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Resenha: The Little Drummer Girl – minissérie une John le Carré e Park Chan-wook

Nossas impressões sobre The Little Drummer Girl, adaptação do livro de John le Carré inteiramente dirigida por Park Chan-wook (Old Boy)

27/12/2018 às 12:55

A série The Little Drummer Girl (A Garota do Tambor), exibida lá fora pela AMC, é uma adaptação em seis episódios do clássico livro de John le Carré, dirigida pelo excelente diretor sul-coreano Park Chan-wook, uma mistura que à primeira vista pode não combinar, mas que dá muito certo na tela.

Alexander Skarsgård e Florence Pugh na série The Little Drummer Girl

A nova série tem um casting de primeira linha, com um Alexander Skarsgård enigmático e um Michael Shannon totalmente mergulhado em seu papel de Marty Kurtz, além de Florence Pugh (Lady Macbeth e Legítimo Rei) brilhando como Charlie, a garota do tambor do título, um papel que no cinema foi de Diane Keaton, mas que ela toma pra si de forma intensa.

A produção é da AMC/BBC, com produção executiva de Simon e Stephen Cornwell, que são filhos de John le Carré, e os responsáveis por cuidar das adaptações da obra dele para o cinema e TV. The Little Drummer Girl segue passos de O Gerente da Noite (The Night Manager), outro livro dele que virou uma excelente minissérie da AMC e BBC em 2016, e que também tinha ótimos atores no elenco, Hugh Laurie e Tom Hiddleston.

Antes mesmo de falar na história, preciso elogiar o diretor Park Chan-wook, que assina os seis episódios de The Little Drummer Girl. Se em The Night Manager eles escolheram a dinamarquesa Susanne Bier (vencedora do Oscar e diretora do recente Bird Box da Netflix), a opção mais uma vez foi muito feliz, com resultados de alto nível.

Por trás das câmeras, em sua primeira aventura na TV, está uma lenda do cinema coreano e mundial, que por si só é um ótimo motivo para você parar de ler esta resenha e ir logo assistir a série. Park é meu diretor coreano favorito, criador da Trilogia da Vingança que inclui o genial Old Boy, além de ter na carreira filmes como A Criada, Segredos de Sangue e muitos outros.

Park não está sozinho em sua missão de fazer uma bela série sobre o livro de John le Carré, ele trouxe seus fiéis escudeiros Jo Yeong-wook, responsável pela criação de trilhas sonoras dos seus filmes desde os tempos de Old Boy, e o diretor de fotografia Kim Woo-hyung, com quem também trabalhou em vários projetos. Os dois fazem toda a diferença no clima desta nova versão de A Garota do Tambor.

Michael Lesslie escreveu quatro episódios, e Claire Wilson os outros dois. Pra quem não tiver lido o livro, neste post não vou falar nada sobre a trama além da premissa básica, e só entro em detalhes mesmo sobre o que acontece no primeiro e no máximo no segundo episódio, com o objetivo que mais pessoas assistam a série. Depois dessa apresentação básica, vou falar um pouco sobre a série em si, tentando não dar spoilers.

Para ler mais sobre a série sem saber mais nada sobre a trama inicial, é só pular os próximos 14 parágrafos (além dos vídeos). Vou repetir: se não quiser saber nada sobre a história de The Little Drummer Girl, a hora pra parar é agora e se quiser continuar lendo, faça isso por sua conta e risco.

O trailer acima apresenta a história básica, mas antes mesmo dela começar, temos um prólogo explosivo com uma mala entregue em uma casa por uma bela mulher, e que logo ficamos sabendo que se trata de uma bomba, em um atentado da OLP orquestrado por dois irmãos palestinos contra a família de um diplomata israelense, que acabou confiando em quem não devia.

Os dois irmãos da história são Salim (ou Michel, para usar seu nome falso), que é responsável pela entrega das bombas, incluindo cooptar belas ajudantes como a garota do parágrafo acima, e Khalid, por criar os explosivos. O detalhe é que Khalid sempre deixa uma boneca feita com os fios da bomba como uma assinatura pessoal.

Depois desse início literalmente explosivo, no qual podemos conferir o poder de destruição das bombas de Khalid, a série nos apresenta ao grupo antiterrorista do Mossad liderado por Martin Kurtz, ou Marty, que está de olho em Charlie, uma atriz inglesa que acaba se envolvendo na história sem sequer imaginar o que está realmente acontecendo.

Michael Shannon na série The Little Drummer Girl

Marty usa identidades diferentes para interagir com outros personagens da trama e tem ao seu lado Gadi Becker, vivido pelo ator Alexander Skarsgård, que é o típico agente secreto, e acaba servindo como isca para recrutar Charlie para um plano simples, mas bem perigoso: fingir que é a namorada de Salim/Michel e se infiltrar na organização dos palestinos.

Para descrever melhor quem é o agente secreto, vou citar o diálogo de uma cena na qual o personagem do agente israelense Shimon (Michael Moshonov) diz pra ele: "é uma honra conhecê-lo. Eu ouvi muito falar de você.", ao que Becker simplesmente responde: "não, você não ouviu."

Depois de uma apresentação, a companhia de teatro na qual Charlie trabalha é convenientemente convidada para encenar a sua peça na Grécia. Ao chegarem lá, ela passa a encontrar sempre um estranho familiar, que não por acaso andava sempre na plateia assistindo as apresentações. O estranho, é claro, é Becker, que na verdade já está vivendo como o personagem da sua próxima missão para Marty.

Em um dos encontros aparentemente casuais, ele aparece em uma praia na qual ela está com seu namorado e os outros atores, eles fazem uma brincadeira para ver quem tem coragem de falar com aquele sujeito tão misterioso. Quando chega a vez de Charlie, o estranho que na verdade é Becker finalmente se apresenta como Peter, mas ela logo começa a chamá-lo de José.

Alexander Skarsgård e Florence Pugh na série The Little Drummer Girl

Becker a convence a ir embora da cidadezinha em direção a Atenas, e os dois partem para o encontro romântico dos sonhos em uma Acrópole fechada, com o Partenon iluminado como fundo. Os dois têm uma noite quase perfeita, já que mesmo após um primeiro beijo, ele continua distante, apesar do clima e das frases, uma das quais ela reconhece que foi tirada de um livro.

Depois, Becker leva Charlie em uma corrida através da cidade em sua Mercedes vermelha e ela não fica nada confortável com toda aquela velocidade e risco. O objetivo era levá-la até a casa segura, na qual os outros agentes a esperam, e onde o mistério acaba sendo revelado.

Ao chegar, ela se encontra com Marty, que para surpresa da sua equipe, se apresenta pra ela com seu nome real. Marty diz a Charlie que ele é “o produtor, roteirista e diretor do nosso pequeno show”, e que se ela resolver aceitar o papel oferecido, no que ele chama de “teatro do real”, terá que improvisar o tempo todo, e convencer uma plateia que não fará a menor ideia de que ela é uma atriz.

O grande trunfo dela para interpretar o papel é que ela realmente tinha conhecido Michel, ou melhor, Salim, em um evento político em Dorset, tendo inclusive chamado a atenção dele. Os riscos são bem altos, e Charlie pode ter ganho o papel da sua vida, mas ela terá que tomar cuidado para ele não acabar custando a própria.

Cena da série The Little Drummer Girl

No segundo episódio, conhecemos o verdadeiro centro de operações de Marty, que fica simbolicamente dentro da Vila Olímpica de Munique, e que tem como destaque uma cela com caixas de som voltadas para dentro, especialmente preparada para enlouquecer qualquer pessoa que tiver a infelicidade de ser presa ali, que no caso é Michel, pra usar o nome que ele estava usando quando foi preso.

A partir desse momento, Becker já não sai mais do personagem, e agora está usando o nome falso de Salim, e passa insistir que Charlie só o chame de Michel. O que acontece com ela depois? Isso você vai ter que assistir a série para saber.

Charles Dance e Michael Shannon na série The Little Drummer Girl

Outro destaque da série é a interação de Marty com o Comandante Picton vivido por Charles Dance (o Tywin Lannister de Game of Thrones), que acontece em só dois episódios, mas é marcante na trama, muito por conta da química entre os dois atores, que é excelente. Dance pode aparecer pouco, mas quando o faz, rouba a cena. Apesar de acabar ajudando Marty, Picton não fica nada satisfeito com as atividades do grupo na Inglaterra.

A série The Night Manager foi atualizada para os dias atuais, mas a nova versão A Garota do Tambor ainda se passa em 1979, assim como no livro lançado em 1983, o que permite que o design e o figurino sejam pontos altos da produção. Ao contrário de outras séries de espionagem que muitas vezes contam com um clima sombrio, na nova série tudo é bem colorido, e muitas cenas são gravadas com a luz do dia.

Em uma entrevista ao The Atlantic, Park Chan-wook disse que a decisão de usar cores vivas e fortes em The Little Drummer Girl era importante para a narrativa, pois usando as suas palavras: “é mais benéfico para esses personagens que eles sejam notados e testemunhados na ficção que estão criando”.

Na mesma conversa, ele diz que adorou o filme O Espião Que Sabia Demais, inspirado em outro livro bem famoso de John le Carré, e ficou com inveja do diretor Tomas Alfredson, que tinha tido a chance de adaptar um livro do mestre da espionagem. Dessa vez, Park conseguiu. O cineasta também conta que quando era pequeno, pensava em fazer seus próprios filmes do 007, e em The Little Drummer Girl, isso fica bem claro.

Dá pra ver que Park está se divertindo, criando seus próprios mini-filmes de espionagem. Por mais que The Little Drummer Girl não seja definitivamente uma série de ação, tirando algumas cenas explosivas, é inegável que o diretor leva jeito para falar de espiões, e como ele também sabe filmar ação e violência como poucos, o que mostrou ao longo da sua carreira, pode tranquilamente assumir um filme da franquia, se um dia assim quiser.

Alexander Skarsgård e Florence Pugh na série The Little Drummer Girl

No site da AMC, Florence falou sobre a sua experiência com a série, o que ela acha da personagem Charlie e suas motivações. Ela também conta como foi trabalhar com Michael Shannon e Alexander Skarsgård, além é claro das emoções de filmar na Acrópole fechada durante a noite, sem nenhum turista por perto, e também conhecer pessoalmente John le Carré (só depois das filmagens).

Sempre gosto de dizer que estamos vivendo a “Era de Ouro” das séries, e The Little Drummer Girl é só mais um ótimo exemplo disso. Eu recomendo fortemente essa série pra todos que gostem de espionagem e tramas políticas. Se você é um destes, faça um favor a si mesmo e assista a série da AMC assim que ela chegar ao Brasil, o que infelizmente ainda não tem previsão pra acontecer. Caso alguma emissora compre os direitos no futuro (próximo ou não), pode deixar que avisarei a vocês neste post.

Os irmãos Cornwell não descansam, e já estão preparando a próxima série inspirada em um dos livros mais famosos de John le Carré, O Espião que Saiu do Frio. Pela qualidade das últimas duas séries que produziram, desde já aguardo ansioso.

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