Estado dos EUA vai testar votação com smartphone

A gente gosta de dizer que com o fim do governo militar o brasileiro tomou um porre de democracia e meteu os pés pelas mãos nas urnas, mas sendo honesto mesmo nas eleições locais, durante e antes dos militares a gente já fazia a festa. Os casos eram folclóricos, fiscais de partidos marcando votos em branco, urnas que sumiam levadas em um camburão e depois reapareciam sem maiores explicações… nesse tempo todo a gente imaginava os americanos que deveriam ter eleições altamente tecnológicas.

Hoje temos um sistema de votação eletrônica invejável, aprovado por todos os partidos mas claro que você pode abraçar sua conspiração preferida e acreditar na Grande Cabala Negra que manteve o PT no poder por quase 20 anos e encenou um impeachment para então eleger seu candidato nas urnas manipuladas e-deixe pra lá. A questão é que as eleições nos EUA estão LONGE de ser essa maravilha toda, na verdade ela é patética. Na eleição que Al Gore perdeu para George Bush, um dos problemas eram as cédulas em Palm Springs, tipo esta:

O eleitor tem que votar furando o espaço correspondente à chapa, só que o filho de uma rameira que fez essa cédula usou três linhas de descrição e uma linha de furo. Quem marcasse o primeiro furo que olhando rapidamente parece está alinhado com os Democratas, acabaria votando pro Partido Reformista.

O grande problema é que as eleições nos EUA são gerenciadas pelos Estados, e eles aproveitam para votar em tudo, de Presidente a Xerife e Promotor Público. Eles votam até pra Juiz, imagine isso aqui.

Para dar uma idéia, esta foi a cédula da eleição presidencial de 2012 na Flórida:

Com os esforços estaduais não-coordenados, exigências e características específicas de cada região, é natural que não haja um sistema de votação que atenda a todos, há Estados que permitem que você vote pelo correio, outros usam máquinas mecânicas de votação, e há quem tente com urnas eletrônicas, mas o povão está mais acostumado com coisas arcaicas como isto:

É um trambolho onde você seleciona seus candidatos com botões e dials, e ao invés de apertar 13 e confirmar, puxa a alavanca vermelha para perfurar um cartão de papel. E não, isso não é coisa dos anos 50.

Isso não quer dizer que não haja gente buscando soluções tecnológicas avançadas e seguras, mas se há algo que não combina com esse tipo de situação, é hype. E não há hype maior do que uma tal de Voatz, uma startup fundada em 2014 com a proposta de criar opções seguras para eleições, que atraiu a atenção da West Virginia.

Desde o nome eles são a startup descoladona com videogame pros funcionários e a atitude oposta do que problemas sérios como segurança em uma votação exige.

O Hype? Bem, digamos que eles estão planejando uma solução usando app de celular e… wait for it… Blockchain.

Isso mesmo, Blockchain, o txt encadeado que surgiu com o Bitcoin e tem poderes mágicos de hype, como fazer as ações da Kodak valorizarem 60% só por dizerem que vão usar a tecnologia.

Segundo a Voatz (céus, como eu odeio esses nomes descolados) os votos serão gravados de forma anônima em uma blockchain, garantindo a transparência do processo. A votação também será anônima (juram) mas você terá que se identificar junto à app. Isso será feito enviando uma foto de um documento oficial com foto e fazendo um vídeo de seu resto. Sim, eles acham que vão garantir a segurança com um vídeo, em tempos de DeepFakes.

Segundo a CNN um monte de especialistas estão achando a idéia péssima.

Joseph Lorenzo Hall, chefe de tecnologia do Centro para Democracia e Tecnologia disse que “Votação mobile é uma idéia horrível. é votação pela internet em dispositivos com segurança horrível, em redes horríveis, com servidores muito difíceis de proteger e sem nem um registro em papel do voto”.

Outros dizem que essa idéia irá aumentar enormemente o horizonte de ataques, e que muita coisa pode acontecer com o voto no caminho.

Lembrem-se, que diz que a idéia de voto por smartphone via internet é ruim é o mesmo pessoal que acha perfeitamente seguro colocar um voto na caixa do correio e confiar que será entregue direitinho na comissão eleitoral.

Pelo menos a tecnologia não será usada amplamente, a idéia é que nas próximas eleições em Novembro na West Virginia  ela esteja disponível para tropas estacionadas no exterior. Esperemos que até lá seja feito barulho o bastante pra se tocarem e ou desistirem ou repensarem o modelo de segurança.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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