Perfeitamente Normal — Fotografia autoral com sensibilidade

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Olha o tipo de notícia que tenho prazer em colocar aqui. O André Fachetti, leitor do MeioBit e que já contribuiu com um pequeno texto sobre a polêmica do sensor sujo da Nikon D600, tem uma carreira fotográfica em fotografia publicitária e se dedica (de maneira competente) na fotografia autoral. Aliás, é possível comprar essas imagens autorais no site do fotógrafo. Porém, o que motiva esse texto é um projeto muito bacana que está sendo desenvolvido por ele e que foi lançado neste mês. O Projeto Perfeitamente Normal tem por objetivo acompanhar pacientes que lutam contra o câncer e ser uma forma de vencer preconceitos e também de ajudar na auto estima destas pessoas. Segundo o release oficial de lançamento do projeto: “Perfeitamente Normal – O Projeto, é o início do trabalho fotográfico autoral com pacientes em tratamento de câncer, num confronto com estigmas, medos e preconceitos, numa lição a partir da superação, do debate e da aproximação. A pura realidade humana. Perfeitamente normal.”

O projeto foi desenvolvido no último ano e o resultado dos 10 primeiros fotografados  está instalada no mezanino do Hospital Evangélico de Cachoeiro de Itapemirim com 14 fotos e ficará aberta até o final de Novembro, sendo parte das atividades em apoio às campanhas Outubro Rosa e Novembro Azul, desenvolvidas em todo o mundo. Nada melhor do que encontrar fotógrafos que ainda utilizam a fotografia com responsabilidade social. Porém, ninguém melhor do que o próprio André Fachetti para explicar um pouco de como tudo isso começou e se desenvolveu. Veja abaixo a entrevista que ele forneceu ao MeioBit Fotografia.

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MeioBit — André, você está começando um trabalho autoral com pacientes que enfrentaram e enfrentam o câncer. Como surgiu essa ideia?

André Fachetti — Ainda antes de eu levar a fotografia a sério, sério mesmo, eu vi uma reportagem fotográfica do Marcelo Min, sobre pacientes em cuidados paliativos (http://www.fotogarrafa.com.br/2010/02/a-mulher-que-alimentava/). Eu vi e revi aquilo uma dezena de vezes. Nunca me esqueci. Entrando de cabeça na fotografia, e vindo do Direito como advogado e professor universitário, eu sabia e sentia que a minha fotografia, para me satisfazer, para me preencher, tinha que dialogar com o ser humano, diretamente. Eu comecei a viajar fotografando, e sentia a necessidade de ver as pessoas, ouví-las, e retratá-las.

Chegou um momento que eu decidi que minha fotografia tinha que sair detrás da mesa e do computador e ganhar volume, experiência, vida real. Minha região é um centro de referência no tratamento de câncer, eu fui ligando as coisas, conversando com as pessoas, lembrando daquela reportagem, pensando uma coisa e deixando de lado, tendo uma ideia e escrevendo algo… Surgiu o PERFEITAMENTE NORMAL.

MB — O tema é delicado e envolve muita sensibilidade. Como tem sido para você lidar com essa realidade?

André — A essência do projeto contamina o meu próprio contato com os fotografados: não há meias palavras. Há delicadeza, cuidado, tempo certo para as coisas, mas nós falamos da doença, encaramos de frente – e exatamente por isso passamos por cima dela e vamos no homem, na mulher, no jovem além da doença. Porque é um projeto cujo leitmotiv é o câncer, mas não é a história da doença ou de doentes que eu tenho em mãos: é a história de seres humanos perfeitamente normais.

MB — Pacientes com câncer passam por um momento decisivo na vida, onde muitos acabam reavaliando seus caminhos. Como tem sido o primeiro contato com os personagens de suas fotos?

André — Os pacientes chegam até mim encaminhados por médicos que confiaram na minha proposta, e também chegam por amigos que indicam, ou em encontros pela rua onde eu paro alguém e começo a conversar diretamente sobre o projeto.

Na hora das fotos, fazemos uma pequena entrevista e eu capturo uma frase, uma expressão que possa resumir o que será aquele momento dali pra frente. Em todos estes instantes vamos nos abrindo um ao outro. Não dá pra fazer um retrato de verdade – e um retrato num caso desses! – no automático, no frio, no direto. Um retrato é dialogado, é um jogo de concessões, de saber o que dar, o que pedir, o que receber, o que negar. Retrato tem uma definição maravilhosa do mestre Richard Avedon: “Um retrato é uma foto de alguém que sabe que está sendo fotografado, e o que ele faz com esse conhecimento torna-se tão parte do retrato quanto suas roupas e sua aparência. Ele está envolvido com o que está acontecendo e tem certo poder real sobre o resultado”.

Esse é o jogo incrível que acontece muito além de 3 speedlights, 2 softboxes e uma camera.

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“Foi através dessas fotos que eu tinha ânimo para conseguir viver, para continuar o meu tratamento (…) foi onde eu encontrei forças para ir pra frente, para querer sobreviver…” (Simone Pereira – participante do Projeto Perfeitamente Normal)

MB — O Outubro Rosa está a todo o vapor, e agora também temos o Novembro Azul. O Perfeitamente Normal também é uma ferramenta de conscientização para a prevenção?

André — É. Apesar de estar apenas no começo, já pode ser usado como mecanismo de conscientização. Mas eu descobri um papel tão grande quanto esse serviço “externo”, essa exposição que o projeto por completo tem: eu aprendi o papel do projeto na vida de cada um que passou por ele, de cada um que foi efetivamente fotografado. Eu não imaginei, no começo, como o projeto seria relevante, tanto quanto para quem o vê, como especialmente para quem se deixa fotografar. Histórias de redescoberta, de se enxergar após meses sem se olhar, depoimentos de resignificação… O projeto é um exercício também e especialmente individual.

Por outro lado, começo a ver que além da conscientização para o combate e prevenção ao câncer em todas as suas formas, o #PN também servirá como meio de desmitificar, desamedrontar, arrancar aqueles olhares de lado, preocupados, com pena ou com medo, tanto da sociedade que olha quanto do paciente que é olhado no dia a dia, na fila do banco, no trânsito, na escola, no hospital… A necessidade de reaprendermos a nos olhar e deixar olhar.

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Adilson

MB — A fotografia autoral passa por um bom momento no Brasil. Muitos fotógrafos apostando em trabalhos autorais. Porém, vejo pouca responsabilidade social nesta fotografia que está sendo produzida. Esse seria um caminho natural a ser perseguido pelo fotógrafo autoral?

Esse projeto tem um diálogo humano direto, as conexões com seu viés social são quase automáticas, e tudo isso é maravilhoso. Mas veja: quando eu faço os retratos, eu quero fazê-los primeiro porque mostro pessoas “comuns”, pessoas que cruzam conosco na rua todos os dias, podia ser você, ou meu vizinho — isso ainda antes de ser “o paciente em tratamento oncológico”.Eu busco “simplesmente” retratos, portraits. Eu quero mesmo é a beleza humana individual, única e visceral.  O que quero dizer é que o fotógrafo, o pintor, o músico, o artista em geral, não precisa necessariamente querer fazer algo que tenha alcance socialmente responsável. Na maioria das vezes isso brotará espontaneamente da obra criada, muitas vezes isso brotará da forma como a coletividade entendeu e adotou determinado projeto… Se deseja especificamente dar um recado, chamar a atenção, criar condições de que algo seja debatido? Perfeito. Mas o artista faz. E faz porque tem naturalmente “esta sensibilidade que é uma antena delicadíssima, captando pedaços de todas as dores do mundo, e que me fará morrer de dores que não são minhas.”pra citar Newton Braga, da minha terra (Cachoeiro de Itapemirim-ES), um dos maiores poetas do Brasil (poema: “Fraternidade”).

MB — as imagens encontradas no projeto são formadas por retratos em preto e branco com uma luz high key. Fale um pouco da parte técnica do projeto.

André — Houve, sim, um debate teórico e técnico sobre isso: o PB foi usado para evitar qualquer desvio de atenção: Milton Guran é muito prático ao dizer: “Se é verdade que a cor pode constituir informação valiosa, também é notório que ela apresenta inúmeras armadilhas, funcionando frequentemente como um fator evasivo e retórico na composição, diluindo a essência da mensagem (…)a comunicação pela cor é mais natural, mas também tende facilmente para o superficial e o mecânico” (Linguagem Fotográfica e Informação, p.20). Com o PB, o leitor se concentra na expressão, nas linhas, traços. Também é uma forma de driblar a falta de pré-produção das imagens, a surpresa de como as pessoas vão se apresentar, que tom de roupa usam, eventualmente maquiagem para as moças… Isso some, não me interessa esteticamente – e facilita. A composição em formato 1:1 também caminha assim: é das mais difíceis de compor porque não tem pontos de escape; é um retrato em close, então a coisa tem que fluir dentro de um espaço compacto – mas é aí que mora a beleza, porque quanto acontece, a atenção está toda onde deve estar.

O highkey — assim como todos os elementos de composição e estética — é uma linguagem a serviço da nossa mensagem: nesse caso, a própria expressão da luz que existe além da dor, da angústia…

A iluminação é simples, com 02 SB910 em 02 softboxes em 45º do fotografado, que produzem não só uma luz simples e suave, mas me traz catchlights que são janelas da alma de quem se põe diante da câmera naquele momento.

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Foi uma experiência incrível, motivadora, potencializadora e que me ajudou a criar estratégias de enfrentamento da realidade vivenciada. Obrigada André Fachetti pela oportunidade, e que esse projeto possa ajudar outras pessoas que estão passando ou que irão passar pela experiência do adoecer. Afinal, tudo isso é perfeitamente normal!” (Mytissa Grillo – participante do Projeto Perfeitamente Normal)

MB — Do ponto de vista artístico, quais são as influências que estão presentes nesse seu trabalho e como você as utilizou?

André — O retrato no formato que ganhou não nasceu do dia pra noite: além de todas as referências (conscientes e inconscientes!) dos últimos 03 ou 04 anos em que tenho me dedicado a estudar e aprender mais sobre fotografia e artes em geral, o período de pensamento no #PN envolveu a busca de grandes retratistas: eu me encantei pelo que o Martin Schoeller faz com sua iluminação e o que gera nos fotografados, eu me encantei pela intimidade com que a Brigitte Lacombe cria com seus retratados e como isso está evidente nas imagens, eu adoro como o Marcio Scavone admite, aceita e quer interagir com seu fotografado e o que extrai dele naturalmente, como o Renato Rocha Miranda descobre um retrato em meio metro quadrado dentro de um estúdio em fim de gravação… Essas pessoas tem um olho comigo no #PN.

MB — Quais os próximos desdobramentos do projeto? Ele vai continuar? Novas histórias serão contadas?

André — O Perfeitamente Normal ainda é “O PROJETO” porque está em pleno começo de desenvolvimento: a exposição que está ocorrendo em Cachoeiro de Itapemirim-ES (Hospital Evangélico de Cachoeiro de Itapemirim, aberta ao público, diariamente, no mezanino do hospital) funciona como um lançamento oficial de um projeto muito íntimo, muito delicado, mas que pode ganhar contornos enormes – sem perder a singeleza.

Fotografaremos pelos próximos 02 anos, onde houver alguém disposto a nos receber. E ao final, a ideia é editar um grande livro de retratos, fotografias de pessoas comuns (!) e a exposição com grandes imagens, itinerantes, rodando por escolas, hospitais – e por que não, museus e galerias.

Agora que começa a ganhar visibilidade, nós ganhamos confiança, referências, respeito, e isso nos permite mostrar que a coisa pode acontecer. Até por isso agradeço aos primeiros 10 fotografados do primeiro ano de projeto, e a todos que se envolveram de alguma forma nele. E à minha esposa que só abria uns sorrisos interessados quando eu começava a falar o que estava pensando, e que é a primeira apaixonada por isso tudo!

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Luis Soares

MB — Por fim, nos cursos de fotografia que ministro pelo Estado de São Paulo vejo muita gente preocupado com a parte técnica da fotografia e com o equipamento. A maioria nem conhece o termo Fotografia Autoral. O que fez o fotógrafo Andre Fachetti perseguir esse ideal?

André — Mais do que fazer uma linda fotografia, e ouvir elogios, eu quero fazer uma fotografia que me agrade, que me expresse, que me conte uma história — talvez a minha própria história, ou a história dos outros sob o meu olhar. Isso é totalmente autoral. Conhecer os mecanismos técnicos é importante? Sim. Trabalhar com bons equipamentos é bom? Ótimo! Então a gente pega a melhor caneta tinteiro do mundo e tem que começar a escrever nossos poemas; a gente tem que pegar o grafite mais incrível do planeta e rabscar nossos esboços. Tudo isso que queremos comprar e dominar é ferramenta: só tem sentido se for usado para um objetivo.

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Gostou do projeto? Você pode conferir o release completo com muitas fotos e dar um pulo na página do facebook.

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Autor: Gilson Lorenti

Geógrafo de formação e fotógrafo de coração, comecei a fotografar com 18 anos de idade (antes disso nunca tinha pegado uma câmera na mão). Depois de muito estudo veio a carreira profissional que passou por várias modalidades da fotografia até realmente descobrir o que gosto de fazer. Hoje me dedico ao ensino de fotografia, fotografia Fine Art e Books Fotográficos (gestante, moda, sensual). Tomando emprestado as famosas palavras de Ansel Adams "Quando as fotografias não forem mais suficientes, me contentarei com o silêncio".

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