Lançamento Brasileiro — eu falei pra você não se animar.

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Dramática reconstituição do lançamento

Se há algo que podemos nos orgulhar é que o Brasil é um país à prova de Snowdens e Wikileaks. Somos excelentes em guardar segredos. Conseguimos ocultar um lançamento espacial de quase 200 milhões de brasileiros. Ontem o site do INPE e o da AEB mostraram uma contagem regressiva para o lançamento do Longa Marcha 4B com o satélite CBERS-3. Quando o contador chegou a zero, sabem o que aconteceu?

Nada. Nadica de nada. Não havia transmissão ao vivo, o twitter do INPE permaneceu calado (a última postagem tinha sido feito 2 dias atrás) e NENHUM LUGAR estava transmitindo o lançamento. O lançamento do satélite secreto do NRO semana passada foi mais divulgado e transmitido ao vivo do que o brasileiro.

A gente tenta dar uma força, mas é muito complicado fazer divulgação científica quando a Melhor Coréia transmite seus lançamentos, quando empresas privadas como a SpaceX e a Orbital transmitem seus lançamentos, e quando a China Comunista transmite com ângulos inéditos sua missão pra Lua. Outro dia falaram que é triste perceber que uma bebida energética tem um programa espacial melhor do que o do seu país, mas a comédia de erros de ontem foi o pior.

Logo após o lançamento, começaram a pipocar notícias sobre o sucesso. Segundo o G1:

O sucesso da operação só foi confirmado à 01:41, cerca de 15 minutos depois do início do procedimento, quando foi concluída a abertura do painel solar do equipamento.”

Uau, yay, Vai Brasil!

O MSN concorda:

Satélite brasileiro CBERS-3 é lançado com sucesso da China

Portal Brasil, oficial, do Governo:

Satélite sino-brasileiro CBers-3 é lançado com sucesso

Beleza, finalmente, quase 4 anos sem satélites, agora vai, né? O próprio release oficial do INPE fala que deu tudo certo.

Como bom brasileiro você sabe que não é assim que a banda toca.

AVISO: se você é um dos SETE funcionários da Agência Espacial Brasileira (incluindo um datilógrafo) pare de ler, ou vou magoar seu coraçãozinho.

Todo mundo já viu imagens das salas de controle dos países de verdade, e até da Melhor Coréia. Quer ver de onde o INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, com 50 anos e “criado para ser a NASA Brasileira” acompanhou o lançamento?

Desta repartição aqui abaixo. (note que o tiozinho está com os dois monitores desligados)

brasil

O resultado é que eles estavam tão às cegas quanto nós, mas saíram chutando e soltaram um release descrevendo uma operação ideal, perfeita, mas não foi o que aconteceu.

SEGUNDO o INPE depois de 12,5 minutos o satélite, já em órbita, foi liberado do lançador. Aos 15 min o painel solar foi aberto e travado em posição. Perfeito, mas nada do bicho se comunicar. Aí foi hora de ver que ao contrário dos fogos Caramuru, lançamento brasileiro dá chabu, e publicaram um release explicando que o sucesso foi um tanto prematuro.

Aqui entram as informações conflitantes. SEGUNDO as informações brasileiras havia sido tudo perfeito, MAS o satélite não entrou em órbita. Com a precisão científica que lhe é peculiar o INPE informa:

Avaliações preliminares sugerem que o CBERS-3 tenha retornado ao planeta.”

Bem, podemos dizer que acertaram em 100% a área de pouso.  

O Globo é mais preciso ainda:

Avaliações preliminares sugerem que o CBERS 3 tenha retornado ao planeta”, isto é, que ele caiu em algum lugar da Terra.”

Aí fica a dúvida: nos lançamentos decentes, inclusive os da própria China, acompanhamos a telemetria mostrando informações essenciais do foguete, com direito a curvas projetadas, posicionamento real, etc, etc. Sabemos a velocidade, altitude e inclinação das órbitas. Quem está  trabalhando nisso por anos conhece ou deveria conhecer esses dados de cor. Não faz sentido um lançamento que deu errado ser anunciado como sucesso, tão tarde.

Segundo a agência de notícias oficial da China, uma falha no foguete impediu a entrada em órbita do satélite. Consequentemente ele permaneceu em trajetória balística.

As teorias conspiratórias vão abundar, claro, mas a única realidade é que ciência no Brasil é tratada com desprezo pelas autoridades E pelos envolvidos. Enquanto nos EUA, durante o blecaute de orçamento que praticamente fechou a NASA, cientistas ficavam tuitando de contas pessoais e ajudando a divulgar pesquisas até de outros países, além de manter em funcionamento alguns projetos essenciais, aqui justificaram que não havia ninguém tuitando do INPE o lançamento, pois “ganham mal e não recebem hora-extra”.

Se o governo não se importa com ciência, se quem a faz não se importa com divulgação disso, só lamento. Vamos continuar sendo motivo de piadas SIM. Temos uma “NASA Brasileira”, uma agência espacial com 7 funcionários e para nós lançamento bem-sucedido é a bosta do foguete não explodir na plataforma.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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