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Guerra Fria, Satélites e Brigas Infantis

Ontem os EUA fizeram um lançamento secreto — mais ou menos — na prática há toneladas de informação e o mundo moderno faz com que não seja mais possível viver em segredo. Afinal, quem quer ficar em desvantagem tecnológica em relação à Coréia do Norte? Leia e veja como esse e outros casos mudaram a percepção de Segredos de Estado e privacidade, mesmo entre Governos.

6 anos atrás

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YES, esse é o emblema oficial do lançamento de hoje. YES, eles já foram mais sutis. YES, parece coisa dos Simpsons, mas é real!

Neste momento estou acompanhando um lançamento secreto do NRONational Reconnaissance Office, a agência do Governo dos EUA responsável pela construção e operação de satélites espiões. A rigor o lançamento não é secreto, só a carga que é. Podem ser os restos mortais do Bin Laden que serão lançados no Sol, pode ser uma bomba nuclear para deter uma invasão alienígena mas provavelmente é um satélite espião para substituir um dos velhinhos, que já passaram da validade faz tempo.

A graça é que por muito tempo muitos lançamentos, principalmente militares, eram totalmente secretos, não eram anunciados. O racional era que não queriam dar informações a espiões russos, mas isso acabou não fazendo muito sentido. Desviavam tráfego aéreo na última hora, todo mundo em terra já tinha uma boa idéia de que o lançamento ocorreria de qualquer jeito, e a maior das ironias: os russos eram oficialmente comunicados, com antecedência.

Não era interesse de ninguém começar uma guerra nuclear por acidente, então todo lançamento era avisado e detalhado, para que o outro lado não achasse que era uma ICBM voando para Moscou ou Washington.

Assim, o povo americano tinha menos informações, por parte de seu governo, do que os russos.

Com o tempo perceberam que só a carga precisa ser secreta, e mesmo assim informações como posição orbital são obrigatoriamente disponibilizadas, até para que o precioso satélite militar não seja atropelado pelo satélite da Fox.

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As duas superpotências viviam em um jogo de gato-e-rato que lembrava muito briga de criança. Uma implicando com a outra, puxando cabelo, roubando brinquedo. às vezes brigavam na frente dos “adultos”.

Um caso desses foi quando a NASA disponibilizou imagens de satélite mostrando canais de irrigação enterrados no delta do Nilo. Foi uma descoberta arqueológica importante, remontando ao tempo dos faraós. Só que a imagem não veio da NASA, ela nem tinha satélites com sensoriamento por radar, na época.

A imagem veio de um satélite espião, foi tornada pública para dar um recado aos russos, que estavam planejando construir silos subterrâneos para esconder seus mísseis. A mensagem era: conseguimos ver debaixo do solo, não adianta.

Como resposta, os russos publicaram uma foto da Área 51, aquela base de testes no deserto de Nevada, que só admitiram a existência em… 2013. Nos mapas é uma grande área em branco, o sobrevôo é terminantemente proibido, se você passar por cima da região seu avião será abatido, consertado e abatido de novo.

Os americanos não ficaram nada satisfeitos com a publicação da foto, mas ao mesmo tempo a confirmação da existência da base deu novo gás aos ufeiros, que acampavam no perímetro da Área 51, fotografando e filmando os “OVNIs”.

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Satélite-Espião da série KH-9 Hexagon, do início dos Anos 60. Hoje você consegue imagens melhores no Google Earth. Na época ele ejetava módulos de reentrada com cartuchos de filmes fotográficos que eram capturados antes de atingirem o chão.

Isso não só servia de distração, gerando tanta informação inútil que os russos não podiam confiar em relatos para deduzir padrões de vôo, como também funcionava como uma patrulha informal. Com um monte de Mulders o tempo todo nos arredores, era muito mais complicado pra um espião russo montar um posto de monitoramento dos testes que eram feitos na base.

Uma das maiores mentiras que ensinam pras crianças é que quando um não quer dois não brigam. Não brigam se um aceitar apanhar calado. O que mudou no cenário internacional é que as grandes potências não brigam mais entre si, mas não podem se dar ao luxo de ignorar o garoto baixinho e esquentado, que hoje é a Coréia do Norte. Ou o sujeito mal-encarado que pode ou não saber artes marciais, que é o Irã, ou o cara grandão da escola vizinha, que é a China.

O efeito disso é que hoje boa parte das pesquisas é feita em aberto, vemos projetos como o drone stealth X-47, um drone lançado de submarino e a nave espacial “secreta” X-37 testadas e divulgadas normalmente. Como agora o “inimigo” se vangloria de seus próprios feitos, na percepção pública os EUA ficariam para trás. E pior, na percepção dos inimigos nanicos, o que nunca é bom.

Não quer dizer que toda pesquisa militar seja assim liberada, há muita coisa que ninguém tem idéia sendo desenvolvida. Um engenheiro da Skunk Works, divisão de projetos avançados da Lockheed disse que os projetos mais avançados pareciam coisa de alienígenas. Só pareciam, mas isso já basta.

No caso do lançamento de hoje o foguete subiu direitinho, mas depois que passou de uns 40 km de altitude, a transmissão foi interrompida, conforme combinado com o Governo. Mais informações de ângulos, velocidade e tempo de queima dos estágios do foguete seriam suficientes pra qualquer um mais inteligente calcular a massa exata do satélite secreto, e não se dá esse tipo de informação aos Alemães (figurativamente falando).

Em uma era onde a privacidade está se tornando uma grande incógnita, e o indivíduo é alvo prioritário do Estado, não deixa de ser deliciosamente irônico ver que o Big Brother sofre do mesmo problema, tendo que abrir mão de seus segredos para não passar por fraco.

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