Resenha — Logan (sem spoilers)

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Um funeral. Essa é a melhor maneira de definir Logan, o mais novo filme da Fox baseado no universo dos X-Men e o terceiro solo do Wolverine, personagem vivido por Hugh Jackman por quase duas décadas (céus, como o tempo voa). O clima é de desfecho, conclusão, já que o ator dá adeus ao papel do mutante mais popular da Marvel Comics em uma produção séria, que por muito pouco não se enquadra em uma produção de super-heróis.

Acompanhe-nos em uma análise livre de spoilers deste que está sendo considerado o melhor filme baseado em HQs já produzido.

There aren’t any more guns in the valley

Parece que foi ontem, mas X-Men: O Filme estreou nos cinemas em 2000. Ainda que muitos apontem para Blade (1998) o verdadeiro primeiro filme da retomada dos heróis no cinema, foi a produção de Bryan Singer que mudou todos os parâmetros e mostrou que era possível contar uma história de seres com poderes malucos na tela grande. O grande problema é que ele atochou todo mundo dentro de roupas de couro preto, a fim de dar um ar de seriedade para o que ficaria ridículo na tela: um cara com seis garras de metal nas mãos usando um colã amarelo, botas azuis e uma máscara esquisita.

A ideia deu certo, os X-Men viabilizaram todo um novo filão de produções baseadas em HQs e até a Marvel refletiu isso nos quadrinhos, com os mutantes usando couro por anos. Precisou de um Joss Whedon em Surpreendentes X-Men para as roupas coloridas voltarem, com Ciclope apontando o óbvio: “o preto estava deixando todo mundo louco”.

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Só que em algum ponto a Fox perdeu a mão com a franquia. X-Men III: The Last Stand, dirigido por Brett Ratner porque Singer estava no comando de Superman Returns (outra bomba) fez tudo errado, ao matar uma penca de mutantes e tirar os poderes de outros tantos. A solução do estúdio foi se voltar para Wolverine, que era o destaque e galã da franquia (com seu 1,88 m e peito pelado, que sempre davam o ar da graça para alegria da mulherada) e dar a ele uma aventura solo, com a promessa de entregar uma produção “adulta” e mais próxima das Graphic Novels da Marvel.

Não poderiam estar mais errados. X-Men Origens: Wolverine (2009) foi uma bomba suja, ao ponto de muita gente ter agradecido ao nobre desconhecido que vazou a cópia incompleta antes da estreia, o que fez muita gente poupar sua grana. A Fox então decidiu recontar tudo, e com X-Men: A Primeira Classe (2011) o estúdio teve uma recepção excelente, o que abriu espaço para o reboot em Dias de Um Futuro Esquecido (2014).

Só que antes dele a Fox tentou mais um filme com Logan em voo solo. Wolverine: Imortal (2013) não é perfeito, mas a adaptação de James Mangold (Johnny & June, Os indomáveis) para a Graphic Novel Eu, Wolverine de Frank Miller já foi bem mais séria do que as tentativas anteriores. Só que um problema se apresentava: o tempo passa e como Hugh Jackman não tem fator de cura, ele está envelhecendo.

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Assim Mangold foi escalado para adaptar outra grande obra do carcajú nas HQs: a minissérie O Velho Logan, lançada em 2008 na revista mensal e escrita pelo insano genial Mark Millar, autor de pérolas como a saga Guerra Civil, os dois primeiros volumes d’Os SupremosThe AutorithyKick-Ass e The Secret Service (a HQ que se tornou base para a franquia cinematográfica Kingsman), entre outras. Ambientada num futuro apocalíptico onde os vilões venceram e quase todos os heróis estão mortos, Logan é um velho fazendeiro com uma família que tenta sobreviver alheio a tudo o que aconteceu, enquanto busca esquecer o grande pecado que cometeu no passado.

Logan é uma adaptação livre e possui sua própria história, mas segue o mesmo tom pesado e sem esperança da HQ. Por pouco ele não se enquadra em um filme de heróis, pois você não verá muitos mutantes pulando na tela e poderes para todos os lados. A narrativa é mais adulta e séria, ambientada num futuro em que tudo deu errado para os X-Men e todos ao seu redor. A trama é tensa, seca a aflitiva. Não há perspectiva de melhora neste mundo e mesmo os pequenos momentos de felicidade são fugidios, efêmeros.

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Logan agora é um homem decrépito. Com o fator de cura falhando e à beira de um colapso total ele tenta viver seus últimos dias tranquilamente, sem atrair problemas para si. Ele perdeu tudo e todos, não vê nada no horizonte e se arrasta (literalmente) para permanecer vivo apenas porque outro em piores condições depende dele: Charles Xavier. O mentor dos Filhos do Átomo, agora um nonagenário inválido em nada se assemelha ao austero professor que criou os X-Men, e a interpretação de Sir Patrick Stewart (que também está dando adeus ao papel) é comovente.

Mas quem rouba mesmo a cena é a pequena Laura, interpretada pela atriz novata Dafne Keen, que foi vista na série The Refugees. A mutante (que todo mundo já sabe é a versão live-action da X-23, a jovem clone feminina do Wolverine apresentada na animação fraquinha X-Men Evolution, mas agradou tanto que foi introduzida na cronologia oficial das HQs) é dona de um ar frio e compenetrado, mas explode em acessos de fúria tal qual Logan nos velhos tempos. Ainda assim ela continua sendo uma criança, e tenta viver como tal mesmo com o mundo todo a caçando.

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Os antagonistas, um grupo misterioso liderado em campo por Donald Pierce (criação de Chris Claremont e John Byrne, um ciborgue aristocrata e membro do Clube do Inferno que odeia os mutantes e tem sede de poder infinita; aqui ele não é muito diferente) quer Laura de volta e ela acaba entrando nas vidas de Xavier e Logan, sendo que este último não queria isso de jeito nenhum. O que se segue é uma jornada triste, quase um cortejo fúnebre com doses equilibradas de dor, sentimento e violência, muita violência. O contraste é inevitável, ao ver uma garota de 11 anos jogada num inferno em vida e contemplar mais mortes do que seria saudável.

Aliás cabe um parêntese aqui, especialmente dirigido aos pais: Logan, ao contrário da classificação indicativa brasileira não é adequado para 16 anos. Tanto ele quanto Deadpool foram pensados e produzidos como obras 18+, e algum tapado daqui viu “filme baseado em HQ” (ou a Fox Film do Brasil mexeu uns pauzinhos) e reduziu a barra. No entanto é bom deixar claro, o filme é violento até dizer chega; o sangue jorra em litros na tela e há cenas de desmembramentos, decapitações e empalações, além de palavrões em profusão.

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O saldo final é uma versão com poderes (sutis) de Onde os Fracos Não Têm Vez dos irmãos Coen: brutal, sem alma e sanguinolento, mas ao mesmo crível e demasiadamente humano. Logan ainda tenta fazer o que é certo por conta de sua boa índole, mas nenhuma boa ação vem sem punição e ele, mais do que ninguém a está sentindo na pele há anos. Mas Xavier e Laura precisam dele, e o mutante fará mais uma vez (a primeira vez na tela da TV sem freios) aquilo que faz de melhor, e que não é nada bonito.

Conclusão

Logan não é nem de longe o melhor filme da história, mas é difícil classifica-lo apenas como um filme de super-heróis. A jornada que o personagem faz em busca de redenção e expiação por seus erros é comovente e realista, e não fossem as garras e fator (cambaleante) de cura a película poderia se passar muito bem por um drama adulto de pessoas tentando encontrar algum sentido no que fazem e na própria vida.

Mangold conseguiu recontar na tela uma HQ violenta, tensa e sem uma gota de esperança de uma maneira única, ainda que os eventos sejam completamente diferentes a sensação é similar, igualmente angustiante. Logan é o filme adulto que Wolverine sempre mereceu por tudo o que significa para a cultura pop em geral e é um réquiem para Hugh Jackman, que encerra sua participação na franquia X-Men com o que pode ser o melhor filme baseado em personagens de quadrinhos já produzido.

Cotação:

5/5 velhos Logan.

Fox Film do Brasil – Logan | Trailer Oficial 2 | Legendado HD

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Autor: Ronaldo Gogoni

Um cara normal até segunda ordem. Além do MeioBit dou meus pitacos eventuais como podcaster do #Scicast, no Portal Deviante.

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  • Estev� Domingues

    Sei que a HQ ja esta disponível pra todo mundo ler, ainda assim achei a resenha reveladora.

    De qualquer forma, obrigado R. Gogoni, curti o texto e o alerta sobre violencia no filme.

    Edit: fiz um comentario sobre spoilers e mesmo com a spoiler tag acabei spoilando mais ainda :/

    • Carlos Taylor

      Acho que todos que estão aqui lendo tem noção do que vai acontecer. Acho difícil alguém não muito nerd, geek etc. chegar a ler essa resenha. De qualquer jeito o trailer mostra cenas onde o senhor Logan está nas últimas, e da sensação de que algo ruim vai acontecer.
      E claro, não podia deixar de dar os parabéns ao Ronaldo Gogoni por esse texto, justamente por não ser algo escrito a “sangue frio” em que realmente nos passa uma expectativa de como vai ser o filme.

    • Julio da Gaita ✔

      brother se você não tivesse comentado, eu não teria percebido o “spoiler”, você foi avisar e avisou o spoiler pra quem não percebeu…ksoaksokas, ./

      • Estev� Domingues

        Depois que fui pensar nisso… vou editar la acho melhor.

  • Marcus

    Belo texto R. Gogoni…estava em dúvida se iria assistir, mas agora irei com certeza.

  • Luís Eduardo

    Muito bom. Um dos melhores textos do Gogoni. É meio pra baixo, também…

  • Ricardo Braga

    Acho que a “culpa” pela classificação indicativa de Deadpool e Logan é da Portaria nº 1.100, do Min. da Justiça que estabelece que a classificação em 18 anos se torna proibitiva em vez de indicativa. Assim, se os filmes recebem a indicação máxima, os cinemas têm a obrigação de impedir os menores, não cabendo mais aos pais decidirem:
    “Art. 19 Cabe aos pais ou responsáveis autorizar o acesso de suas crianças e/ou adolescentes a diversão ou espetáculo cuja classificação indicativa seja superior a faixa etária destes, porém inferior a 18 (dezoito) anos, desde que acompanhadas por eles ou terceiros expressamente autorizados.
    Por isso acredito que a classificação em “proibido para 18 anos” fica bem restrita, assim não há confusão pelo conflito aparente de normas com o art. 18.

    • gfg

      Sabe me dizer porque raios a classificação indicativa é de 2 em 2 anos? Algum pedagogo fez a média de de “amadurecimento” e ficou definido assim?

      • Burocratas e legalistas até onde eu sei. Que eu saiba não houve base técnica alguma para esses critérios de idade.

        • nayara

          Sim, existe uma base técnica e científica, dá uma pesquisada e vai encontrar. E ela é INDICATIVA porque maturidade varia caso a caso.

      • Ricardo Braga

        Boa pergunta!

      • celsico

        Pergunta pro Papa Gregório XIII

    • Maom

      Dane-se, eu vi instinto selvagem com uns 12 anos de idade na Globo e toquei uma, eu vi Seven com uns 13 anos e tô aí até hj. Matei só umas 4 ou 5 pessoas e apenas transei por lascívia e sem amor tantas vezes quanto pude e bem menos do que um padre ou pastor evangélico gostaria. Já meu bisavô com sei lá 5 anos de idade devia ajudar a mãe dele a coletar o sangue dos porcos que eram degolados na fazenda para fazer chouriço….
      Frescura sem fim esse negócio de censura. Passou dos 12, 13 anos qualquer um já tem malicia de encontrar oq quiser na net. Melhor que seja por meio de um filme com um porque de ver tanto sangue do que simplesmente assistir um “faces da morte” da vida ou o Datena.

  • Doomed

    A gente bate, mas também tem que saber elogiar: ótimo texto, Gogoni.

  • Diego

    Só de ver o trailer já me bateu uma angustia. O wolverine e o noturno são os meus personagens favoritos de x-men. Amo os dois param para conversar. Otima resenha, parabens!

  • Well Dias

    Se tivesse “zumbis” poderiam trocar o nome do filme para “The Last of Us”

    • Pensei a mesma coisa durante vários momentos do filme.

    • Minato Namikaze

      A cena final, dele na árvore. Repare no lugar do ferimento. Eu fiquei extasiado

  • Takao do Stranger Things

    E é melhor que BVS

    • ral_135

      Até o que deixo no vaso sanitário é melhor que BvS.

  • Antonio Azevedo

    Vi ontem o filme. Não tem classificação 6/5 Velhos Logans?
    Angustiante. Mas imperdível.
    E um ótimo contraponto à tendência cômica que Deadpool estimulou.

  • Samuel

    Passo

  • ral_135

    Ótimo texto, Gogoni.
    Conseguiu passar a angústia e a tristeza iminente que vão crescendo ao longo do filme.
    Quando o filme acabou, 80% das pessoas da sala continuaram sentadas olhanda para a tela, pensativas…um olhar perdido…

  • celsico

    Vou gostar desse filme sem nunca ter visto nenhum outro Volverine (nao sei nem escrever), nem nenhum outro de Super Heroi desde o Super Homem de 1977?

    • Zalla

      sim, é um filme bemmm diferente e totalmente independente, basta saber quem é o wolverine que vc já está pronto para assistir

  • Que bela resenha, Gogoni. Parabéns! Fazia tempo que eu não assistia um filme que, ao final, o público começou a bater palmas.
    Filmaço! E Patrick Stewart e Hugh Jackman entregaram atuações que estão entre as melhores de suas carreiras. Certamente, estabeleceram um novo patamar ´para filmes com heróis, ou, melhor dizendo, mostraram mais possibilidades para o gênero. Tranquilo que o Stewart poderia ser indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante.
    Enfim, eles expandiram as possibilidades no universo de adaptações de quadrinhos para o cinema.

  • Zalla

    Só o fato de ter finalmente visto um filme do Wolvie feito para adultos já valeu a pena…a menina é selvagem…muito bom o filme…vale o ingresso

  • O problema da censura: nos EUA é filme tem classificação R, ou seja, menores de 17 PODEM ver o filme, se forem acompanhados de um adulto responsável. Aqui no Brasil não temos nenhuma censura equivalente. Se fosse 18 anos, NINGUÉM abaixo dessa idade poderia ir ver o filme, mesmo se acompanhado dos pais ou responsável (e se tem cinema que deixa entrar, o cinema está fazendo vista grossa à lei). O que mais chega perto é mesmo a tal “Censura 16 anos”, por falta de meio termo. E, de verdade, na sessão que fui ver o filme tinham várias crianças, com pais obviamente obtusos à classificação e que devem ter ficados completamente incomodados com a quantidade de mutilações e palavrões expostos aos seus filhos. Até peitinho teve no filme XD

  • Miudo

    Vi o filme no sábado e até agora tô meio “incomodado”. É um filme fantástico e ao mesmo tempo muito triste, até pelo fim do elo entre os atores e personagens, que pra mim eram os ideais. Fortemente recomendado mesmo pra quem nunca leu uma comic sequer dos mutantes.

  • Ed. Blake

    Minha vontade ao sair do cinema foi de chegar na varanda e gritar: “P*TA QUE PARIU QUE FILMÃO DA P*RRA!”
    Sem mais.

  • Jorge Dondeo

    Parabéns FOX!

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