Curiosity acha indícios circunstanciais de hipotética, mas improvável vida em Marte. Ou não.

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O anúncio feito pelo JPL, embora bombástico é um belo exemplo de ciência feita direito. É baseado em resultados colhidos pelos sensores da Curiosity em Marte, no final de 2013 e começo de 2014. Durante um ano os dados foram estudados, hipóteses formuladas para explicar os resultados, técnicas e interpretações foram desafiadas, alternativas propostas e então, só então depois de resistir a um ano de escrutínio, a descoberta foi divulgada:

Acharam moléculas orgânicas e variações enormes de metano em Marte.

E?

Metano é importante, primeiro por ser intimamente associado a seres vivos. 90% do metano da Terra tem origem biológica. Ele precisa ser reposto, pois adora reagir com hidroxilas na atmosfera, e depois de uma série de reações, o que começou como CH4 e HO termina como CO2 e H2O. ♫It’s the Circle of Life metano♬.

Uma molécula de metano na atmosfera terrestre dura menos de 10 anos antes de ser convertida (oh glória). Uma quantidade apreciável do composto é sinal de que algo o está produzindo, e em planetas rochosos pequenos isso costuma indicar vida. Ao menos em 100% dos planetas que estudamos de perto o fenômeno, claro.

Todas as pesquisas dos EUA, Índia e outros países da elite capaz de explorar Marte indicaram níveis ínfimos de metano no planeta, incompatíveis com processos biológicos em larga escala. Entretanto algo curioso foi detectado pela Curiosity.

Em um período de 20 meses eles testaram a atmosfera atrás de metano 12 vezes. Em 4 dessas medições acharam picos de 7 partes por bilhão. 10 vezes a média, mas ainda assim insignificante perto das 1.800 partes por bilhão da atmosfera terrestre.

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Algum processo produziu esses picos. As hipóteses variam. Os cientistas chegaram a procurar por sinais de meteoritos nas imediações, imaginando que tivesse caído algum perto da Curiosity, trazendo Metano em sua composição.

Fora a hipótese biológica há um monte de processos que podem gerar metano. Ninguém fora mídia sensacionalista está vendendo o peixe de que encontraram vida em Marte, mas ela também não pode ser descartada ainda. Infelizmente, pois se a Curiosity tiver atropelado algum pobre verme marciano, um dos últimos da espécie vivendo em uma poça de gosma na Cratera Gale, pegará mal.

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Ok, o cenário é improvável. Mesmo dentro da hipótese de origem biológica estatisticamente possível, dificilmente a explicação vai além de bolsões de bactérias, vivendo abaixo da superfície, os últimos remanescentes da vida em Marte. Alienígenas de 3 seios agora, só em fósseis ou em nossas memórias adolescentes.

Como a Curiosity não foi projetada para identificar vida biológica, teremos que esperar por uma nova missão, que também estudará a fundo outra descoberta do nosso querido robozão: moléculas orgânicas no solo marciano.

Moléculas orgânicas não significam vida. Moléculas orgânicas são moléculas criadas em ambiente ecossustentável, sem uso de antibióticos hormônios ou aditivos, com espaço para pastar, ciscar os seja lá o que as moléculas orgânicas façam formadas por compostos de carbono.

Perfurando uma pedra batizada de Cumberbatch Cumberland, encontraram quantidades significativas de clorobenzeno, C₆H₅Cl pros íntimos.

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O mais divertido é que os sites de ufeiros e o History Channel não pesquisam muito, então perderam a oportunidade de alardear que clorobenzeno não é um composto encontrado naturalmente, na Terra ele existe exclusivamente produzido pelo Homem.

Ou seja, das duas uma: ou encontramos os restos de uma usina petroquímica marciana, ou o planeta apresenta processos químicos inexistentes na Terra. Marte tem uma química… alienígena.

A Curiosity está dentro da Cratera Gale, que já foi um lago, milhões de anos atrás. Isso não é mais hipótese, a evidência das camadas de sedimentos é forte demais:

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Toda a água que sobrou, e hoje está impregnada nas rochas no fundo da cratera pode trazer as respostas que queremos. Talvez existam até microfósseis. O mais excitante é que antigamente esse tipo de dúvida era respondida com “nunca saberemos”, mas hoje é apenas questão de tempo.

Fonte: JPL.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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