance entre um humano e uma ciborgue?

Porém, as sequências de luta são extremamente bem feitas, e Alita é suficientemente carismática para superar a repulsa inicial a seu rosto diferente. No fim, temos em Alita: Anjo de Combate um boa aventura para uma matinê, que apresenta um riquíssimo universo, cheio de histórias para serem contadas.

Nota:

4/5 pudins.

4 de 5 pudins / Alita

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Você pode adquirir o mangá Battle Angel Alita, que foi recentemente republicado no Brasil, em formato digital (9 edições) ou impresso (4 edições). Já a continuação Battle Angel Alita: Last Order está chegando agora ao país, no formato físico e em 12 volumes.

Battle Angel Alita (Crédito: Divulgação/Shueisha)

Battle Angel Alita (Crédito: Divulgação/Shueisha)

Você encontra ambas coleções em livrarias e lojas especializadas.

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