Crise na Ucrânia: sobrou até pro nosso datilógrafo

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Em 2003 uma explosão na Base de Alcântara mandou para o espaço (sorry) a esperança do Brasil ter um programa espacial decente. De lá pra cá, só desculpas, e se acha que estou exagerando, lembro que a Isto É publicou uma matéria dizendo que o foguete foi detonado por satélites norte-americanos armados com “lasers”.

Uma estratégia para facilitar a vida do Programa Espacial Brasileiro seria o aluguel da Base de Alcântara como ponto de lançamento para outras nações. Estando bem próxima ao Equador, foguetes lançados a partir dali precisam de bem menos energia do que os lançados de latitudes mais altas, o que significa cargas úteis mais pesadas colocadas em órbitas mais altas. 

Tudo ia bem até que o acordo desandou quando descobriram que os EUA se reservavam ao direito de não deixar brasileiros inspecionar lançamentos sigilosos, e também não queriam compartilhar tecnologia em troca do privilégio de usar a base. Ao final o Brasil acabou se aproximando da Ucrânia, fechando um acordo curiosamente idêntico.

Nesse acordo o Brasil participaria do desenvolvimento do Ciclone-4, foguete capaz de colocar 5,5 toneladas em órbita baixa. Participaria do desenvolvimento no sentido de que colocaríamos dinheiro e a Ucrânia desenvolveria, claro.

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Firmado em 2003, o acordo não é “nem ser científico nem de transferência de tecnologia, mas sim comercial”, nas palavras de José Monserrat Filho, chefe da assessoria internacional da AEB. Aquela que tem um datilógrafo em seus quadros.

O Brasil além disso construiria as instalações de lançamento, que como ainda estão pela metade, dificilmente estarão prontas pra Copa.

O Vôo inaugural do Ciclone-4 deveria acontecer em 2006, mas como todo projeto com brasileiro no meio, atrasou. A join-venture Alcântara-Cyclone Space vem remarcando data em cima de data. Em 2008 previa-se que o bicho voaria em 2014, e que as obras estariam prontas em 2011. Em 2009 Lula e  Viktor Yushchenko, presidente da Ucrânia assinaram um acordo que dizia que o Cyclone-4 seria lançado em 2010.  MUHAHAHAHAHHA.

A situação atual: o Brasil investiu nesse período R$ 1 BILHÃO. As obras estão pela metade, e o foguete, só 80% pronto, segundo os mais otimistas. A projeção inicial previa que ele se pagaria com 6 lançamentos anuais, mas como o valor previsto de US$ 50 milhões por lançamento se tornou caro (culpa da SpaceX, Orbital Science, Ariane Space e outros capitalistas) agora são precisos 12 lançamentos para o break-even. E não há mercado pra isso.

Cereja do bolo? A Ucrânia é um país que vive da lembrança de ter sido parte da União Soviética. O PIB deles é 13 vezes menor que o nosso. Se nós não temos dinheiro pra pesquisa espacial, imagine lá. Veja este caça MIG-29 da Força Aérea ucraniana:

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Falta grana pra lixar e remover a tinta da Força Aérea Soviética. Pintaram por cima e só.

Como a Ucrânia consegue manter uma indústria espacial? Fácil, eles terceirizam a parte complicada. As especificações são mandadas para empresas especializadas, como a Energomash, que projetou os motores do primeiro estágio do foguete. Essas empresas constroem toda a parte de infraestrutura, e os ucranianos basicamente operam as máquinas.

Qual o problema? Essas empresas são… Russas.

Isso mesmo. O foguete que o Brasil estaria desenvolvendo com a Ucrânia é essencialmente russo, nenhum dos países tem dinheiro pra bancar o final do projeto, a AEB só tem previsão orçamentária de R$ 300 milhões reservada pro Cyclone-4.

A Ucrânia, caso você tenha vivido com internet TIM nos últimos meses, está em vias de ser oficialmente invadida pela Rússia, vive uma pré-guerra civil feia mesmo pros padrões locais e cada Grívnia que o Presidente acha entre as almofadas do sofá vai pra defesa.

Enquanto isso vemos R$ 1 bilhão ir pelo ralo, não temos foguete, não temos base, nosso “parceiro” vai tomar uma carcada bonita dos russos nos próximos dias, 11 anos depois não temos uma nova geração de engenheiros pois ninguém quer trabalhar em um programa espacial de mentirinha, e a única pessoa feliz é o datilógrafo da Agência Espacial Brasileira, afinal ele tem estabilidade.

Enquanto isso a Olimpíada Brasileira de Astronomia mal conseguiu 50% dos R$ 50 mil que precisa para comprar um planetário digital e incentivar jovens do país inteiro a buscar uma carreira em ciências.

Fonte: FAB.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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