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Marte: entenda o que a Curiosity descobriu. (spoiler: não foi vida)

A NASA fez o anúncio de uma descoberta em Marte. Não, não eram aliens, mas a real e bem-vinda informação de que as chances de NÃO haver vida em Marte diminuíram um pouco.

2 anos atrás

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Em CSI e todos os seriados derivados os personagens vivem em um mundo maravilhoso onde todas as amostras são perfeitas: recolhem UM fio de cabelo e é sempre do criminoso, e todos os homicídios ocorrem em recintos imaculadamente limpos e desinfetados para que não haja contaminação das 3.489.349 pessoas que estiveram ali antes. Na vida real, qualquer local habitado por humanos tem mais amostras de DNA que a gaveta de lingerie da Lindsay Lohan. Mais ainda: essas amostras se degradam.

DNA tem uma meia-vida de 521 anos, o que significa que a cada 521 anos metade da molécula se degrada. Sim, sem Jurassic Park pra você, lamento.

Na verdade tudo se degrada, menos a Bruna Lombardi. Com o tempo, e em condições ruins, mesmo moléculas simples são destruídas, e há poucos lugares do Sistema Solar piores do que Marte para degradar moléculas, por isso a descoberta da Curiosity é importante. O robozinho está fazendo um trabalho de CSI e está conseguindo encontrar coisas interessantes em um planeta morto bombardeado por radiação ionizante destruidora de moléculas.

Vamos então a uma pequena série de perguntas e respostas pra entender tudo que foi achado.

1 — A Curiosity achou matéria orgânica em Marte?

Não, querido jornaleiro, a Curiosity não acho matéria orgânica nem “indícios de vida”. Ela achou MOLÉCULAS ORGÂNICAS, e se os jornaleiros não tivessem matado aula de química pra ficar fumando cigarrinho de artista atrás da cantina, saberiam que moléculas orgânicas são apenas compostos de carbono, podendo ou não ser produzidos por metabolismo de seres vivos. No paper é usado o termo “matéria orgânica” mas não se traduz no sentido leigo. Colocar isso na manchete é puro clickbait.

O achado, que não foi o primeiro, ampliou o leque de compostos orgânicos encontrados em Marte, a importância é que você pode ter compostos orgânicos sem ter vida, mas não tem vida sem compostos orgânicos. Ao confirmar esses compostos a Curiosity não comprovou que HOUVE vida em Marte, mas que os componentes pra isso existiam. Isso é muito importante.

Basicamente, é como quando a gente era adolescente e resolvia fazer uma Festa Americana (pergunte a seus avós). A gente ia pra cozinha, fuçava o armário. SE houvesse Simba, Baré-Cola e Isoporitos na despensa, a festa poderia acontecer. Ou não, se os pais não topassem ir dormir cedo. Mas sem os componentes básicos, as chances da festa existir caíam a zero, ainda mais com as meninas escaldadas que não topavam mais levar belisquetes pros esfomeados.

2 — Quais moléculas ela achou?

Curiosamente isso não consta nem no material da NASA, só fuçando no paper original a gente acha.

Foram encontradas amostras de:

1 – Tiofeno - C4H4S - um composto aromático de enxofre usado na síntese de defensivos agrícolas e remédios.

2 – 2 e 3-metiltiofeno - C5H7S - um composto responsável entre outras coisas por parte do aroma do café, e que custa R$ 10 mil o kg.

3 – Metanotiol - CH4S - a gente produz esse composto metabolizando aspargos, é também um dos responsáveis pelo cheiro de repolho podre e o aroma característico de… err… flatulência.


SchellHasFallen — Titans Toot!

4 – Dimetilsulfureto - C2H6S - na Terra é metabolizado por bactérias, outro daqueles compostos fedorentos que indicam que algo não está bem e não é uma boa consumir aquele alimento.

3 — Essa descoberta é inédita?

Sim e não. Vários resultados das duas sondas Viking que pousaram em Marte no começo dos anos 80 foram reavaliados.

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Resultados antes inconclusivos e com suspeita de contaminação à luz do conhecimento atual foram confirmados como tendo identificado percloratos e compostos orgânicos. O que é inédito são os compostos em si, e a percepção de que eles são bem comuns, afinal estamos falando de material que ficou exposto por 3,5 bilhões de anos, para chegar no estado atual devem ter se decomposto de compostos bem mais complexos.

4 — Então alguma coisa viva produziu essas moléculas?

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Talvez. Mas também talvez não. Há 3 formas de essas moléculas terem ido parar em Marte, 4 se contar SEDEX extraviado.

A primeira e mais atraente seria através de metabolismo de antigas formas de vida. Essas e outras moléculas orgânicas seriam os últimos remanescentes de criaturas que bilhões de anos atrás vagavam pela superfície de Marte, um planeta fadado a nunca se desenvolver. Por um breve período de alguns bilhões de anos a Vida tentou achar um caminho, mas não conseguiu. Com o tempo toda a maravilhosa bioquímica foi se degradando, até deixar apenas os compostos básicos que estamos encontrando por aqui.

A segunda hipótese é bem sem-graça. Esses compostos teriam sido levados a Marte por meteoros. Essa “polinização cruzada” por mais improvável que seja, com o tempo acaba acontecendo, por isso temos meteoros na Terra vindos de Marte, e provavelmente acharemos pedras terrestres por lá. Como compostos orgânicos são comumente identificados em asteróides, não é irreal imaginar que após alguns bilhões de anos Marte esteja salpicado desse tipo de material.

A terceira hipótese é que esses compostos são fruto de reações químicas naturais e não-biológicas. Isso é perfeitamente viável, com tempo e material a Natureza produz do nada estruturas lindamente complexas, vide a Luiza Brunet. No clássico Experimento Urey-Miller, Harold Urey e Stanley Miller criaram uma réplica da atmosfera primordial da Terra, com água, metano, amônia e hidrogênio. Aquecendo a mistura e expondo-a a descargas elétricas, em uma semana eles haviam produzido 11 dos 20 aminoácidos que compõe o DNA.

Eles criaram os blocos básicos da Vida, em UMA SEMANA. Com bilhões de anos para brincar, é mais que certo que reações naturais produzam moléculas simples, mais rápido do que são igualmente destruídas. O que nos leva à segunda grande descoberta da Curiosity:

5 — Qual a segunda grande descoberta da Curiosity?

Ainda bem que você perguntou. Uma das grandes descobertas em Marte foi a existência de metano, mas nem foi descoberto agora. Isso é importante pois metano PODE ser produzido por processos biológicos e é uma molécula de vida curta, então o metano produzido por eventuais marcianos ancestrais há muito teria sido destruído.

A presença de metano na atmosfera marciana indica que ele está sendo criado em algum lugar, pois logo essas moléculas de CH4 vão se encontrar com hidroxilas (OH) ou cloro (2) e serão convertidas em outros compostos.

No caso temos a reação:

CH4  +  Cl2 → CH3Cl  +  HCl

Catalisada por luz ultravioleta, a reação transforma metano e cloro em clorometano e ácido clorídrico.

Já a reação com hidroxilas produz metila e água, sendo que esses são só os primeiros passos das reações, importante é que o metano foi pra vala e não tem como ser detectado pois não existe mais.

CH4 + OH → H2O + CH3

Exceto que não só ele está sendo detectado, como há uma variação sazonal. Cinco anos acompanhando as medições da Curiosity produziram resultados inequívocos:

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Claro que de 0,2 pra 0,6 partes por bilhão não é exatamente metano num nível alemão em fim de Kerb, mas ainda assim é gás a rodo. O artigo dos cientistas propõe pelo menos 7 possibilidades de geração inorgânica desse metano, fora a produção por bactérias no solo, mas o grande ponto é a sazonalidade.

A quantidade de metano na atmosfera marciana mais que dobra durante o verão, e cai horrores durante o inverno. Meteoros, apaixonados ou não, não seriam influenciados pelo clima. O metano em si também não, o inverno marciano não é frio o suficiente para congelá-lo.

A explicação seria a temperatura afetar os processos de geração e, para complicar a vida dos jornaleiros, isso NÃO implica em vida: tanto pessoas quanto bactérias quanto reações químicas simples são afetadas por temperatura.

Entenderam o processo? Essa descoberta não aumenta a possibilidade de haver vida em Marte, mas diminui as chances de não haver.

Estamos comendo pelas beiradas, mas provavelmente só teremos respostas verdadeiramente definitivas quando os robôs derem lugar a humanos, trabalhando 100 vezes mais rápido, tomando decisões, usando de conhecimento e expertise que nenhuma máquina tem. Infelizmente isso é um sonho ainda da ficção científica, humanos em Marte é algo reservado para o futuro distante, o que em nosso tempo de gratificação imediata significa 2030, se tanto.

6 — Então há ou não há vida em Marte?

Reza a lenda que o magnata William Randolph Hearst, que serviu de inspiração para o filme Cidadão Kane mandou um telegrama para o astrônomo Percival Lowell:

“Há vida em Marte? Responda com 1.000 palavras, pré-pago”

Lowell, dizem, ficou sem saber o que responder até que notou o “pré-pago”. Ele então mandou de volta 500 vezes o texto “ninguém sabe”.

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1 - Organic matter preserved in 3-billion-year-old mudstones at Gale crater, Mars

2 - Background levels of methane in Mars’ atmosphere show strong seasonal variations

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