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Miyamoto, Satellaview e uma visão sobre o futuro

Ao falar sobre a chegada do Satellaview, Shigeru Miyamoto fez diversas previsões que se tornariam tendencia na indústria muitos anos depois

16/01/2024 às 8:57

Em 1995 os japoneses viram o lançamento de um promissor acessório para o Super Famicom, como era conhecido o Super Nintendo por lá. Chamado Satellaview, aquele aparelho era um modem que permitia ao usuário baixar jogos, revistas e outros tipos de mídia via satélite, algo inovador e que apesar de ter funcionado até 1999, poderia ter conquistado um público ainda maior.

Satellaview

Crédito: Reprodução/Jesmar/ Wikimedia Commons

Embora a St.GIGA, empresa que fornecia o sinal, afirme que em 1997 o serviço chegou a contar com mais de 100 mil assinantes, a Nintendo sempre o enxergou como um fracasso comercial e entre os maiores problemas enfrentados por aquela tecnologia estavam o alto custo e o fato de o Satellaview ter chegado às lojas quase simultaneamente a uma nova geração de consoles.

Ainda assim, quem adquiriu o acessório teve a oportunidade de jogar 114 títulos disponibilizados para ele, incluindo alguns exclusivos, como o BS F-Zero Grand Prix 2, The Legend of Zelda: Ancient Stone Tablets e Shigesato Itoi's No. 1 Bass Fishing - National Spring Tournament.

Contudo, do lado de cá do planeta o Satellaview foi visto apenas como uma curiosidade, um sonho de consumo que nunca seria lançado oficialmente. Além disso, como o conteúdo para ele era disponibilizado apenas por um período, as pessoas se deram conta de que aqueles jogos simplesmente se perderam e começou uma busca pelos memory packs que contivessem os dados distribuídos pela Nintendo. Desta forma, algum conteúdo pôde ser recuperado, chegando até mesmo a serem traduzidos, como no caso daquele The Legend of Zelda lançado para o Satellaview.

Mas e como o acessório era visto na época em que foi lançado? Pois talvez não exista ninguém melhor para falar sobre a expectativa que estava sendo gerada por ele, do que Shigeru Miyamoto. Em maio de 1995, a Satellaview Tsushin publicou uma entrevista com o lendário game designer e nela Shigsy especulou sobre como o aparelho poderia revolucionar a indústria. Mesmo admitindo que não estava muito envolvido com o seu desenvolvimento, ele mostrou-se empolgado:

“Como ainda estamos no começo, não há muitas coisas que possamos fazer imediatamente — embora tenhamos o Picross e, além disso, cerca de outros dois jogos planejados. Olhando mais longe, talvez possa haver algo virtual no Satellaview no futuro, com jogos que poderão ser jogados por várias pessoas ao mesmo tempo, ou compartilhando um espaço imaginário. Esse é o tipo de coisas que eu realmente gostaria de fazer.”

Miyamoto então afirmou que, naquele primeiro momento, era importante que a Nintendo garantisse uma transmissão confiável e que a empresa conseguisse criar jogos que se adequassem à plataforma. Porém, foi a sua visão sobre como o modelo de distribuição poderia abrir as portas para desenvolvedores menores o que mais chama a atenção.

“O Satellaview nos oferece a oportunidade de distribuir conteúdo gratuitamente e que de outra forma seria difícil de vender. Algo assim teria um custo alto se tentássemos vendê-lo no padrão de cartuchos atuais, mas se tivermos apenas que enviar os dados, a distribuição se tornaria muito mais viável. A questão realmente é quanto desse tipo de conteúdo podemos produzir daqui em diante.

Considere também uma situação em que um estudante traz um software, algo que não podemos vender por 8000 ienes (cerca de US$ 55 atualmente). Se o criador consentisse a sua distribuição, poderíamos, teoricamente, ter 100 mil pessoas jogando seu game. Há muitas oportunidades para esse tipo de coisas acontecerem com o Satellaview. Houve também alguns casos em que os desenvolvedores produziram jogos para o Super Famicom e que não teriam sido lucrativos para serem vendidos em cartuchos, mas eles queriam tanto que as pessoas jogassem seus jogos. Com suas permissões, poderíamos distribuir esse tipo de conteúdo também.”

Mario também deu as caras no Satellaview (Crédito: Reprodução/BS The Legend of Zelda Homepage)

Durante a conversa, o criador do Mario ainda citou outras vantagens do sistema de distribuição do acessório, como a facilidade de fazer alterações nos jogos conforme o feedback dos usuários; fugir da limitação imposta pelo tamanho dos cartuchos; e oferecer uma nova forma de distribuição para os consumidores, já que eles poderiam ter acesso a títulos sem um custo adicional para isso.

É importante notar que essa entrevista foi realizada há quase 30 anos e por mais que as ideias mencionadas não tenham surgido do próprio Shigeru Miyamoto, aqui temos uma pessoa falando sobre distribuição digital, jogos independentes, MMOs e até metaverso. Quer outro exemplo de como o game designer enxergava o que estava por vir? Que tal jogos atualizáveis?

“No futuro trabalharemos para produzir cartuchos compatíveis com o Satellaview,” afirmou. “Eles basicamente serão cartuchos normais do Super Famicom em que parte dos dados podem ser reescritos. Isso pode ter muitas aplicações interessantes.”

Para ilustrar seu comentário, Miyamoto citou um jogo de baseball, onde os dados dos atletas seriam atualizados anualmente e sem custo algum, inclusive com a possibilidade de passar esses dados para amigos. “Tentaremos construir uma base onde forneceremos os tipos de jogos que preencham as lacunas em que os clientes não estão totalmente satisfeitos com os jogos baseados em cartuchos,” disse.

The Legend of Zelda Ancient Stone Tablets (Crédito: Reprodução/BS The Legend of Zelda Homepage)

O irônico é pensar que mesmo em 1995 Shigeru Miyamoto já previsse várias coisas que se tornariam padrão na indústria muitos anos depois, aparentemente ele não teria sucesso em impor sua visão na empresa. Nesse aspecto online, a Nintendo por bastante tempo resistiu em seguir os passos dos seus concorrentes, quase sempre passando a sensação de chegar muito tarde à festa.

Quanto ao Satellaview, por mais que ele tenha sido um aparelho a frente do seu tempo, foi também uma grande uma aposta para a sua fabricante e visto dessa forma até mesmo por aquele que pode ser considerado a pessoa mais importante da Nintendo.

“Espero que quando os consumidores comprarem um Satellaview, não pensem nele como um hardware — mas sim como um cartucho vazio,” defendeu Miyamoto. “Eu não posso dizer neste momento por quantos anos o hardware continuará na sua forma atual, mas por enquanto, ele continuará recebendo mais e mais softwares. É um pouco como comprar uma sacola da sorte no início de março (riso). Se os consumidores puderem pensar nele como se tivessem comprado uma sacola da sorte por 18.000 ienes (cerca de US$ 122 atualmente), a Nintendo continuará criando conteúdo cada vez mais satisfatórios para essa sacola (risos).”

Você arriscaria?

Fonte: Time Extension

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