Agora vai? Congresso vai avaliar em maio acordo sobre a Base de Lançamento de Alcântara

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O programa espacial brasileiro está basicamente parado desde 2003, depois do acidente que explodiu o VLS e 21 técnicos e cientistas. Apesar de a imprensa ter feito uma festa, e a Isto É chegar a publicar um texto apontando como causa um satélite americano armado com lasers, em verdade a culpa foi nossa natural incompetência. Exagero? Digamos que “as saídas de emergência, por exemplo, levavam para dentro da própria torre de lançamento”.

De lá para cá tentamos arrumar uso pra Base de Lançamento de Alcântara. Um acordo com os EUA foi cancelado pela então oposição, com alegações de que violava nossa soberania nacional ao não permitir que autoridades brasileiras inspecionassem áreas restritas a técnicos americanos.

Soa estranho mas isso é praxe no mundo todo. Ninguém deixa tudo aberto, e uma prova definitiva é que anos mais tarde a oposição, então governo fez um acordo com a Ucrânia, que incluía o desenvolvimento do Cyclone-4, projeto que o Brasil afundou US$ 500 milhões, e claro, não saiu do papel.

O ministro da Defesa Raul Jungmann foi bem incisivo sobre o tema:

Foi um acordo desastroso para o Brasil, e na prática ele tinha as mesmas salvaguardas para os ucranianos de que reclamavam no caso americano.”

Agora as negociações com Washington foram retomadas. O governo brasileiro está reescrevendo a proposta enviada para o Congresso, que será reenviada em maio, abrindo a Base para as nações amigas. Em termos de receita isso pode — dizem eles — significar US$ 1,5 bi por ano para nossos cofres, nossos deles, claro, não nossos nossos.

O atrativo é a proximidade com o Equador, onde a velocidade angular da Terra chega ao máximo, então um foguete lançado de lá já começa com uma vantagem em relação a um que é lançado de pontos mais lentos. Em termos de economia você usaria menos 30% de combustível para colocar a mesma carga em órbita.

Dizem, diiizem que há quatro países interessados, mas temos alguns problemas.

Primeiro, uma base e lançamento é muito mais do que uma plataforma. É preciso toda uma infraestrutura em volta, com técnicos altamente qualificados, portos, aeroportos, etc. Não há NENHUM porto nas proximidades de Alcântara, e piora.

A estrutura da base não é compatível com grandes lançamentos, ela não está preparada pra eventos desse porte. Para dar uma idéia de como ela é minúscula, o VAB — Vehicle Assembly Building, prédio onde o foguete é finalizado é tão pequeno que quem se move é o prédio, não o foguete. Sério.

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Yes, são rodinhas.

A infra necessária para lançamentos de verdade simplesmente não existe, é um know-how que não dominamos (ok não dominamos os de pequena escala também) e o custo para construir uma base do nível de Kourou ou Baykonur é… astronômico.

Duvida? Parece grande na foto? então vamos a um exercício de escala. Como o VLS-1 acima, com seus portentosos 19,7 m de altura se compara aos foguetes que a gente vê na TV, como o Ariane 5, o Delta IV heavy ou o Falcon 9? Aqui está uma imagem com todos eles em escala:

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A Base de Alcântara conta com uma demanda que não existe. Só o Centro Espacial Kennedy/Base de Cabo Canaveral tem cinco complexos de lançamento ativos, e VINTE E SETE inativos, bastando uma reforma para se tornarem operacionais.

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E nem vou me dar ao trabalho de listar os centros de lançamento chineses, japoneses e russos.

Quanto a cargas pequenas, há várias empresas entrando no mercado, como a Virgin Galactic, que lançará seu foguete de um Boeing 747, ou a StratoLaunch Systems, do Paul Allen, que usa um avião projetado por Burt Rutan.

Sobra pra nós lançarmos satélites muito pequenos, a um custo baixo. Mas convenhamos: um pais tão incompetente que não consegue imprimir o próprio dinheiro e tem que importar Reais da Suécia conseguirá ser competitivo, vencendo Índia e China no jogo deles?

A posição geográfica da Base de Alcântara é muito vantajosa, mas não o bastante para fazer toda a indústria se reprojetar. Hoje em dia as cargas são projetadas para os limites físicos dos foguetes, a economia seria apenas de combustível e essa é a parte mais barata. 30% do combustível de um Falcon 9 não compensam o custo de deslocar toda a operação pro Brasil.

A base só faz sentido para nós se for desenvolvida no modelo da Índia, que construiu suas bases, criou seu programa espacial, projetou foguetes de verdade e chegou a Marte. Hoje a Índia vende serviços para o mundo todo, mesmo os EUA já usaram foguetes indianos para lançar satélites várias vezes.

Vai acontecer? Não. Perdemos o bonde da História. Em 1974 o economista Edmar Bacha chamou o Brasil de Belíndia, uma Bélgica pequena e rica, cercada por uma Índia gigantesca e pobre. Hoje a Índia olha e diz: fale mais alto, não dá pra ouvir vocês aqui da órbita de Marte.

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Fonte: Folha.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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