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Magnífico filme brasileiro da Leica deixa China Full Pistola

30 semanas atrás

A China é um país complicado. Eles vivem um regime baseado no marketismo-leninismo, uma espécie de Socialismo de Mercado onde há fartura econômica relativa (ou absoluta, se você for figurão do Partido) mas pouca liberdade política, censura estatal é constante e afeta toda empresa que queira trabalhar por lá, inclusive sites de buscas que precisam manter seus resultados livres de assuntos controversos, por isso dificilmente você lerá este artigo se estiver na China.

Em 1989 chegou ao auge na China um movimento coordenado entre universitários principalmente, mas que se espalhou para uma fração da população. As pessoas estavam protestando pelo que hoje no Brasil são vistas como coisa de comunista: direitos humanos básicos e liberdade de imprensa. Ironicamente o governo comunista não concordava muito com essa visão.

A ironia supracitada não acabou, o melhor mesmo é que a China estava enfrentando uma situação de desemprego, recessão, instabilidade econômica e desigualdade por causa das... reformas anticomunistas do começo dos anos 1980. A mudança para uma estrutura mais capitalista não tinha como ocorrer de forma rápida nem indolor, e a população cansou de esperar o bolo crescer pra ser dividido.

Foram protestos em mais de 400 cidades, Deng Xiaoping exigiu que o combate aos manifestantes fosse severo, afinal o Governo da China Comunista sabe o risco que uma revolução pode causar ao governo estabelecido.

O mundo ficou meio distante da maioria dos protestos, a China não era exatamente aberta, mas não conseguiram acobertar as manifestações na Praça Tianamen, em Pequim (eu tenho que usar Pequim, senão o cachorro passa a se chamar Beijinês e isso soa ridículo demais).

De 15 de Abril a 4 de Junho de 1989 manifestantes se reuniram na praça, chegando a aglomerações de 1 milhão de pessoas. Ao final o governo chinês acabou com as manifestações prendendo e executando professores, líderes estudantis e jornalistas. Isso discretamente, na praça em si foram 300 mil tropas que dispersaram a multidão na base da fala. Alguns relatos falam de mais de 10 mil mortos, no Massacre da Praça da Paz Celestial. (eu falei que o tema de hoje era ironia)

O massacre rendeu uma das imagens mais icônicas do Século XX: Um batalhão de tanques indo em direção à praça é parado por um único sujeito, não-agressivo, com toda a postura de que estava passando por ali. Ninguém sabe quem era o Tank Man, muito provavelmente ele foi preso, executado e a família recebeu a conta pra pagar a bala, como era praxe, mas seja lá qual tenha sido seu destino, seu gesto inspirou milhões de pessoas.

Como em 1989 ainda não era moda andar com um celular pra todo lado, há poucos registros da cena. O vídeo acima, um da ABC australiana e um da NBC.

Fotos? Só cinco fotografias foram feitas, inclusive a de Charlie Cole:

Ele fez a foto da sacada de um hotel, enquanto a polícia chinesa invadia o prédio. Ele escondeu o rolo de filme (pergunte a seus pais) na privada, colocou outro rolo já usado na câmera, quando a polícia chegou ele foi forçado a destruir os filmes que tinha em mais, foi preso e assinou uma confissão. Depois de alguns dias ele conseguiu recuperar o filme do banheiro, e o resto é História.

Esse é um dia comum na vida de um fotojornalista, profissionais em extinção que percorrem o mundo atrás de imagens que informem, comovam, denunciem, emocionem. São profissionais como Lee Miller, Dickey Chapelle, Mathew Brady, Margaret Bourke White, Robert Capa e o primeiro de todos, Roger Fenton.

Fotógrafos e correspondentes de guerra vão para a linha de frente, se arriscam para mostrar ao mundo o que ninguém quer que seja mostrado. Eles são o oposto daqueles jornais retardados que fecharam seus departamentos de fotografia e instruíram os jornalistas a usar seus celulares para documentar eventos.

A imagem do Tank Man é familiar a milhões de pessoas mas não na China. Os acontecimentos da Praça Tianamen não são ensinados nas escolas, não são encontrados em sites de buscas e mesmo termos como "tank man" são bloqueados. Como resultado os 250 milhões de millenials chineses basicamente ignoram a existência do Massacre, e a prosperidade econômica deixa todo mundo satisfeito, menos motivo ainda para revisitar o passado e questionar o governo que está ajudando todo mundo a montar sua startup.

A Leica, tradicionalíssimo fabricante de câmeras fundada em 1914 por Ernst Leitz faz parte da História do fotojornalismo, e sempre lembra disso em suas campanhas, incluindo as produzidas no Brasil pela F/Nazca Saatchi & Saatchi, como este "Toda Leica tem alma"

Só que não foi esse o vídeo problemático, o que irritou a China foi um muito mais bonito e bem-produzido, chamado A Caçada. Assista e se pergunte como podemos fazer comerciais assim e nosso cinema se resume a atores histéricos do segundo escalão da Globo.

A maior ironia é que antes mesmo das reações oficiais, a Leica foi atacada no Weibo, o Twitter chinês... pela população civil.

Milhares de comentários foram feitos xingando a empresa, dizendo que o filme era provocativo e ofensivo, vários pediam pra Leica sair da China, e a hashtag "Leica Insulta China" foi pros trending topics, antes de ser... censurada. O próprio termo "Leica" foi censurado de todas as plataformas de mídias sociais na China.

O vídeo original, já apagado foi postado dia 16 de Abril no twitter oficial da F/Nazca:

Teve 17 RTs e 39 likes.

Agora a maior de todas as ironias: Como filho feio não tem pai, a Leica diz que... o filme não foi autorizado. Isso mesmo, eles querem tirar da reta com a groselha de que uma agência brasileira, que trabalha com a marca desde 2012 do nada gastou centenas de milhares de dólares produzindo um filme sem autorização, e eles inocentes não tem culpa nenhuma.

A F/Nazca refutou dizendo que o filme foi produzido junto com o cliente, e que sendo uma agência com 25 anos de idade jamais arriscariam sua reputação criando produzindo e veiculando um trabalho sem a aprovação do cliente.

Resta saber quais as repercussões a longo prazo. Há gente apostando até num rompimento com a Huawei, que usa óptica da Leica em seus celulares topo de linha, e a China é um belo mercado para câmeras, microscópios, telescópios e outros equipamentos também da Leica. Um boicote oficial seria terrível, mas também é improvável, os chineses são espertos o bastante pra saber que isso traria mais atenção indesejada ao caso.

No final só há um grupo de vencedores nessa história: Os fotojornalistas, que ganharam uma bela homenagem.

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