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Histórias de Guerra: o Buraco da Beatriz

Senta que lá vem História. No caso uma falha de projeto que tornava os Spitfires da RAF vulneráveis aos caças nazistas. Depois de 5 anos o problema caiu no colo da maior autoridade técnica naquele tipo de motor. Spoiler: ela resolveu o problema. Plot twist: era uma mulher.

5 anos atrás

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O Supermarine Spitfire foi um melhores caças da Guerra. Projetado por pura teimosia de seu criador, era muito mais moderno do que tudo que a Força Aérea Real (RAF) pedia em suas especificações, e suas encarnações anteriores foram rejeitadas nas licitações por causa disso.

Usando dinheiro da própria empresa chegaram a um protótipo que incluiu a construção do motor Rolls-Royce Merlin 45, um supercharged de 1.470 bhp de potência. A especificação da RAF falava de 400 km/h, o Spitfire fazia 595 km/h.

Introduzido ao público em 1936, a primeira unidade só foi sair da linha de produção em maio de 1938. Algumas da fábricas em 1940 ainda não tinham construído um Spitfire sequer, e não é só o tempo, Hitler também não espera ninguém.

Junto com o Hurricane enfrentou os Me 109 de igual pra igual na Batalha da Inglaterra. Ou quase.

Havia uma falha de projeto. Para otimizar o supercharger e extrair mais potência do motor, o Spitfire usava carburadores simples. Quando os pilotos faziam uma manobra de G negativo, como empurrar o manche pra frente e empicar pra baixo, a (ausência de gravidade) fazia com que a gasolina dentro do carburador voltasse. Como a bomba de combustível ainda estava bombeando, mais e mais gasolina se acumulava, às vezes lotando a câmara do carburador.

Isso fazia com que os cilindros recebessem uma mistura excessivamente rica, com gasolina demais em proporção ao ar. O resultado era que uma manobra brusca fazia o avião perder potência. Se o piloto continuasse mais que alguns momentos, o motor morria, o que é péssimo no estacionamento do supermercado, horrível a 4.000 metros de altitude, com dois chucrutes na sua traseira tentando fazer experimentos para descobrir se pilotos ingleses morrem por envenenamento com chumbo.

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Spitfires, para os não-iniciados.

A tática sugerida era antes de mergulhar, inverter o avião, assim a gasolina continuaria indo pro lugar certo. Legal mas com isso você levava mais tempo pra manobrar, o que é ruim, e indicava aos krauts que planejava mergulhar, o que era pior ainda.

Os aviões nazistas não tinham esse problema, o país que deu ao mundo o BMW, o Audi e a Mercedes usava injeção direta de combustível.

O problema era velho conhecido, e os pilotos da RAF não aguentavam mais arriscar a vida por causa dele. E também não dava pra voar de cabeça pra baixo. O pessoal da Supermarine trabalhava incessantemente tentando resolver a falha, até que no finalzinho de 1940 acharam a solução. Ou melhor, quem achou foi essa moça rebelde aqui:

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Beatrice Shilling nasceu em 1909. Filha de um açougueiro em Waterlooville, uma cidade que hoje tem 20 mil habitantes, imagine naquela época. Mesmo assim ela deu sorte. Seus pais eram inteligentes, e não criaram Beatrice para ser mais uma unidade reprodutora de bebês, como era (ok, é) tão comum.

Quando saiu da escola ela foi trabalhar para uma empresa de engenharia elétrica, onde ficou por três anos. A chefa de Beatrice, Margaret Partridge, era envolvida com a WES, Sociedade de Mulheres Engenheiras, uma organização que estimulava o interesse de mulheres por ciência e tecnologia.

Margaret convenceu Beatrice a continuar seus estudos. Em 1929 ela era uma das duas calouras do curso de engenharia elétrica na Universidade de Manchester. Certas coisas não mudam.

Depois de formada ela fez um Mestrado em Engenharia Mecânica, descobriu as motos e virou piloto de corrida, em uma época onde usar calças já era mal-visto em uma mulher. Conseguindo uma vaga de professora-assistente, ela trabalhou na Universidade de Birmingham, estudando com o Professor GF Mucklow o comportamento de motores com supercharger.

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Beatrice não era figura fácil na época, odiava que qualquer um, principalmente um homem a colocasse em posição de inferioridade. Ela disputava competições de moto-velocidade, brigando de igual para igual com corredores profissionais. Ela foi a mulher mais rápida em Surrey, ganhando uma estrela de ouro por pilotar uma Norton M30 a 171 km/h.

Ela era tão competitiva que só aceitou a proposta de casamento do futuro marido, um piloto de bombardeiros da RAF, depois que ele conseguiu fazer o mesmo circuito a mais de 160 km por hora.

Quando a guerra estourou, Beatrice foi recrutada para a área de pesquisa aeronáutica da RAF, a RAE. Logo ela se tornou a autoridade máxima em carburadores aeronáuticos. Quando o problema dos G's negativos se tornou incontornável, e os engenheiros da Supermarine tentaram de tudo e não conseguiram resolver, soltaram a batata na mão dela.

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“Ih dona, deu pobrema na biela, é compricado de explicar, não quer chamar seu marido?”

Beatrice Shilling olhou, pensou, desmontou e montou carburadores, deve ter saído pra dar uma volta de moto matutando o problema. A solução? Limitar o combustível que chega ao carburador. Em vez de deixar a tubulação aberta, ela instalou um limitador, pouco mais que uma arruela, que permitia que o combustível passasse no fluxo máximo que o motor suportava, mas não mais.

Durante o começo de 1941 ela comandou uma equipe que percorreu todas as bases da RAF, instalando os limitadores nos Spitfires. Em março todos os caças britânicos haviam recebido o upgrade, um problema de 1937 estava resolvido.

A peça, oficialmente chamada de “Limitador da RAE”, mas os pilotos sendo pilotos, chamavam o negócio “carinhosamente” de “Orifício da Miss Shilling”.

A solução ainda não permitia que os aviões voassem invertidos, isso só foi possível em 1943, mas a RAF ganhou dois anos onde os pilotos podiam voltar a manobrar, fugir e atacar, sem medo do motor morrer. Se o Spitfire é o avião que salvou a Inglaterra, Beatrice Shilling é a mulher que salvou o Spitfire.

Além de seu Mestrado e depois um doutorado pela Universidade de Surrey, Beatrice era membro do Instituto de Engenheiros Mecânicos e da Sociedade de Mulheres Engenheiras. Por seus serviços durante a Guerra ela foi agraciada com a Ordem do Império Britânico.

Aos 81 anos, no dia 18 de novembro de 1990 Beatrice Shilling morria, deixando um raro legado. Contrariando a sociedade de sua época não só foi bem-sucedida em uma carreira que 106 anos após seu nascimento ainda é predominantemente masculina, como de bônus ainda ajudou a derrotar Hitler.

A RAF, assim como o Mundo, deu mais sorte com a Beatrice.

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