Além do FUD — Um raro vislumbre da mente da Microsoft

Há uma impressão lendo os fóruns de tecnologia de que o Mercado é extremamente estúpido. Por algum motivo místico a Microsoft consegue ser uma das maiores empresas do mundo apenas vendo o que outros fizeram e kibando. Um modelo tão simples quando inviável na escala em que trabalham.

Apesar dos bilhões de dólares gastos em Pesquisa e Desenvolvimento, os nerds assumem que “apenas copiam”. É, empresas como IBM, Novell, Ford são muito burras, pois bastaria ler os fóruns OpenSource e implementar as geniais idéias que existem por lá, ao invés de se associar à Microsoft e outras “copiadoras”.

Na prática não é assim que funciona. Ninguém bate a mão na mesa e diz “vamos lançar um navegador” e sai com algo em 15 dias. O projeto de criar um Facebook OpenSource via US$100 mil em doações é uma grande piada para qualquer um que já participou de um projeto de gente grande.

Para nossa sorte agora é possível ver como a coisa realmente funciona. Entre os milhares de documentos sigilosos disponibilizados publicamente durante o julgamento da ação antitruste que a Microsoft sofreu nos anos 90 há um em especial: O Planejamento de Produto do Windows Cairo, Sistema Operacional de nova geração anunciado pela Microsoft em 1991 mas nunca finalizado. Os planos tornados públicos pela Justiça dos EUA são de 1993. Lembre-se, isso é do tempo em que todo mundo ainda usava Windows 3.11.

O Documento

Composto de 79 páginas, é uma visão das especificações do que seria o sucessor do Chicago (codinome do Windows 95). Em 1993 já estavam propostas como características:

Smartfolders – “Usuários verão alguns folders com ‘inteligência’, isto é: as propriedades do folder definem como a informação é armazenada em um smartfolder e os atributos daquela informação.”  – Sabe como o Windows mostra páginas com imagens, áudio, filmes de forma diferente da que exibe documentos comuns? É isso.

Rede – “A rede desaparece e usuários a percebem como um grande pool de informação e recursos na ponta dos dedos. Usuários não tem mais que se conectar a recursos explícitos de rede para encontrar informação”

Directory Services – Sim, o Cairo já viria com Directory Services.

OFS – O Cairo estava projetado para vir com o OFS – Object File System, sistema de arquivos baseado em banco de dados relacional, que revolucionaria a forma com que a informação é armazenada e acessada. Ainda em 2010 não temos uma implementação do OFS, em sua versão (morta) atual, o WinFS. A Microsoft vem incluindo e removendo o WinFS da especificação de vários produtos, mas não tenham dúvidas, assim que surgir uma cópia OpenSource quando a Microsoft lançar a sua versão, estará “copiando”, apesar da documentação de 1991 mostrando quem teve a idéia primeiro.

Indexação de Arquivos – O Cairo iria indexar os arquivos em uma base de dados, armazenando conteúdo e características, facilitando e agilizando as buscas internas.

Tablets – Pois é, o Cairo viria com suporte para pen computing.

Particionamento on the fly – “Suporte a reparticionamento sem reboot”

Gráficos 3D – Integração de OpenGL no Win32

Suporte a Múltiplos Monitores – sim, em 1991.

Reparticionamento não-destrutivo – Durante o setup o Cairo converteria partições existentes para NTFS ou OFS sem perda de dados.

DOFS – Distributed Object File System – o usuário pode ver vários volumes compartilhados da rede como um único volume no Explorer.

A lista é enorme, você pode ver o documento na íntegra neste link aqui (cuidado, PDF).

O fascinante e que muita gente deixa de perceber é que não é o documento da NOVA versão do Windows, é o documento da versão DEPOIS DELA. Projetos de centenas de milhões de dólares que levam anos não são feitos de forma aleatória. Nós consumidores só vemos depois de prontos, o que definitivamente não é uma visão completa. Steve Jobs por exemplo já disse várias vezes que o iPad foi planejado antes do iPhone.

primeiro provedor Internet do mundo surgiu em 1989. O Cairo já falava de Internet e vinha com diversos daemons e clientes em 1993, mesmo ano que surgiu o Mosaic, o primeiro browser usável. O Netscape só surgiria em 1994.

O documento de forma alguma coloca a Microsoft como Única Fonte da Inovação do Planeta. Mostra, sim, que eles sabem planejar para o futuro (mais até do que executar), como sabem todas as empresas de ponta.

Inovar uma vez é fácil, complicado é ficar adiante da onda, mas é o único lugar onde você pode não só mudar as regras do jogo e criar um mercado do zero como pode (como a Microsoft fez com a Internet) cometer um erro fundamental, se reinventar e sobreviver. Só que para se posicionar adiante da onda é preciso muito, muito planejamento. Senão o caixote é certo.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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