OS/2 25 anos. O Sistema que foi sem nunca ter sido

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Muito, muito tempo atrás a Microsoft e a IBM ainda viviam uma relação de parceria. Após o sucesso do DOS a IBM percebeu que precisava de um sistema mais robusto, para uso corporativo. Isso foi em 1985, com a primeira versão saindo em 1987, ainda em modo texto, terminalzão mesmo.

No final dos anos 80 era consenso que o OS/2 era o sistema do futuro, mas o projeto não ia bem. A IBM não gostou da Microsoft estar desenvolvendo em paralelo o WIndows 3.0, e a Microsoft por sua vez tinha dificuldade com a mão de obra alocada na IBM.

Com uma mentalidade interna muito mais próxima dos piratas da Apple do que dos engravatados da IBM, as brigas com os Microserfs eram constantes. Um caso clássico foi o dia em que gerentes foram chamados para uma reunião, e a IBM apresentou dados mostrando que a Microsoft tinha produtividade negativa.

 

Como a medida de produtividade dos programadores era por linha de código comitada no final do dia, as rotinas otimizadas pelos programadores da Microsoft, que cortavam às vezes 90% do código que vinha da IBM, geravam valores irracionais para a mente gerencial.

A IBM por sua vez reclamava que a Microsoft não comentava código, não escrevia as funções de forma clara, e que era um absurdo essa coisa de que o programador tinha que olhar e ENTENDER o programa, ao invés de ler um comentário explicando que a função fazia.

No final foi cada um pro seu lado. A Microsoft pagando Royalties por causa do HPFS,, sistema de arquivos usado no OS/2 e aproveitado e modificado no Windows NT, e a IBM vendendo uma versão do OS/2 com o Windows dentro.

Mesmo assim o sistema nunca deslanchou junto ao consumidor final. Fora alguns entusiastas, ninguém fora de empresas mexia com ele, e a tentativa da IBM em popularizar o OS/2 Warp como sistema de usuário final, em 1994 foi um fracasso.

Eu entendo perfeitamente o motivo.

Em 1995 eu estava em uma feira de informática no Riocentro. A IBM tinha um estande ENORME, cheio de modelos lindas, todo decorado com banners do OS/2 Warp. Nas revistas vinham anúncios de como ele era muito melhor e mais avançado que o WIndows (verdade, em termos) e iria mudar nossa vida.

Era um produto lançado, não era teaser. Fui até o estande, perguntei pra Dona Boa #1 sobre o OS/2. A mulher fez uma expressão de loura burra digna de um Oscar. Me encaminhou para a Dona Boa #2 e assim por diante. A 5a Dona Boa me apresentou a um nerd, a primeira pessoa que SABIA o que era OS/2 Warp.

Em resumo, naquela Fenasoft, uma mega-feira de varejo eu teria que preencher uma ficha, esperar 15 dias, ser contactado por um revendedor e então adquirir meu Warp.

No resto da feira literalmente centenas de estandes vendiam Windows 95. Ali, na lata, só pagar e pegar a caixa com o CD (era novidade!).

Tempos depois eu comprei um livro que vinha com uma cópia do OS/2 Warp. Tentei instalar, dava erro. Depois de tentar de tudo, liguei para o suporte: Descobri que a minha BIOS AMI não era reconhecida. Depois de explicar pro atendente que sim, meu computador era “montado”  (lembro até hoje o tom de nojo que ele usou) fui direcionado para o BBS da IBM.

Entrando via Modem, fazendo o DDD pra São Paulo, fucei até achar um arquivo com as instruções. Eu precisava de DOIS computadores, pois eu deveria alterar o Autoexec.bat durante a primeira metade da instalação, interromper no 1o Reboot, editar o arquivo para a versão original e prosseguir com a instalação.

Fiz isso, e UAU, OS/2 funcionando!

Muito bom, rápido, estável, mas cadê acentos?

Eu precisava entrar no BBS da IBM de novo e baixar vários drivers para que o OS/2 Warp em português acentuasse com teclado US International.

A IBM nunca soube lidar com consumidor final. Eles tinham um excelente sistema operacional, que por um tempo foi pior que o WIndows mas no final era bem melhor, mas ele sequer tinha drivers para a maioria do hardware não-IBM. Na cabeça deles o sujeito compraria Impressora, scanner, modem, tudo junto, é assim que as empresas faziam.

Dizer para o consumidor final que ele não vai poder instalar o sistema em uma placa com a BIOS mais popular do mercado, por ela não ser IBM, é inadmissível. Pouco importa que a IBM jogasse de forma agressiva a ponto de no lançamento do Windows 95 publicar um anúncio de jornal de página inteira listando 4 mil programas DOS incompatíveis com o sistema da Microsoft.

O fato é que a IBM teve os ANOS de atraso do então Chicago para mostrar a que veio, e foi derrotada não por falta de qualidade, mas por falta de entender seu público.

No mundo corporativo o OS/2 ainda teve uma boa sobrevida, com SO de caixas eletrônicos e servidor Web. Trabalhei com ele, rodando o PowerWeb, excelente webserver sulafricano, e era divertidíssimo ver hackers batendo com a cara na parede.

Só que O Mundo Não Pára, Correndo pelas beiradas veio o Linux, e enquanto o OS/2 tinha exigências de hardware draconianas e um preço salgado, o Linux rodava em qualquer chaveiro com hino de time de futebol, e era amplamente documentado, se você precisasse escrever seus próprios drivers.

A IBM hoje é uma empresa Linuxeira até morrer, e o OS/2 é uma fonte de despesa, pois continuam lançando correções de segurança.

Um triste fim para um sistema que por um tempo apresentou-se como a primeira e única ameaça real ao Windows, tendo o poder de rodar aplicações Windows melhor que o WIndows, devorando o sistema da Microsoft por dentro e no mínimo existindo em tantas máquinas quanto ele.

É preciso mais que superioridade tecnológica para vencer no mercado de TI. É preciso saber vender e saber pra quem está vendendo. Por isso talvez que a Apple tenha prosperado tanto com um cara de produto no comando, e a Microsoft tenha trocado um programador por um vendedor.

Senão, você pode ser a maior empresa de informática do mundo e ainda assim será superada por um bando de sujeitos que, a seu ver, tem produtividade negativa.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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