Crítica: Perdido em Marte — ou… Marte Ataca Matt Damon

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Quando me recomendaram The Martian, de Andy Weir, fiquei com pé atrás: a ficção científica atual é em geral muito ruim e Marte foi explorado mais que vampiros e distopias adolescentes, mas não custa dar uma conferida. Na primeira linha o livro me ganhou, quando Mark Watney abre seu diário com:

Eu estou basicamente fodido.”

Percebi na hora que não estava lendo um livro pretensioso, com ilusões de épico, muito menos de um autor que se leva a sério demais pro próprio bem. Ao final só tenho a lamentar que tenha sido tão rápido, devorei 300 páginas em duas sentadas (ui!). Agora com a versão em filme ficou a dúvida: seria dirigido pelo Ridley Scott de Alien ou o de Prometheus?

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Nenhum dos dois, Perdido em Marte é do Ridley Scott de Blade Runner, o diretor que pegou uma obra literária ótima e a transformou em algo mais. Havia um milhão de possibilidades de o filme sair ruim: poderiam criar um interesse romântico para Mark, aumentar o romancinho na tripulação da Hermes, incluir um sidekick de alguma minoria (mais provavelmente chinês para faturar na bilheteria), ou criar um vilão além de Marte.

Hollywood nunca se deu bem com histórias onde as circunstâncias, ou a Natureza, é vilã: é preciso personificar o mal, coisa que Ridley Scott se recusou a fazer. Mark tem contra si apenas Marte e a própria estupidez, como ele mesmo diz.

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A premissa do filme é bem simples: em um futuro próximo uma tempestade de areia faz com que os tripulantes sejam obrigados a abortar a missão e decolar de Marte. Mark Watney é atingido por um destroço do sistema de comunicações, seu biomonitor é danificado, ele está perdido de noite desacordado no meio de uma tempestade. É dado como morto, e a tripulação foge. Horas depois ele acorda, descobre que está sozinho e a única chance de sobreviver é usar ciência até fazer bico, como adaptaram o science the shit out of it.

Ciência é o foco de Perdido em Marte, é o filme mais Científica e menos Ficção que vi em muito tempo. Só é ficção por não ter acontecido (ainda). Esse filme é a Vingança dos Nerds. Manja aquela cena (real) de Apollo XIII com os nerds da NASA batendo cabeça pra descobrir como fazer um filtro de CO2 quadrado se encaixar em um buraco redondo? Perdido em Marte é 2 h disso. E discoteca. E é maravilhoso.

É um filme onde ninguém morre (nem o Sean Bean!), não tem gente gritando (sorry, Porchat) nem tem as pretensões filosóficas de Gravity, ou a arrogância messiânica de Interestelar. É um filme simples sobre um sujeito simples que está fodido sabe disso mas não abre mão da esperança nem do bom humor.

Humor aliás é o foco, várias partes do livro que terminaram em sorrisos no filme rendem risos altos da platéia. Mark Watney ri de si mesmo, ri de sua situação, e isso o torna humano.

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Matt Damon ganhou um senhor presente de Natal com esse papel. Fora algumas cenas rápidas no começo do filme ele não interage com ninguém diretamente, ele conversa conosco, através dos vídeo-diários. Com eles Damon vende o personagem, passamos a gostar e nos preocupar.

A Ciência

Perdido em Marte faz cafuné na glândula científica do espectador (a metáfora era outra mas tem criança lendo). Há coisas erradas? Sim, claro, o solo de Marte é cheio de percloratos, que não são saudáveis de se respirar, mas Andy Weir (nem ninguém) sabia disso quando ele escreveu o livro. As distâncias são encurtadas para facilitar a vida do espectador, mas não há nada errado no mau sentido.

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“My God, it’s full of potatoes”

As soluções, tanto de Watley quanto da NASA são perfeitamente viáveis e lógicas, os prazos são realistas, ninguém tira foguetes do bolso, mesmo na correria prazos de muitos meses no máximo viram poucos meses.

Antes de cada sequência de comunicação com Watney dão um jeito de algum personagem mencionar o tempo de trânsito do sinal, que mesmo na velocidade da luz leva mais de 20 minutos para ir e voltar de Marte. O espectador comum pode até achar que a comunicação é instantânea, mas foi avisado mais de uma vez.

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Perdido em Marte é a prova de que você consegue fazer um filme inteiro onde os problemas são resolvidos com o cérebro, não com os músculos. Nosso herói não é um Space Marine dos Roughnecks, é um botânico. Não quer dizer que não quero mais Expendables, quero e muito, mas do mesmo jeito que o Expendables com mulheres que estão fazendo não implica no fim do Expendables com brucutus, o filme inteligente com herói cerebral é mais diversidade em termos de roteiros, e isso é bom. IDIC, diria um certo sujeito de orelhas pontudas.

Marte é Incrível

Os efeitos visuais da Industrial Light and Magic estão lindos, Marte parece Marte, não aquela bosta que mostraram em John Carter. Não é fácil, estamos falando de um planeta cheio de robôs e sondas e câmeras de alta resolução, produzindo imagens como este panorama montado com fotos da Spirit, 22.348 × 3.997 pixels. Não clique se estiver mobile, lembra da piada da formiguinha e do elefante?

Minha única reclamação é que o 3D tornou os panoramas achatados, em algumas cenas parece que estamos vendo uma fotografia estilo tilt shift, aquele efeito onde imagens reais parecem miniaturas. Se possível veja em 2D.

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O triste da Hermes é que poderíamos ter uma nave dessas HOJE, mas as pessoas preferem se explodir…

A Hermes é uma nave suspeitosamente familiar, os painéis lembram muito os propostos para a Dragon V2. Pensando bem faz sentido, no material de apoio explicam que a nave foi construída em uma estação espacial da SpaceX.

Ela parece uma nave que estaremos usando em 30 anos, toda a tecnologia mostrada existe, no máximo não está aprimorada, como motores iônicos mais potentes, mas a única coisa que impede uma nave com toda a tecnologia mostrada no filme é vontade política, uns 10 anos de trabalho e uma kidbengalada de dinheiro.

Would you like to know more?

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Perdido em Marte vai te deixar com curiosidade, e o livro é perfeito para isso, a ciência é bem mais explicada, bem como os detalhes das missões. Você vai encontrar o mesmo Watney, vai dar uma cara a ele (se bem que todas as edições agora já vêm com a fuça do Matt Damon na capa) e vai entender a complexidade envolvida em plantar batatas.

Conclusão

Perdido em Marte conseguiu elevar para dois o número de filmes bons passados em Marte, deixando Total Recall para trás no quesito MELHOR filme marciano. É um filme leve, sem reflexões filosóficas, visualmente primoroso como tudo que Ridley Scott faz (incluindo Prometheus) e que traz uma mensagem fundamental: exploração espacial existe por causa de humanos, enquanto mandarmos só robôs nós não estaremos efetivamente “lá”.

Cotação:

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5 de 5 batatinhas, excelente!


Fox Film do Brasil — Perdido em Marte | Segundo Trailer Oficial Legendado | HD

Perdido em Marte entra em cartaz dia 1º de outubro, com cópias dubladas e legendadas, 3D e 2D.

Agradecimentos ao pessoal do SciCast que arrumou essa cabine pra gente…

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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