A música obscura que teve sua chance de brilhar graças aos Jovens Titãs

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Um dia Peter Michail, diretor e produtor da EXCELENTE série animada Teen Titans Go! (por aqui, Os Jovens Titãs em Ação) estava fuçando em uma biblioteca de músicas para incluir uma faixa para um episódio da segunda temporada, quando descobriu em uma música com forte pegada oitentista. Era apenas um caso comum, de escolher uma canção para criar uma cena e seguir em frente, nada de mais.

Mal sabiam os envolvidos que a desconhecida The Night Begins To Shine acabaria por se tornar um fenômeno entre os fãs do desenho, e hoje a música foi parar nos charts da Billboard. No entanto a jornada da canção até o topo é mais divertida ainda.

A situação que levou à descoberta da faixa não é nada extraordinária. Produtores de séries para a TV ou desenhos animados, por terem orçamentos mais apertados muitas vezes não podem utilizar músicas com direitos autorais (de artistas/compositores protegidos por copyright) ou mesmo contar com um compositor de trilha sonora, pois o preço final ficaria alto demais. A alternativa é utilizar bibliotecas de músicas, que geralmente comportam centenas de canções de uso livre de modo a permitir custos mais civilizados.

Não é nada diferente do que o YouTube faz ao oferecer um banco próprio com músicas livres, para que os YouTubers criem seus vídeos sem tomar um processinho nas ideias (ainda que isso nem sempre funcione, já vi casos de gente que levou strike ao utilizar as canções da própria biblioteca da plataforma).

Voltando aos Jovens Titãs, Michail buscava em 2014 uma música incidental apenas para dar um tema para o Ciborgue para o episódio Slumber Party, o 10º da segunda temporada quando encontrou The Night Begins To Shine, uma composição de 2005 de uma banda desconhecida dos EUA chamada B.E.R. (o nome é uma referência aos membros e compositores Carl Burnett, Frank Enea e William J. Regan). O produtor conta que queria uma trilha totalmente anos 1980 para aquele episódio, que estava seguindo tal temática e aquela canção caiu como uma luva (“essa música é incrível”, segundo suas palavras), trazendo toda uma pegada saudosista.

Samples foram inseridos na abertura (em que Ciborgue canta junto) e em outros momentos do episódio, não durando mais do que dez segundos.

O que deveria ser apenas uma piada foi o suficiente para os fãs da série ficarem malucos: segundo o produtor-executivo Michael Jelenic os espectadores começaram a se perguntar “que música é essa?”, querendo saber mais dela e do tal B.E.R. e foi então que os showrunners decidiram: “a banda é incrível, a música também então vamos fazer de The Night Begins To Shine a (única) música favorita do Ciborgue”.

Em 2015 a canção foi o tema de um episódio inteiro da terceira temporada (40%, 40%, 20%), em que o Ciborgue atormenta seus colegas Titãs com sua playlist de uma única canção tocada ininterruptamente. Com toda uma pegada visual absolutamente oitentista com direito a robôs gigantes, um pégaso e uma águia mecânicos, muito cromo e neon o curta foi um estouro, e para completar a banda B.E.R. lançou The Night Begins To Shine pela primeira vez como um single, dez anos depois de compô-la.

A partir daí o sucesso só aumentou. Os fãs começaram a fazer montagens com a música em outros vídeos (bem ao estilo Guile’s theme song goes with everything) e a subir loops de uma hora de duração, e foi então que a Warner viu uma chance de capitalizar em cima: nesta temporada a série recebeu um especial de quatro episódios novamente girando em torno da música, com direito a covers de The Night Begins To Shine de artistas como o rapper CeeLo Green, a dupla japonesa Puffy Amiyumi (que cantou a música-tema da série anterior) e da banda Fall Out Boy, esta com direito a videoclipe:

Resultado: a versão original foi parar nos charts da Billboard da última semana, na categoria canções de rock mais ouvidas na 23ª posição.

Carl Burnett, o “B” do B.E.R. se diz surpreso com o sucesso que The Night Begins To Shine alcançou (milagroso, segundo ele) e mesmo que este seja mais um caso de one-hit wonder, não dá para negar o fato que uma música incluída numa biblioteca de uso livre tenha alcançado tal projeção é um feito e tanto. Até porque independente do Ciborgue a tocar até a fita K-7 arrebentar, a música é de fato muito boa.

Fonte: NPR.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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