Feliz Aniversário, Tio Walkman!

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Eu sei que vai soar inacreditável, mas houve uma época em que a gente não andava com milhares de músicas no bolso, podendo acessar outros milhões via Nokia Microsoft Mix Radio, Rdio, Spotify, iTunes e trocentos outros serviços. Era uma época de trevas, onde nossas músicas se restringiam aos LPs que tínhamos e, eventualmente às canções gravadas do rádio. Em alguns casos gravávamos fita K7 mas os gravadores não eram populares, eram grandes e pesados como os ghettoblasters, ou modelos com áudio mono, qualidade geral sofrível e que só serviam pra gente brincar de podcast 30 anos antes de inventarem o nome.

Eis que um dia em 1978 um japa chamado Masaru Ibuka, vice-chairman da Sony se cansou de não ter o que fazer em viagens internacionais. Queria ouvir música com som bom sem ter que carregar um gravador enorme. Soltou o problema na mão dos engenheiros da empresa, que eram inteligentes mesmo pros padrões japoneses. O resultado foi o nosso… Walkman. 

O aparelho foi vendido no Japão em 1979 e depois ganhou o mundo. Curiosamente Akio Morita, fundador da empresa odiava o nome, mas o pessoal do marketing convenceu e acabou ficando. Morita acima de tudo era esperto mesmo pros padrões de engenheiros da Sony. Uma vez ele prometeu um rádio transistorizado tão pequeno que caberia no bolso da camisa. Depois de meses os engenheiros quase conseguiram. A solução? Na apresentação Morita usou uma camisa com bolsos um pouquinho maiores. Deu tempo dos engenheiros terminarem de miniaturizar o rádio e ninguém ficou sabendo.

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O primeiro modelo foi o Walkman TPS-L2, que mesmo em 1979 já vinha com recursos que você não acha em equipamentos de hoje, como duas saídas de áudio e um microfone acionado por um botão que abaixava o som da música e permitia que você conversasse com a outra pessoa, mesmo ambas usando headphones. Alimentado com duas pilhas a autonomia era bem razoável, dava pra usar o dia inteiro. Quanto a músicas, bem, dependia do tamanho de sua mochila, que vivia carregada de fitas de 60, 90 ou mesmo 120 minutos, mas havia a lenda que eram mais finas e arrebentavam fácil.

O Walkman não nasceu sem polêmica, mesmo sendo a melhor invenção japonesa desde o tentáculo autolimpante. Morita percebeu de cara que a juventude não iria gostar dos headphones, e mandou trocarem pelos modelos pequenos que a Sony havia inventado alguns anos antes. Alguns críticos juraram que ninguém compraria um equipamento de áudio em fitas cassete que não tinha função de gravação, e outros acharam exagerado o esforço todo, pois o toca-fitas mais bem-sucedido da Sony havia vendido 15 mil unidades. A produção inicial do Walkman foi de 30 mil.

Um mês antes ela estava toda vendida, inclusive os que chegaram ao mercado americano, pelo equivalente a US$ 655,00 em dólares de 2014.

O Walkman mudou mais o cenário musical do que o iPod. Em 10 anos 50 milhões de unidades foram vendidas. Basicamente todo mundo tinha um Walkman, Eles dominaram a década de 1980, mesmo com o lançamento dos CD Players em 1982.

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Pergunte a seus pais.

Durante o tempo de vida do Walkman o disquete morreu, o CD nasceu, teve seu auge e hoje é só um formato alternativo, a Sony lançou o (excelente) MiniDisc, insistiu até não poder mais e o matou, a fita DAT foi aventada como alternativa de áudio doméstico mas só pegou para audiófilos, o iPod foi inventado, o MP3 surgiu como alternativa, a internet apareceu como fonte de músicas, em uma época em que uma simples faixa levava quase 1 h para ser baixada…

Nesse meio tempo continuávamos a gravar músicas de discos emprestados, montar mix-tapes para aquelas vizinhas ingratas que nunca reconheciam o esforço e a sutileza das mensagens na sequência precisamente escolhida de Endless Love, I Wanna Hold Your Hand, Yoü and I e Sapato Velho, mas divago…

Houve uma esperança de que o Discman (também marca registrada da Sony) fosse repetir o feito, mas os primeiros modelos tinham o péssimo hábito de ficar saltando de faixa, o tamanho era muito grande comparado aos já miniaturizados Walkmans, e principalmente ninguém tinha gravador de CD em casa, não dava pra fazer um MixCD como se fazia uma MixTape. O Discman se tornou um equipamento de som portátil, mas não para uso em trânsito.

O Walkman reinou até a popularização do MP3, hoje qualquer maçaneta toca MP3, o mercado de players dedicados praticamente desapareceu, os fabricantes ainda insistem mas os números não são animadores. O único motivo pra alguém ter um player dedicado hoje em dia é preguiça, já que até o mais safado celular Xing-Ling toca MP3.

Depois de muito tempo a Sony puxou a tomada, e parou de vender o Walkman de fita cassete no Japão. A marca continua, com toneladas de celulares, players dedicados de áudio digital e apps de Android, mas o velhão, de fita, já era. Morreu. Bateu as botas.

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Esse não cabe fita.

Ou melhor, morreu no Japão. Continua sendo fabricado na China e exportado para um monte de lugares. Na Amazon há modelos novos vendidos a US$ 339,99. Imitações da concorrência? Há centenas, em todas as faixas de preço. As fitas cassete estão ridiculamente baratas. Um pacote de 7 fitas de 90 minutos sai por menos de 8 dólares.

35 anos depois de ser lançado, o Walkman não chegou ao fim de sua longa e sinuosa estrada. Se hoje você escute seus podcasts na rua, com um smartphone e fones Bluetooth, agradeça ao Walkman, que muito tempo atrás apresentou ao mundo a então alienígena idéia de ouvir música na rua sem depender do que a rádio estivesse tocando.

P.S.: aos chatos de plantão, EU SEI que o Walkman usado em Back to the Future é um AIWA, mas a empresa foi comprada pela Sony em 2002, então tecnicamente em termos de retcon, é tudo Sony agora.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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  • Alexandre Arruda

    E as fitas K7 de Cromo da BASF? Estão baratas agora? Essa sim era top!

    • OverlordBR

      Top e uma das primeiras coisas que vi sendo falsificadas na minha vida.
      O quê tinha de fita falsificada com um “Chrome” impresso era incrível!

  • OverlordBR

    Ótimo texto.

    “duas saídas de áudio e um microfone acionado por um botão que abaixava o
    som da música e permitia que você conversasse com a outra pessoa,”

    Caramba, não sabia disto.
    Mas também, acredito que os modelos de walkman que eram fabricados aqui, tinham vários recursos “capados” (nossa velha tradição de indústria).

  • Adriano

    Que saudosismo bacana. Por muito tempo, o walkman que o orçamento de meus pais permitia era aquele amarelão com um vidro redondo, supostamente à prova d’água(nunca testei). Andava com ele pra lá e pra cá e ele me atendia muito bem. Depois de um tempo, um tio trouxe para mim dos USA um sony autoreverse com seletor de faixas, fantástico. Guardo ele com carinho até hoje, quem sabe valha uma grana boa daqui a um tempo?

    • Marcio

      Os modelos xing ling tinham uma correiazinha de borracha que ressecava e quebrava sozinha. Cuidado que o seu pode estar quebrado também, dado a idade dele.

      • Adriano

        O que mantenho guardado é o da Sony. O xing ling está em algum armário ou foi pro lixo há tempos.

  • Xultz

    “Alimentado com duas pilhas a autonomia era bem razoável, dava pra usar o dia inteiro”
    Caceta, o AIWA que eu tinha dava prá ouvir uma fita duas vezes, e olhe lá… Antes de sair de bike, eu sempre parava na mesma banquinha de revistas comprar pilhas prá ouvir durante a tarde…

  • Bruno Rocha

    Todos meus primos tinham walkaman, menos eu. Depois, nos anos 90, todos tinham Discman, menos eu. Hoje você arruma um micro SD 16GB por 50 reais. Arrumei um de 32GB no Mercado livre e hoje sou feliz.

    • Lucas Timm

      Eu fui o último a ganhar o Discman. E quando ganhei, chupava uma pilha desgraçada. E a minha mesada não dava pra ficar comprando pilhas.

    • Downgrading

      Carai, fiquei mesmo com pena de vc. O meu, roubaram. Um dia desses, compro um TPS-L2 no ML…

  • Leooo

    Mas, mas, mas não foi um alemão/brasileiro que inventou essa belezinha ai não? E depois de muito tempo e brigas na justiça e acordos conseguiu ser reconhecido o inventor do Walkman?

  • Mauro

    Eu tinha um Aiwa auto-reverse!! Coisa linda de Deus!
    Ainda lembro que quando do lado A estava terminando I Miss You do Haddaway, do lado B estava no meio de Jackie Tequila do Skank.

  • Daniel Almeida

    As fitas de 90 minutos consumiam mais pilha, eram mais pesadas, eu evitava por causa disso mas era muito maneiro fazer as seleções musicais. O walkman que tenho lá em casa não funciona mais, pena.

    Eu ainda uso um iPod velho pra ouvir música na academia, não acho o celular confortável mas acho que o bichinho está pedindo arrego. Ruim também que o celular precisa estar com carga no final do dia.

    • Mas o iPhone não gasta nem 5% de bateria com 2 horas ouvindo música. Pode usar. haha

  • Maíra dos Anjos

    Meu lindo WM-FX123 (sim, fui pesquisar o modelo) foi o grande companeiro da minha adolescência. Ganhei aos 13, sobreviveu até meus quase 20. Se tem uma coisa que volta e meia fico triste de ter jogado fora, é ele. Pois foi só pela falta de interesse mesmo, o bicho funcionou perfeitamente até o fim.
    A vida se resumia a selecionar músicas com algum critério de afinidade, fazer o melhor arranjo 30’+30′ possível, programar o CD palyer (o meu era suuuuper moderno, com bandeja pra 3 CDs, possibilidade de programar músicas entre eles e ainda gravar as tais no K7) e gravar as muitas fitas, com os mais variados humores. Pra aquela seleção especial, ir até o estoque de fitas virgens premium de papis e dar uma surrupiada básica. Pro especial Transamérica de 30 minutos sem intervalos, qualquer uma servia – os putos enchiam de vinhetas mesmo. Rs
    Sobrevivi todo esse período à base de pilha AA Duracel e fita k7, ia na compra do mercado. Sem contar os inúmeros fones de ouvido, já que eu vivia quebrando os fios por jogar tudo na mochila de qualquer jeito. A gente sabia o momento que a pilha ficava fraca porque a fita começava a ficar lenta, aí era partir pra rádio até o bicho morrer. E dava pra ser feliz e ainda achar isso tudo o máximo. <3
    Deu foi saudades. 🙂

    • Rojedo

      Também me amarrava no especial Transamérica. E no Estúdio Ao Vivo. Tinha fitas do Legião, Titãs, Engenheiros do Havaí, Biquini Cavadão… era muito bom!

  • Julio Verner

    Lembro até hoje dos dois meses de economia para poder comprar um Auto-Reverse da Cougar ou Lennox, uma daquelas porcarias… hauhauhua Custou absurdos R$ 31,00 no Big Shop(Hiper Big >> Wallmart)… Um Sony beirava os R$ 70,00, só para magnatas!

  • Cacio Frigerio

    Na boa.. mas quem é que compra um toca cassetes hoje dia? Serio.. na boa.. QUEM?!

    • As mesmas pessoas que compram discos de vinil.

      • Cacio Frigerio

        Não.. disco de vinil tem mais qualidade que o CD. Não há nada que justifique alguem comprar isso.. a tem sim.. BURRICE.

        • Repetindo essa idiotice de qualidade? Mas não tem MESMO! Talvez, e saliento, TALVEZ num cenário ideal com a melhor agulha do mundo, nenhuma trepidação e num ambiente selado, sem poeira ou qualquer outro agente natural, quem sabe.

          A música é produzida digitalmente, logo, passar para um mecanismo analógico não é sensato. O CD possui SIM mais qualidade que o vinil. Assim como o WAV ou FLAC.

    • Archer

      E as mesmas pessoas que tiram fotos pinhole, ou tem carros antigos, ou usam uma pena para escrever….

    • Lucas Timm

      Num custo acessível e com bateria recarregável, eu compraria. Minha avó tem um ótimo acervo de fitas e LPs.

      • Downgrading

        Esses aparelhos q ripam LP caíram bem de preço. Já as fitas, eu joguei o q tinha fora, pq fui trocando por cd. Depois, joguei TODOS os meus CD fora e doei todos os meus livros.

    • Um detalhe técnico a mais: o som NÃO é compactado/capado.

  • Para quem morava em capitais era muito mais fácil consegui boa música com amigos que vinham do exterior e traziam vinis e fitas. Já para quem morava no interior, a única forma de consegui música era via rádio mesmo, gravando em fitas e “montando” a playlist. Lembro do meu irmão varando a madrugada ouvindo a Mundial FM (ou seria AM) gravando músicas de um programa noturno chamado “Ritmos de Boate”. Só podia ser pela madrugada, pois o sinal só pegava melhor a noite. De dia, nada… Apesar de uma época turbulenta, éramos felizes com os Ataris da vida, os walkmans, etc, etc, etc

    • Downgrading

      Era AM. E os caras sempre falavam durante a música, um saco…

      • Aqui em Campinas tinha uns locutores que falavam e faziam sons durante as músicas. Mas era de propósito.

  • Luis

    Tive um, exatamente igual esse da foto mas meu sonho era o Walkman Sport amarelo.
    Pra mim o principal problema do Walkman sempre foia autonomia, bateria eram caras, bem mais caras que hoje e não tínhamos baterias recarregáveis.
    Por isso ele só se tornava “walk” durante alguns dias depois do contracheque,
    no resto do mês era na tomada mesmo.
    Mas a parte de carregar pouca musica não incomodava, hoje vc leva quinhentas no celular e ouve sempre as mesma. É tipo gaveta, quanto mais vc tem mais porcaria vc junta.

    Enfim, assim caminha a humanidade.

    • Alexandre Hadjinlian Guerra

      Eu uso mesmo o fone grandao… estou pouco me lixando para o que os outros acham… som muito melhor e mais confortavel… fora que e horrivel aquele supositorio no ouvido… , mas cada um e cada um,,,,

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  • Adriano Garcez

    Acho que a maioria das pessoas da minha idade tenham passado pelas mesmas fases que eu: tiveram um walkman quando criança, um discman quando adolescente, um iPod quando jovem adultos e hoje em dia só usam o smartphone para ouvir música na rua.

    Ouvir rádio no walkman me fez conhecer muitas bandas que até hoje ouço. Gravava algumas músicas que passavam na rádio e gravava na k7 para ouvir quando quisesse.

    Engraçado é o sentimento de nostalgia. Só de lembrar do meu walkman, lembro de estar num posto de combustível com meu pai, num dia dublado, ouvindo Heaven for Everyone do Queen na compilação Hit Parade.

  • gilmarzinho

    Eu tive walkman durante os anos 90 e também discman no início dos 2000. Com os ônibus aqui de Porto Alegre que parece que apostam corrida até o próximo sinal, era uma beleza ouvir música com as faixas pulando toda hora.

    Depois disso insisti no player dedicado da Sony, o NWD-B105 (na minha opinião, o melhor player já feito) até mesmo quando todos estavam já ouvindo no celular. Agora uso Android, e o NWD mofa em alguma gaveta aqui (um funcionando e dois estragados, para ver como eu gostava do modelo).

    Excelentes lembranças levantadas pelo excelente post.

  • Tiago

    Não tive wallkman! Mas hoje eu uso um iPod Classic todo santo dia. Pq? Porque eu gosto desse iPod, simples assim. Não pq eu seja preguiçoso -no iPhone é mais fácil de colocar músicas. Eu gosto do iPod.

    Na minha adolescência o wallkman já era coisa do passado. E o diskman era muito caro. Tive que crescer um pouco para poder comprar brinquedos caros.

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