Ronaldo Gogoni 24/07/2026 às 14:46
Eu sei, eu já usei a citação de J.B.S. Haldane, cunhada no ensaio Mundos Possíveis (1927), várias vezes, mas esta é mais uma situação que reforça a máxima: "O universo não é só mais esquisito do que imaginamos, mas mais esquisito do que podemos imaginar". O astro (heh) bizarro da vez é uma "exolua", observada pelo Very Large Telescope (VLT) da ESO, no Chile.
O que esse corpo celeste tem de especial? Ele foi visto orbitando uma anã marrom que, por sua vez, orbita a estrela do sistema planetário; dada a condição inédita, cientistas questionam se este é um caso em que se faz necessário estabelecer uma nova categoria de astro.

Representação artística do sistema CD-35 2722: a "exolua" se encontra ao centro, orbitando uma anã marrom à direita (Crédito: M. Kornmesser/ESO)
O que classifica um corpo celeste como uma lua? Por definição, um satélite é uma coisa orbitando outra, mas no entendimento clássico, para ser similar à nossa Lua, um corpo celeste precisa obrigatoriamente circundar um planeta. O caso do sistema CD-35 2722, distante 73 anos-luz da Terra (ou "logo ali", segundo a escala cósmica) tem uma série de particularidades, no que cisntistas estão considerando reavaliar a sério algumas definições e nomenclaturas.
O sistema possui uma estrela principal, CD-35 2722 A, uma anã vermelha com cerca de metade da massa do Sol, e uma secundária, CD-35 2722 B, que é uma anã marrom, basicamente uma "estrela fracassada": por não ter massa suficiente, ela não foi capaz de iniciar o processo de fusão nuclear de hidrogênio em hélio.
Esses astros são em geral maiores que planetas, assemelhando-se a gigantes gasosos; CD-35 2722 B tem cerca de 33 a 37 vezes mais massa que Júpiter, mas ainda assim não foi o bastante para promovê-la a uma estrela de fato: ela é de 28 a 31 vezes menor que o Sol, que nem de longe é uma das maiores do Universo.
O problema é que CD-35 2722 B tem uma espécie de satélite, o que complica um pouco as definições tanto dele quanto da estrela falha, que também não é exatamente um planeta. Para embolar ainda mais as coisas, a tal "exolua", observada por um time de astrônomos que usaram o Very Large Telescope (VLT), aquele projeto da ESO do qual o Brasil foi chutado após anos de enrolação para pagar sua parte, e não o fez (o que é bem a cara do país que odeia Ciência), é maior que Júpiter, borrando ainda mais as linhas entre luas, planetas e estrelas.

VLT é livre para uso por pesquisadores de vários países, até do Brasil, apesar do calote (H. H. Heyer/ESO)
No artigo (cuidado, PDF, versão pré-revisão por pares; a final, só pagando), os pesquisadores liderados por Kevin Roy, doutorando de Astrofísica da Universidade Diego Portales no Chile, argumentam a possibilidade de considerar o "candidato a exossatélite", que completa uma volta ao redor de CD-35 2722 B a cada 170 dias, como uma nova classe de corpo celeste.
A exolua não é exatamente uma lua, pois não orbita um planeta, mas a anã marrom, que também não é um planeta e falhou em se tornar uma estrela, orbita uma anã vermelha; o modelo é sólido, mas os astros não se encaixam em nada. Em uma declaração, Roy diz que a tendência natural é considerar a exolua como uma lua per se, mas sua estrutura é muito mais próxima de um planeta e não se parece em nada com satélites rochosos.
Por enquanto, a classificação mais adequada é a de uma exolua ou exossatélite, um corpo que não se qualifica como planeta (embora tenha o tamanho de um), que orbita outro que não é um planeta nem uma estrela, e este mantendo uma órbita ao redor de uma estrela propriamente dita. É certo que a comunidade científica vai debater o caso por um bom tempo, enquanto continuará vasculhando o Espaço em busca de ocorrências similares que podem não ser tão raras assim, apenas difíceis de detectar.
HOY, K., ZURLO, A., PEÑA R, P. A. et al. Planetary-mass exosatellite detected around the substellar companion of a star. Nature, Volume 655, 865–869 (2026), 34 páginas, 22 de julho de 2026.
DOI: 10.1038/s41586-026-10751-w
Fonte: EurekAlert!, Science News