Steve Jobs decreta o fim do Flash

Ok, é apenas um exagero de redação, você pode dizer e provavelmente com razão. Mas a polêmica não é vazia e ainda tem muita água para rolar por baixo dessa ponte.

Jobs, a face pública e ditador magnânimo de tudo o que envolve os produtos da Apple, publicou uma carta aberta no site da empresa, explicando muito claramente todos os motivos que levaram a grande maçã à banir o Flash de seus dispositivos móveis. O texto, em minha opinião irretocável, consegue sintetizar em tópicos, fatos que são de conhecimento público e hoje estão espalhados na Internet.

A tecnologia do Flash teve seu momento. Quando a web finalmente começou a crescer no Brasil, lá nos idos de 1998, eu conheci o ShockWave. Fiquei surpreso com o que podia ser feito com esforço mínimo e um pouco de criatividade (quem se lembra de Gabocorp, Eye4U e NRG.BE?). Com a evolução da plataforma, adicionando um ambiente de programação avançado e integração com plataformas externas (programação server-side, servidor de mídia, etc), o Flash parecia ter vindo mesmo para virar um padrão na Internet.

Aí veio o Google e criou-se todo um ecossistema baseado em posicionamento nos resultados de busca, um retorno às origens da Internet com os padrões web, acessibilidade, diversidade de dispositivos de acesso à web entre outras coisas, que acabou por colocar o Flash em nichos bem específicos: distribuição de áudio e vídeo, aplicativos web simulando aplicações desktop e os famigerados banners.

Com o advento do HTML5, praticamente tudo do que se faz em Flash pode ser migrado para uma plataforma aberta, livre e que tende a se tornar um padrão web, comercialmente adotado tanto em computadores desktop como dispositivos portáteis. O que sobra para o Flash? Banners?

A carta de Steve Jobs e os pontos levantados

Jobs começa sua carta aberta salientando que Apple e Adobe possuem uma história juntos, de parceria, ajuda mútua e investimentos (por algum tempo a Apple deteve 20% da companhia). Destaca que muitos dos usuários Apple são igualmente usuários Adobe, por conta das ferramentas criativas como o Illustrator e Photoshop. Esse tipo de parceria tende a continuar bem, pois é boa para os dois lados.

Na sequência, Steve lista, em tópicos, todos os motivos pelos quais a Apple não aceita inserir suporte ao Flash em seus iPod, iPhone e iPad. São eles:

Open Web. Apple acredita que tudo o que se refere à web, deve ser suportado por tecnologias abertas. Steve cita a o WebKit, plataforma de navegação web criada pela Apple e aberta, que hoje é utilizada em praticamente todo celular não-windows.

Experiência completa. A ausência do Flash não torna a experiência do usuário menos “completa”, como alega a Adobe. O formato de vídeo H.264, suportado pelos dispositivos da Apple, são igualmente suportados pela maioria dos sites de vídeo. A perda assumida diz respeitos ao jogos em Flash, mas quem deixaria de possuir um iPhone por não poder jogar games em Flash?

Confiança, segurança e performance. A Symantec divulgou em 2009 o Flash como recordista em falhas de segurança. Além disso, a Apple o aponta como o maior motivo de travamento em máquinas Mac. Junte-se a isso a péssima performance da plataforma em dispositivos móveis.

Duração da bateria. A execução de vídeos em Flash consome muito mais bateria, pois a decodificação é feita via software. Com o H.264, a decodificação fica à cargo do hardware, consumindo muito menos recursos e performando melhor. Num exemplo de Steve, um iPhone executando vídeos em H.264 via hardware poderia ser utilizado durante 10 horas contínuas, enquanto duraria apenas 5 horas se a decodificação ficar por conta do software.

O novo paradigma da interface. O Flash foi criado para PCs, com monitores, teclados e mouses. O conceito de mouseover, por exemplo, não existe num dispositivo móvel de toque. Se o Flash fosse suportado num iPhone, os desenvolvedores teriam que reprogramar seus sites, para dar suporte a essa nova forma de interagir, com o dedo e não com mouse (imagine um menu dropdown feito com mouseover?). E se as pessoas precisariam reprogramar seus sites de qualquer jeito, por que não fazê-lo utilizando uma nova tecnologia, como HTML5?

The middle-man. O motivo mais importante citado por Jobs em sua carta diz respeito aos aplicativos desenvolvidos com Flash. Ele diz que a Apple já aprendeu (à duras penas) que ter um terceiro entre a empresa e seus desenvolvedores não é bom. Limita a aplicação das apps, poda a evolução da plataforma e a disseminação de novas tecnologias. O Flash foi feito para ser multiplataforma e é muito bom nisso. Uma nova tecnologia lançada pela Apple, poderia não ser aplicada no tempo desejado no ambiente do terceiro, fazendo com que todo o ecossistema ficasse nas mãos dessa empresa, que decidiria qual o melhor momento para um upgrade.

Jobs citou inclusive, que apesar de o OS X estar há 10 anos no mercado, só agora no CS5 é que a Adobe fez uso completo de sua plataforma, se tornando a última, das grandes empresas que desenvolvem produtos para o Mac OS, a fazer essa esse upgrade.

Embora saibamos que essa última justificativa envolve também uma questão comercial fortíssima, não é sequer sensato ignorar as 5 anteriores. São verdades ditas há bastante tempo, compartilhadas por desenvolvedores dos quatro cantos do mundo, mas que vão sendo relevadas por conta do mercado, da adoção da tecnologia e dos novos clientes que surgem todos os dias querendo uma “introduçãozinha animada” para o site do seu restaurante.

Há muitos anos eu não uso Flash, me incomodo quando preciso acessar um site que o utiliza muito e fecho toda “introduçãozinha animada” de qualquer site que acesso. Pra mim, o Flash é um câncer, que deve ser eliminado, tal qual o Internet Explorer 6 já está sendo, aos poucos, extirpado.

Achei de extrema educação, transparência, respeito e principalmente coragem, a atitude do Steve Jobs ao publicar a carta aberta. Obviamente tudo o que ele disse ali já é de conhecimento da Adobe, certamente a maioria de nós está ciente do que está escrito e provavelmente alguns irão se sentir magoados ou até ameaçados (flash developers, aprendam html5). Mas é a vida, tudo o que é criado tem como destino a evolução ou a morte.

O fim da Era PC já foi decretado há tempos. É fato consumado que, em um futuro não muito distante, os computadores serão portáteis, embutidos em outros equipamentos, as interfaces serão mais naturais e os PCs como os conhecemos, serão peça de museu (junto com as enceradeiras, vitrolas e mimeógrafos). E o Flash será apenas aquela luz da câmera fotográfica e, talvez, um personagem de história em quadrinhos.

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Autor: Manoel Netto

Baiano, morando em São Paulo, casado, começou a escrever em blogs por conta de sua paixão por tecnologia, em 2006. Atualmente já tem uns 6, escreve em mais uns 3 e não sabe como encontra tempo para outras coisas.

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