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CRISPR: EUA aprova 1.ª terapia que usa método em humanos

FDA autoriza primeira terapia genética baseada em CRISPR para uso em humanos nos EUA, para o tratamento de anemia falciforme

9 semanas atrás

Na última sexta-feira (8), a FDA (Food and Drug Administration), órgão do governo dos Estados Unidos equivalente à Anvisa, aprovou duas novas terapias genéticas para uso em humanos, uma delas envolvendo CRISPR, para o tratamento da anemia falciforme, uma condição genética hereditária e incurável, que afeta a qualidade de vida de mais de 4,4 milhões de pessoas em todo o mundo (dados de 2015).

Como já falamos antes, CRISPR é atualmente a mais promissora ferramenta de edição genética que temos à disposição, capaz de debelar anomalias genéticas ainda no estágio embrionário, mas pode ser usada também em organismos formados, como é o caso.

Representação artística de glóbulo vermelho em forma de foice (ao fundo, glóbulos normais), presentes em pacientes com anemia falciforme (Crédito: Stocktrek Images/Getty Images)

Representação artística de glóbulo vermelho em forma de foice (ao fundo, glóbulos normais), presentes em pacientes com anemia falciforme (Crédito: Stocktrek Images/Getty Images)

A anemia falciforme é uma doença cruel, que ocorre devido à má-formação do um gene, chamado subunidade hemoglobina beta (HBB ou β-globina), especificado no cromossomo N.º 11. A doença se manifesta quando o paciente recebe dois genes defeituosos, um da mãe e outro do pai, visto que ele é recessivo.

O defeito em si é uma única base nucleica errada, que deveria ser GAG (guanina-adenina-guanina), mas no caso, é GTG (guanina-timina-guanina). Este gene é o responsável pela produção da hemoglobina, proteína presente nos glóbulos vermelhos do sangue, que transportam oxigênio e nutrientes para nossas células.

A alteração na proteína afeta a produção dos glóbulos, no que uma porcentagem deles, ao invés de serem redondos e achatados no centro, assumem a forma de uma foice, daí o nome da doença. Os glóbulos defeituosos são bem mais rígidos que as células saudáveis, estas mais flexíveis, e por isso, causam obstruções dos capilares, levando a uma série de problemas de saúde, de anemia a dores intensas nas articulações, aumento nas incidências de infecções, maiores chances de AVCs, e uma redução considerável da expectativa de vida.

A anemia falciforme é mais comum entre os povos de origem africana, por questões genéticas; em média, 80% dos casos globais se concentram na África subsaariana, onde a Seleção Natural privilegiou ironicamente os portadores por serem mais resistentes à malária, no que o protozoário causador da doença não consegue completar seu ciclo de vida, ao tentar aderir aos glóbulos defeituosos, e falhar.

Com ou sem malária, a anemia falciforme é uma doença grave, que causou mais de 114 mil mortes em 2015, e que o CRISPR poderia evitar, caso a anomalia genética fosse detectada ainda na fase embrionária.

Tecnicamente, a anemia falciforme não tem um tratamento que garanta a cura com 100% de eficácia; o mais efetivo (90% de chances de cura) à disposição é o transplante de medula óssea, mas nem todo mundo pode contar com esta alternativa, que exige um doador geneticamente compatível, em geral, um irmão/irmã, e mesmo assim, apenas 20% dos pacientes possuem parentes compatíveis.

Diferença entre glóbulos vermelhos saudáveis e os de um paciente com anemia falciforme (Crédito: The National Heart, Lung, and Blood Institute)/crispr

Diferença entre glóbulos vermelhos saudáveis e os de um paciente com anemia falciforme (Crédito: The National Heart, Lung, and Blood Institute)

CRISPR ao resgate

O tratamento baseado em CRISPR, um dos aprovados para uso pela FDA, aborda a doença de outra maneira. Na impossibilidade de editar o gene HBB em pacientes acima de 12 anos, a técnica consiste em estimular a produção de outra proteína para compensar a hemoglobina defeituosa. Esta é a hemoglobina fetal (HbF), otimizada para uso durante a gestação, e responsável por transportar oxigênio da mãe para o feto.

No nascimento, o gene que regula a produção de HbF é desligado, quando o bebê passa a usar a sua própria, mas ela continua encodada; há inclusive uma condição benigna que ocorre quando esse mecanismo não é desligado. Claro, médicos já consideravam o uso da HbF em quadros de anemia falciforme, mas isso dependia de religar o gene.

A técnica, chamada Casgenia (Casgeny em inglês), consiste em usar CRISPR (que já explicamos como funciona) para desligar uma proteína chamada BCL11A, encodada em um gene de mesmo nome em humanos. É ela quem regula outros genes, entre eles, o da produção do HbF, e uma vez inativo, a hemoglobina fetal volta a ser sintetizada.

O procedimento usa células-tronco removidas da medula óssea dos pacientes, a edição genética, uma sessão de quimioterapia, e a reinserção do tecido editado. Dos 31 pacientes submetidos à casgenia, 29 deles (93,5%) não mais apresentaram crises causadas pela obstrução dos vasos sanguíneos após um ano, uma vez que a HbF entra em contato com a hemoglobina defeituosa (HbS), ela a impede de formar estruturas que deformam os glóbulos, reduzindo assim a incidência das células deformadas.

A segunda técnica, chamada lyfgenia, envolve a inserção de um vetor viral, contendo uma hemoglobina editada para prevenir a formação de glóbulos deformados; de 32 pacientes submetidos ao tratamento, 28 deles (88%) não mais apresentaram crises, por até 18 meses.

Com ou sem CRISPR, ambas técnicas têm potencial para melhorar em muito a qualidade de vida dos pacientes com anemia falciforme nos EUA, e no futuro, pode ser adotada ou adaptada para uso em mais países; no Brasil, onde mais de 3 mil novos casos são identificados todos os anos, ambos seriam muito bem-vindos.

Fonte: U.S. Food and Drug Administration

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