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Segunda Guerra Mundial: 80 anos da Operação Jaywick

Guerra revisita o melhor e o pior do ser humano, temos momentos horríveis e missões onde soldados enfrentam todas as possibilidades em busca da vitória. A Operação Jaywick foi um desses casos

19/12/2023 às 19:29

Em 1943 a Guerra ainda estava sendo decidida nos campos e céus da Europa, tanto por números quanto por indivíduos. Um desses indivíduos era o Sargento Michael L. Arooth.

A tripulação do Tondelayo (Crédito: DOD)

No dia 30 de julho, Arooth era artilheiro de cauda no bombardeiro B-17G “Tondelayo”.  Com outros 185 B17s, executavam um ataque sobre a cidade de Kassel, na Alemanha, mas os chucrutes não estavam indefesos. Caças FW-190 e BF-109 (a nomenclatura ME-190 é dos aliados) interceptaram a formação, e começaram a brigar com os P-47 de escolta e as defesas dos próprios bombardeiros.

Na cauda, o Sargento Arroth sentava o dedo nas duas metralhadoras .50, conseguindo derrubar três capas inimigos, até que uma rajada certeira danificou uma das metralhadoras, feriu o Sargento e destruiu seu sistema de oxigênio.

Na pura adrenalina, Arroth engatilhou a metralhadora restante, ignorou detalhes como ferimentos e ausência de oxigênio -sem tempo pra respirar, champs- e continuou atirando até espantar os chucrutes. Isso lhe rendeu uma Distinguished Flying Cross, e o agradecimento de todos a bordo, mas esse nem foi o momento mais épico dessa missão do Tondelayo.

O avião foi atingido por fogo inimigo diversas vezes, mas continuou voando, mesmo danificado.

Em terra descobriram que o tanque principal de combustível havia sido atingido por nada menos que 11 projéteis de canhão de 20mm dos caças alemães, e um projétil de 20mm é um negócio que sozinho estraga o dia de um indivíduo:

Certeza que isso dói se acertar na testa (Crédito: Reprodução Internet)

Normalmente eles são disparados em uma combinação de projéteis explosivos, traçantes e incendiários, mas os projéteis dentro do tanque do Tondelayo estavam intactos.

Chamados os especialistas em explosivos, cuidadosamente retiraram os projéteis e os examinaram. Todos estavam... vazios. Sem carga explosiva, sem detonador, nada. Meras carcaças de metal. Exceto um.

Enrolado bem firme, um pedaço de papel foi enviado dentro de um dos projéteis. Levado para a Inteligência, descobriram que estava em checo. Um tradutor revelou a mensagem manuscrita.

“Por enquanto, é tudo que podemos fazer por vocês”.

Nessa época a Alemanha usava mão-de-obra escrava em suas fábricas de munição na então Checoslováquia, e trabalhadores arriscavam suas vidas sabotando lotes de projéteis. O Tondelayo foi salvo por um checo anônimo que achou que seu ato de desobediência faria diferença. E fez.

Sabotagem é importante em guerra, às vezes mais eficiente que um ataque direto. Ela pode ser feita por agentes infiltrados, pela resistência local ou até por missões de comandos. Os ganhos, quando tudo dá certo, podem ser excelentes, como na Operação Jaywick, durante a Guerra do Pacífico.

A Austrália, como todo mundo na região, estava na mira do Japão, e toda idéia para atrapalhar a vida dos japas era bem-vinda. Incluindo as idéias da SOA – Special Operations Australia, uma unidade de comandos de elite especialista em pensar fora da caixa.

Vários dos oficiais da SOA haviam servido em Singapura, agora sob controle dos japoneses. Eles conheciam bem a região e o porto, sabiam que os Aliados não tinham como fazer um ataque frontal, mas o Capitão Ivan Lyon teve uma idéia...

Ele, com outros estrategistas, planejou uma missão que, se não era suicida, era pelo menos extremamente ousada: entrar pela porta da frente, enganando os japoneses.

É longe.

A unidade de 14 homens, 11 australianos e três britânicos, seria treinada para navegação de longo curso.

O primeiro passo foi conseguir um barco japonês, o mais inconspícuo possível. Rapidamente acharam o veículo ideal: Kofuku Maru, agora batizado MV Krait, era um barco de pesca japonês de 68 toneladas, totalmente mundano. Ele foi confiscado no começo da Guerra, e estava na Índia, mas foi transportado para a Austrália.

O Krait foi abastecido com suprimentos e combustível para a longa jornada, saindo da Ilha Thursday, no extremo norte da Austrália, até o porto de Singapura. A partida foi dia 2 de setembro de 1943, a bordo os homens tomavam todo tipo de cuidado, usavam sarongues, chapéus tradicionais e passavam cremes e tinturas para escurecer a pele, para de longe parecerem pescadores indonésios.

Dois comandos treinam em um caiaque (Crédito: Australian War Memorial)

Até o lixo era controlado, eles não jogavam fora objetos que pudessem ser associados com um barco ocidental, e atrair eventualmente a atenção dos inimigos.

O Krait chegou em Singapura no dia 24 de setembro, e começou a agir naturalmente, só mais um barco de pesca insignificante. À noite, em um atol desabitado, desembarcou três caiaques de lona, dobráveis, comprados do único fabricante da Austrália. Cada caiaque tinha uma equipe de dois comandos e nove brinquedinhos destes:

Uma mina Limpet australiana (Crédito: Australian War Memorial)

Conhecida como Mina Limpet (Limpet é um tipo de marisco que se agarra às pedras), é uma forma excelente de atacar navios. Normalmente usada por mergulhadores, as minas limpet são magnéticas, equipadas com um temporizador. O mergulhador posiciona a mina no casco do navio inimigo, aciona o timer e foge, discretamente. O temporizador pode ser programado para várias horas.

A carga explosiva tecnicamente é pequena, dois kg, mas como água é um material incompressível, a força da explosão é quase toda direcionada para o casco do navio, causando danos devastadores.

Em Singapura, os seis comandos cuidadosamente navegavam seus caiaques, fugindo dos sentinelas e soldados japoneses no porto. Eles aos poucos instalaram as minas em sete navios de carga, acionaram os temporizadores para cinco horas, e fugiram para um ponto de encontro.

Mal chegaram quando as explosões começaram, os japoneses entraram em alerta máximo, os comandos escondidos enquanto patrulhas passavam pelo mar e pelo ar. O Krait, ao largo, totalmente ignorado.

O Krait era absolutamente genérico. (Crédito: Domínio Público)

Quando tudo se acalmou, eles foram para o atol original, embarcaram de volta no Krait e rumaram para alto-mar, e a volta foi sem muitas emoções, exceto 11 de outubro, quando um destróier japonês chegou a 100m do Krait, mas o disfarce foi convincente e depois de algum tempo mudaram de rumo.

48 dias e quase 6500km depois, o Krait estava de volta à Austrália, são e salvo. Entre mortos e feridos salvaram-se todos a bordo, e as notícias eram que a Operação foi um grande sucesso. Dos sete navios atingidos, seis haviam afundado, 39000 toneladas removidas da Guerra.

Os japoneses gastaram homens e recursos reforçando os portos da região e fazendo inúteis patrulhas.

O lado ruim é que o alto-comando japonês determinou que o ataque foi feito pela Resistência local, e com toda a delicadeza e diplomacia com que eram conhecidos, barbarizaram a população, incluindo prisioneiros de guerra locais e europeus.

Dos membros da Operação Jaywick, o último sobrevivente, Mostyn ‘Moss’ Berryman faleceu eu 2020, aos 97 anos. O MV Krait sobreviveu à guerra e está em exibição permanente, aos cuidados do Museu Nacional Marítimo da Austrália.

O Krait ainda vive! (Crédito: Wikimedia Commons / Krait)

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