Capitão Retrospecto, Amazon, Siri e a Falácia da Contingência

O vídeo que você gastou 3 minutos de sua vida assistindo é um lindo exemplo de um sistema dinâmico em equilíbrio. O objeto mal-embalado é pesado o suficiente para exercer uma força que desloca a caixa, ao mesmo tempo a esteira se movimenta, recolocando o objeto na posição de “disparo”, reiniciando o processo.

Se essa foi a última caixa em uma linha de distribuição durante a noite ficou horas até algum funcionário a descobrir. Isso seria suficiente para introduzir um atraso no processo que, em cascata faria com que seu tijolo (assumindo que conhecemos a loja em questão) chegue no dia marcado.

“Isso poderia ser evitado”

Como, Capitão Retrospecto? As variáveis para que algo assim aconteça são bem específicas. É perfeitamente possível prever que uma caixa no formato XYZ, carregando um objeto de Massa A e formato S, em uma esteira se movendo a n cm/s e a um ângulo de z graus entraria em “loop”, mas não é possível prever TODAS as variações em que isso aconteceria.

É muito comum ver gente apontando erros como óbvios DEPOIS que eles ocorrem, mas nem todo erro estúpido é estúpido. Descobriu-se por exemplo que é possível guardar um folder dentro do outro no IOS, apesar do sistema não permitir.

O truque é criar um folder E, enquanto a animação de criação estiver sendo executada (coisa de frações de segundo) arrastar o folder desejado para dentro do novo.

Sujeito que descobriu isso é antes de tudo um belo espírito de porco, no melhor sentido do termo. NINGUÉM em sã consciência se preocuparia em checar permissões de arquivo em um sistema mobile nesse exato momento.

Plano de contingência tem limite, ou paraquedistas não saltariam só com um reserva. Um avião de 4 motores aumenta bem mais de 4 vezes o número de possíveis pontos de falha, a um ponto que a segurança ganha com redundância deixa de ser vantajoso.

Não importa o quanto você se prepare, nunca conseguirá prever todas as situações possíveis, que dirá as impossíveis. Já trabalhei com um Datacenter com uptime 99,999% em contrato. Custava uma baba. Um belo dia ficamos 5 horas fora do ar. Os TRÊS backbones, de três fornecedores diferentes caíram ao mesmo tempo. Sobrou pra hospedagem entubar a multa, mas que foi compreensível isso foi.

É essencial que planos de contingência não influenciem na funcionalidade dos projetos. Carros de auto-escola têm um freio do lado do passageiro, carros comuns não. A POSSIBILIDADE de benefício não é suficiente para se sobrepor à POSSIBILIDADE de dano.

Aí eu pergunto: Qual o melhor: Um celular com reconhecimento de voz que só aceite o comando “ligue pra casa” vindo de você ou um que aceite o comando de um estranho? A possibilidade de mau uso pesa mais ou menos do que o eventual uso em uma emergência?

O mundo não é preto e branco, nuances existem nas coisas mais simples, até em design de interfaces.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz e Calcinhas no Espaço.

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  • Ótimo post

    Tem um termo que eu uso sempre para este tipo de situação : Engenheiro de obra pronta.

    • Daniel Almeida

      Um termo bastante usado por sinal.

  • Daniel Almeida

    Já me questionaram o que acontece se uma plataforma de petróleo for atingida por um avião. “Ela afunda”, eu disse, “ou você quer que coloque uma bateria antiaérea a bordo?”.

    Pouco depois do 11/09 fiz uma visita técnica a Angra II e a pergunta mais óbvia foi feita. O engenheiro responsável disse que nem um 747 penetraria nos 7m de concreto e aço da parede do reator, mas ela não esta lá para impedir uma colisão desse tipo, é uma feliz consequência.

    No entanto em projetos que lidam com usuário é comum dizer “ah, ninguém faria isso”. Um engenheiro com quem tive aula tem o lema “você não tem o direito de duvidar da incapacidade das pessoas”. O cara cortar o galho com ele sentado em cima acontece. Por outro lado, é através de erros e mau uso que se aperfeiçoam projetos e normas, especialmente as de segurança.

    • A usina de Fukushima é o melhor exemplo. Mesmo tendo sido acusada de ser capenga e sucateada, ela em si atendia a todos os padrões de segurança. O que não dá para prever é um acesso de raiva da mãe natureza, que manda um maremoto e um tsunami na cabeça deles.

      • Por seguirem as recomendações de segurança não houve nenhuma morte direta. Do ponto de vista prático uma usina nuclear no Japão depois de sofrer com uma Tsunami é menos perigosa do que um dispositivo médico com um pouco de Césio 137 aqui no Brasil.

      • Anônimo

        E não vazou sequer um miligrama de material nuclear. Exceto talvez um pouco de radiação, mas muito menos do que uma maquina de raio X solta em um ano. Prova que o projeto mesmo assim era bem feito.
        O que matou os dois funcionarios foi o terremoto, provavelmente concreto caiu na cabeça. Claro, eles estavam em uma usina nuclear, então devem ter morrido por radiação.

  • Anônimo

    Ok ok, não pensei nesse ligue para casa do Siri!!

    Duvida: Ele faz alguma operação financeira? Se sim, tem como desativar?

    E por falar em “recursos” que podem ser usados contra o usuário, acho que o faceunlock do ICS cai no mesmo problema. Nesse caso pelo menos existe um aviso que não é um recurso seguro por parte do Google na hora de cadastrar o padrão.

    Acabei de desativar a leitura de novas mensagens automaticamente aqui, imagina se vem algo constrangedor. Me sinto até burro por não ter pensado nisso antes.

  • Denis Paranhos

    Que atire a primeira pedra quem nunca escreveu um programa que no fim das contas fazia exatamente o que o vídeo acima mostra…

  • Sobre a hospedagem… Não sei nos outros países mas aqui no Brasil nas partes ‘hardcore’ das redes não há como haver três contingências (e em alguns pontos nem duas). Mas na prática é melhor do que ter um link só…

  • Anônimo

    Esse problema com as esteiras jamais aconteceria na submarino. O tijolo teria peso suficiente para segurar a caixa.

    No mais é isso mesmo. Algumas coisas não são previstas e somente após o problema ou desgraça é que são corrigidas, a fórmula 1 é um bom exemplo disso.

  • Anônimo

    Isso que ocorreu com a caixa é semelhante ao que ocorre no problema da parada, nunca dá para garantir que o programa vai terminar em todas a situações

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