Montando um estúdio Tabajara em sua casa

Sempre digo para meus alunos que o mundo da fotografia também é o mundo da gambiarra. Ao entrarmos em uma loja de produtos fotográficos, nos deparamos com centenas de acessórios para facilitar nossa vida na hora de fazer uma imagem. Mas, dentro de uma norma não escrita, tudo relacionado à fotografia é muito caro. Vide o difusor Stofen para flash que custa quase R$ 100,00, e não passa de um pedacinho de silicone. Mas, quase tudo que podemos comprar pronto pode ser construído de maneira caseira. Basta ter tempo, os materiais corretos, conhecimento e criatividade. Hoje vamos ver como montar um pequeno estúdio caseiro com luz contínua. Pode não ficar muito bonito, mas é funcional e o resultado pode ser comparado a uma fotografia profissional.

Para quem gosta de fotografar pessoas, sempre faz falta um pequeno estúdio fotográfico. Embora a luz natural seja uma boa saída para a execução de pequenos ensaios, existem situações em que somente um ambiente fechado pode dar conta. Flash de estúdio não é tão caro quanto se pensa, mas não é todo mundo que está disposto ao investimento ou possuí uma câmera que possa se adaptar a esse tipo de equipamento. Por isso o tutorial abaixo é para quem quer trabalhar situações de luz e sombra na fotografia, ideal para ensaios com pessoas (tipo book) ou mais sensuais ou de nu artístico. Tudo o que é descrito aqui é feito de modo caseiro (um estúdio Tabajara no jargão da fotografia, hehe) e pode ser montado com pouco investimento.

Espaço Necessário

A maioria das pessoas, quando pensa no termo Estúdio Fotográfico, logo pensa em glamour e em um espaço cheio de equipamentos e acessórios. Mas, estúdio pode ser todo local reservado para o ato de se fotografar. Claro que um estúdio bem montado e equipado é um ponto a mais para o marketing do profissional, mas da para brincar em sua casa com qualquer cômodo que possa estar desocupado ou que possa ser desocupado pelo tempo necessário ao ensaio. Só lembrando que o termo ensaio pode ser usado para fotos que mantenham uma unidade temática (contando uma história) e uma unidade formal (mantendo a mesma forma de fazer as fotos) o que garante uma dinâmica para o conjunto das imagens. No meu caso, vou usar a garagem de casa, que é usada como depósito, mas possui um ponto livre que pode ser utilizado e me oferece um espaço de 4 metros de comprimento. O local a ser utilizado pode ser menor, mas lembrem-se que um bom espaço é necessário para usar uma distância focal mais elevada, pois pequenas distâncias focais tendem a deformar as modelos (leia mais sobre distância focal aqui).

Fundo Infinito

Aqui a coisa tem que ser pensada com cuidado. Em estúdios temos a opção de usar papeis especialmente fabricados para serem fundos infinitos ou mandar construir de alvenaria ou com qualquer outro material. Depende muito do que o fotógrafo quer como resultado. Já vi fotógrafo usando lona de caminhão como fundo infinito e ficou muito bacana. Mas, no nosso caso, temos que optar por um sistema mais simples de montar e desmontar. Uma alternativa interessante é comprar uma placa de compensado em qualquer serralheria e pintar da cor que melhor lhe agradar. Mas, ele é grande e difícil de guardar (geralmente 2,50×2,50m). Uma opção simples e barata é usar tecido. Eu optei por tecido preto Oxford. A cor se deve ao fato de eliminar as sombras da iluminação e para dar um clima mais íntimo para as fotos. Comprei duas unidades de 4×1,5m. Eles são colocados um ao lado do outro onde 2 metros ficam presos à parede e 2 metros ficam estendidos pelo chão.  Dessa forma tenho um fundo infinito com três metros de largura e dois metros no chão é na parede, dando a impressão de continuidade. A facilidade aqui é que depois de feito o ensaio, eu posso dobrar o tecido e guardar em qualquer lugar. (Preço por metro é de R$ 3,49, sendo que o total ficou em R$ 27,92).

Iluminação

Para esse tutorial, vamos trabalhar com iluminação contínua, ou seja, lâmpadas com iluminação constante e não com um estouro como o flash. Também existem refletores de luz contínua profissional para estúdios, mas vamos construir os nossos. Quando o comum era fotografar com filme fotográfico, á película mais sensível que encontrávamos fora dos grandes centros era a de ISO 400. Por isso, nessa época, a melhor solução para iluminação era a utilização de lâmpadas halógenas montadas em refletores comuns de jardim que podemos encontrar em qualquer loja de materiais de construção. Porém, existiam dois problemas nessa prática. O primeiro era o incrível gasto de energia dessas lâmpadas, e o segundo era o aquecimento excessivo que acontecia no ambiente. Mas, o resultado era muito interessante. Abaixo temos um exemplo de foto realizada com lâmpadas halógenas.

Um ponto interessante a se observar é que o refletor de halógenas confere a imagem um tom alaranjado que pode ser indesejável para o fotógrafo. Em câmeras de filme tínhamos que usar os filtros coloridos para corrigir essa variação de cores. Nas digitais temos que regular adequadamente o White Balance da câmera. Para quem nunca se preocupou com isso, veja abaixo o efeito do correto uso do recurso (veja mais sobre White Balance aqui).

Hoje, com as câmeras digitais mais modernas e a freqüente melhora da qualidade dos ISOs elevados, podemos nos dar ao luxo de trabalhar com lâmpadas mais comuns. Já faz um bom tempo que estou me utilizando de lâmpadas comuns de 200w em refletores comuns de jardim. Além dos refletores serem encontrados em qualquer loja de materiais para construção, as lâmpadas são baratas e estão disponíveis em qualquer mercado ou mercearia. O indicado é que se tenha no mínimo duas fontes de luz para garantir uma iluminação mais uniforme. Também existe a possibilidade de se usar apenas uma para criar efeitos de zona de sombra contrastando com a zona iluminada.

Difusor

Um dos truques em relação a fotografia profissional que a maioria dos amadores não conhece é que nunca utilizamos a luz de forma direta. Tanto o flash da câmera quanto em nossas fontes de luz artificial, sempre nos utilizamos de rebatedores ou difusores, para tornar a luz mais suave e não gerar sombras muito duras. Em nosso caso, como a fonte de luz já não é muito forte, o ideal é utilizar um difusor. Alguns se valem de tecidos brancos transparentes, plásticos ou papéis foscos para ficar na frente do refletor, mas isso não é uma boa idéia porque o aquecimento dos refletores pode vir a causar algum incêndio. A melhor opção que encontrei foi ter a preocupação de comprar refletores que possuam vidro na parte da frente. Depois é só levar a peça de vidro em qualquer lugar que trabalhe com esse material e pedir para jatear com areia. Dessa forma temos um ótimo difusor já acoplado ao refletor e sem a preocupação de fogo acidental.

A Câmera

Infelizmente, a qualidade geral das fotos em nosso estúdio vai estar ligada também a qualidade da sua câmera. As DSLR são as opções mais indicadas, pois possuem o controle manual completo necessário para as fotos. Porém, muitas compactas avançadas também podem ser utilizadas sem problema. Indico sempre as câmeras da Fuji equipadas com o Super CCD (as duas fotos abaixo foram feitas com a Finepix S6500FD com ISO 800). É impossível trabalhar com o modo automático nesse tipo de situação. Sempre utilizamos uma velocidade baixa de obturador (em torno de 1/60) e uma abertura de diafragma que torne possível a captura da imagem. Se sua mão não for muito firme, um tripé também se faz necessário. O fotômetro da câmera sempre vai te avisar que não existe luz suficiente para a foto, mas é só ignorar a informação, pois o efeito que queremos também não é o que a câmera calcula como o certo. Por isso é importante conhecer essas pequenas regras e conhecer sua câmera. A velocidade ISO varia entre 400 e 800 e depende da luminosidade de sua lente. O indicado é fazer experiências até encontrar a configuração mais adequada de seu equipamento (veja mais sobre fotometria aqui)

Edição de Imagem

Eu, particularmente, só faço esse tipo de foto em RAW. Isso porque tenho mais liberdade na hora da edição, podendo mudar o White Balance e a resposta quanto à nitidez e quantidade de ruído também é muito positiva. Mas, é possível trabalhar com JPEG também. O resultado final depende do que se esta querendo como objetivo. O tipo de foto que está aqui nesse post não trabalha com o equilíbrio de luz que teríamos normalmente em uma foto. Além de ficar escuro em alguns pontos, eu costumo aumentar ainda mais as regiões com baixa luz. O resultado é a penumbra que encontramos na foto. Mas, isso é um gosto meu. Cada um tem que desenvolver seu próprio estilo. Em caso de câmeras que gerem muito ruído em ISO elevado, uma saída é sempre a conversão para preto e branco, onde o ruído fica até charmoso. Mesmo o ruído mais evidente acaba sendo muito amenizado na hora da impressão, ainda mais se o papel escolhido for o fosco.

Essa é apenas uma receitinha básica. Outras formas de fotografar podem ser criadas usando materiais acessíveis a qualquer um. Dúvidas e sugestões podem ser feitas nos comentários.

Autor: Gilson Lorenti

Geógrafo de formação e fotógrafo de coração, comecei a fotografar com 18 anos de idade (antes disso nunca tinha pegado uma câmera na mão). Depois de muito estudo veio a carreira profissional que passou por várias modalidades da fotografia até realmente descobrir o que gosto de fazer. Hoje me dedico ao ensino de fotografia, fotografia Fine Art e Books Fotográficos (gestante, moda, sensual). Tomando emprestado as famosas palavras de Ansel Adams "Quando as fotografias não forem mais suficientes, me contentarei com o silêncio".

Compartilhar