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O carisma do vilão Coringa e o fascínio pela loucura

O filme do Coringa pôs novamente os holofotes no vilão, mas em quê as versões do cinema diferem do Coringa da HQ? E qual a fascinação que o torna tão popular?

08/09/2019 às 22:48

Muito antes do novo filme do Coringa ser sequer sonhado, o misterioso palhaço do crime já era de longe o vilão mais popular nas histórias do Batman, mas essa popularidade tem origens mais profundas do que a de um Lex Luthor ou uma Mulher-Gato. O bom e velho Joker mexe com partes bem mais sombrias de nossa mente do que estamos confortáveis a admitir.

Nos primórdios, tanto Batman quanto o Coringa eram bem violentos. Batman andava armado, e o Coringa surgiu como um assassino serial psicopata já no Batman #1, em 1940, criado por Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson. O visual original foi baseado no personagem interpretado por Conrad Veidt no filme expressionista alemão de 1928, O Homem Que Ri:

Com o tempo, Batman foi se metamorfoseando no vigilante que não mata e odeia armas, e o Coringa se tornou mais engraçado e inofensivo, ainda mais com a adoção em 1954 do Comics Code Authority, um código de conduta que restringiu criativamente e infantilizou quadrinhos por décadas.

Sim, teve até um Coringamóvel.

Quando as editoras começaram a se afastar do Comic Code, as histórias e os personagens se tornaram mais sérios, mas Batman não voltou a suas raízes assassinas, já o Coringa abraçou a insanidade do personagem. Os autores se sentiram livres de explorar um vilão sem pudores, sem objetivos mesquinhos, quase uma força dadaísta, o extremo oposto do ideal de Lei, Ordem e Justiça que Batman representava.

Histórias impensáveis hoje em dia foram escritas, como a clássica Morte em Família (1988), onde o Coringa é nomeado Embaixador do Irã na ONU pelo Aiatolá Khomeini.

Na mesma história, o Coringa mata Jason Todd, o novo Robin. É uma morte brutal e cruel, com repercussões extremas nas futuras histórias do Batman.

O auge da crueldade do Coringa foi atingido em 1988 na seminal (sem trocadilhos) A Piada Mortal, de Alan Moore. Na história, o Coringa sequestra o Comissário Gordon, para provar que mesmo o mais são dos homens pode sucumbir à loucura se exposto a uma dose interminável de crueldade e insanidade.

Entre outras coisas, o Coringa invade o apartamento de Bárbara Gordon, com um tiro à queima-roupa a deixa paraplégica, tira suas roupas e a fotografa, mais tarde mostrando as fotos para o Comissário.

O tiro ressoou por anos afetando todo o Universo DC, com o Coringa se consolidando como o mais cruel e imprevisível dos vilões da DC, mesmo ano passado uma capa alternativa de uma edição de Batgirl provocar polêmica.

Na TV, o Coringa foi mais contido. A versão de Cesar (e não George, Omelete!) Romero era um fanfarrão inofensivo, por causa dos draconianos códigos de comportamento impostos pelo FCC na época. Na versão animada, o personagem foi excelente, na voz de Mark Hamill, e a série de Bruce Tim ainda nos rendeu a excelente Arlequina.

Hoje, os (inserir pejorativo para fãs de Nolan aqui) acham que o Coringa do Jack Nicholson era bobo e caricato, mas ele foi uma inesperada e sanguinária representação do personagem. O Coringa era um psicopata em estado puro, ele - acredite se quiser - carbonizou o Jack Pallance, e - não se esqueça - matou o Bob a sangue frio, por nada, só por estar irritado com o morcegoso.

Heath Ledger atualizou o personagem, criando uma versão que manteve a crueldade de Jack Nicholson, ampliando a insanidade, mas ao mesmo tempo fazendo-o funcionar em um mundo muito mais realista do que a Gotham de Tim Burton.

Teve o Jared Leto e agora Joaquin Phoenix promete uma interpretação antológica do personagem, e o novo filme do Coringa está provocando discussões acaloradas.

Em todos esses anos, em todos esses atores e versões, o ponto em comum é a fascinação com o personagem, que só aumenta. Mas o que há no Coringa que mexe tanto com a gente? Qual o mistério do Palhaço do Crime que o torna tão sedutor?

Não é pelo sangue

Histórias de zumbis estilo The Walking Dead ou Crossed são populares, pois mostram uma destruição total do tecido social, todo mundo acaba tendo que recomeçar a vida do zero, todo mundo no mesmo patamar, ricos, pobres, cientistas, diplomados, lixeiros, até blogueiros (mas não duram mundo. Regra número 1: cardio).

Também atrai a catarse da violência, poder dar machadadas no chefe, atropelar a vizinha chata, jogar os moleques chatos da esquina em um triturador de lixo. E não, essa catarse não é a externalização de desejos psicopatas, o grande ponto dos filmes de zumbi é que essa violência é permitida, pois os zumbis não são mais humanos.

No mundo real, essa desumanização existe, claro, é a base da propaganda de guerra, mas no caso dos zumbis as pessoas jamais fariam aquilo com quem não gostam, mas conseguem projetar seu desejo imaginando a situação onde os alvos não seriam mais humanos.

O Coringa não se encaixa, ele vive em um nível de loucura que não serve como catarse, a pessoa tem que se imaginar insana para se identificar com ele. O segredo do Coringa é outro, e tem a ver com ele não ser mesquinho.

Os objetivos do Coringa sempre são vagos. Ele não pratica seus crimes por dinheiro (além do necessário para manter sua infraestrutura e pagar as Coringuetes). Ele não quer (muito) dominar Gotham City. Ele quer matar o Batman, mas ao mesmo tempo sabe que ele o define.

O Coringa é do Mal, mas ele é mais que uma força maléfica, uma força caótica. Nós gostamos do Coringa por não sabermos o que diabos ele vai inventar, quais seus limites. Claro, é bom ver Jason Todd apanhar feito cão ladrão, mas a gratificação veio da surpresa esperada, pois com o Coringa na história tudo pode acontecer.

Ele tem um elemento de catarse, mas vai muito além dos zumbis, o Coringa nos mostra um mundo sob um ponto de vista que não conseguimos enxergar. Um mundo onde tudo pode mudar de pernas para o ar; o Coringa é um ás da imprevisibilidade. Uma hora você é Bob, fiel assistente do Coringa, no momento seguinte ele te mata, sem nenhum motivo, sem nenhum aviso.

Só que também sem nenhum sadismo. O fato do Coringa estar perfeitamente normal, no momento seguinte matar alguém, e depois continuar como se nada tivesse acontecido, o faz muito mais assustador do que qualquer Hannibal Lector.

Na vida real isso seria assustador, mas como é ficção, o Coringa é uma montanha russa no escuro, um trem fantasma. Ele puxa nosso tapete, nos tira da nossa zona de conforto, mas sabemos que não é de verdade, então podemos aproveitar bem mais.

Se nos filmes de zumbis os personagens nos atraem por ignorarem as regras sociais, o Coringa tem um efeito semelhante em seu próprio universo: ele faz isso com os super-heróis. Ao barbarizar com a filha do Comissário Gordon, ele ultrapassa limites que até então não tinham sido ultrapassados, isso afeta os leitores E os outros personagens.

O Coringa é uma força do caos, ele balança os alicerces de um mundo até então bem estruturado. Ele afeta as nossas certezas, nos dá um senso de mistério e imprevisibilidade para o futuro, que pode ser uma simples dúvida para a próxima história, ou ressoar bem fundo em nossas vidas reais.

O próximo filme do Coringa parece que vai ter muito pouco a ver com a mitologia do personagem no Universo DC. Ele será uma construção toda em cima da origem, e isso me incomodou bastante, até que eu percebi que... Não importa.

O Coringa não tem um passado, ele tem múltiplos, ele não se lembra de quem era, cada vez que tenta contar sua história, surge uma narrativa diferente, e quer saber? Não importa! Um dos grandes trunfos do personagem é justamente não ter um passado, não há nada o prendendo. Nós não corremos risco de ter empatia por ele, o que torna seu efeito sobre a platéia mais forte ainda.

Tanto que quando o Super-Homem matou o Coringa em Injustice: Gods Among Us, o público ficou chocado. Não com pena dele, mas triste pelo Universo ter se tornado bem mais previsível e -porque não? Sem-graça.

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