Idiotas dizem que o mundo vai acabar dia 29, se não chover

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Um dia eu resolvi fazer uma pesquisa. Procurei por “profecias” de fim de mundo para o ano atual. Achei. Testei o anterior. Também. Mais um atrás. Tinha. Passei a pular 5 anos, depois dez. Para todo ano havia pelo menos uma notícia sobre um grupo que, com certeza ABSOLUTA havia calculado que aquele era o ano em que o mundo acabaria.

O mais assustador é que os mesmos grupos, às vezes as mesmas pessoas repetidamente profetizavam o apocalipse, erravam e ficava tudo por isso mesmo. As pessoas continuavam acreditando. Um sujeito afirma que o MUNDO vai acabar, a única prova é sua palavra, erra, repetidos anos e as pessoas ainda acreditam. Aí você chega com 10.000 pesquisas científicas sobre aquecimento global, o sujeito diz que “sei não…”.

A última bobagem está sendo espalhada por um monte de perfis de Twitter e Facebook especializados em variedades, sem nenhum compromisso com fatos ou ciência. E pela velha mídia também, tipo o Mirror.

A “prova” de que agora é mesmo o fim do mundo como sempre é tirada da cavidade retrofuricular de quem criou a profecia, ou de um lugar bem parecido: a Bíblia. Um vídeo de YouTube, autoridade máxima em termos de profecias apocalípticas diz que dia 29 de julho a Terra sofrerá uma inversão dos pólos magnéticos e isso destruirá o planeta.

Já criei até o Evento no Facebook, para quem quiser acompanhar, mas posso dar um spoiler: não vai acontecer nada, e aqui entra a parte divertida e científica: não vai acontecer pois JÁ ACONTECEU. E um monte de vezes.

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Eu explico.

O núcleo da Terra é uma esfera de metais pesados, principalmente ferro. Ela tem uns 1.200 km de diâmetro e é bem quente, uns 5.400 graus Celsius. Apesar da temperatura ela é sólida: a pressão de quase 4 milhões de atmosferas impede que metal líquido exista.

Acima dela, com a pressão mais civilizada temos um manto de metal líquido, em constante movimento por causa da rotação da Terra, correntes térmicas, etc. Essas duas imensas quantidades de metal geram um efeito de dínamo, criando cargas elétricas imensas e campos magnéticos equivalentes.

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Esse sistema não é estável. Uma prova disso é que o pólo norte magnético é diferente do pólo norte geográfico. Mais ainda: os pólos magnéticos estão se movendo. Desde que determinaram sua posição no começo do Século XIX o Pólo Norte já se moveu mais de 1.100 km. Carteiros odeiam Kal-El e Papai-Noel.

Quer mais? No começo do Século XX a velocidade de movimentação dos pólos magnéticos era de 16 km/ano. Hoje ela está em 64 km/ano.

Em algum momento o sistema atingirá um ponto em que os pólos se inverterão, atingindo novo equilíbrio temporário. Pode ser dia 29? Pode, mas as chances são ínfimas.

Ao contrário dos profetas, que baseiam suas profecias em doença mental, a ciência busca evidências para comprovar suas hipóteses, e no caso ela é encontrada no alinhamento magnético de rochas vulcânicas, na disposição de isótopos em camadas geológicas e em faixas magnéticas de material depositado no fundo dos oceanos.

Essas pesquisas descobriram que não só o campo magnético da Terra já se inverteu, como se inverte O TEMPO TODO (geologicamente falando). O intervalo entre inversões se chama Chron, há Chrons que duram 10 milhões de anos, outros bem menos.

Na média os pólos magnéticos da Terra se invertem a cada 450 mil anos, mas isso varia e muito. Em um período de 3 milhões de anos foram 13 inversões. Em outro período de 1 milhão de anos, só 5 inversões. Aí em um periodo de 50 mil anos duas. Outra vez temos 10 milhões de anos sem nenhuma inversão. Mais atrás, 40 milhões e nada.

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Durante a última Era do Gelo, 41 mil anos atrás, tivemos uma inversão completa que durou 440 anos, pra inverter e reverter completamente. O processo em geral leva entre 1.000 e 10.000 anos, mas há inversões que acontecem em menos de 70 anos.

A situação do campo magnético da Terra durante a inversão não é nada bonita. O termo científico para o que acontece com ele é “rebuceteio”.

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No meio da reversão o campo magnético chega a apenas 5% da força normal, deixando a Terra bem exposta a raios cósmicos e vento solar, isso não é nada bom para quem não quer ter filhos esquisitos, mas como ainda estamos todos aqui, foi levantada a hipótese de que a atmosfera oferece uma boa proteção contra radiação, e o que chega à superfície não aumenta a exposição o suficiente para causar danos.

Claro que isso seria péssimo para nossos sistemas de navegação e tudo que envolva magnetômetros, e boa parte dos nossos satélites de órbita baixa deixariam de funcionar antes do projetado, mas fora isso, nada. Pombos também não gostariam muito do evento, mas estaria longe de uma extinção em massa.

Isso aliás foi estudado: não há correlação NENHUMA entre mudanças nos pólos magnéticos e as várias extinções em massa pelas quais a Terra já passou.

Os Alarmistas do Apocalipse conseguiram escolher um dos poucos, talvez o único evento global altamente dramático que não afeta em absolutamente nada a vida na Terra. Ou seja: ciência é importante mesmo quando você é um fanático histérico irracional profetizando o Apocalipse.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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