Resenha: Demolidor. Pode ver sem medo!

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A única parte chata dos filmes da Marvel, e de super-heróis em geral é que só dão espaço pro pessoal de primeiro escalão. É economicamente inviável por exemplo fazer um longa do Quarteto Futuro, ou uma história solo da Kitty Pride. Personagens mais pé no chão, por sua vez não funcionam na tela grande, não há espetáculo, não há show. Mas na telinha eles podem ser excelentes.

O problema: a Marvel não tem tido muito sucesso na TV. Agentes da SHIELD é a exceção, demorou pra engrenar mas hoje em dia é uma história de espionagem com supers digna de qualquer coleção encadernada de capa dura. Já a DC chuta bundas, seja nas últimas temporadas de Smallville, seja em Gotham, Flash, Arrow e em breve Atom.

Agora a Marvel resolveu consertar essa falha. Testou o formato com Agente Carter, que ficou excelente e então colocou as fichas na Netflix. Apostando no modelo de distribuição online, vão produzir cinco séries: Jessica Jones, Punho de Ferro, Luke Cage, Defensores, unificando tudo e, a de estréia, Demolidor.

Matt Murdock chega chutando bundas, se você está sem paciência pra histórias de origem (thanks, Spider-Man) a Marvel também está. Não tem muita explicação, a série já começa com o acidente onde um caminhão com material radioativo bate e contamina o jovem Murdock, um rato e quatro tartarugas. Há flashbacks mas eles efetivamente avançam a história, não é Arrow e aquela maldita ilha.

Daí o Demolidor já aparece batendo em caras maus, se bem que como ainda não está usando o uniforme clássico, e em começo de carreira, Murdock faz mais a escola Kick-Ass / Daniel LaRusso de deixar os punhos e pés dos inimigos doloridos.

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Não há narração, não há dialogo expositório, se você não conhecesse o personagem, vai aprendendo aos poucos que Matt Murdock ficou cego quando criança mas a substância radioativa deixou seus sentidos remanescentes super-aguçados, ele é capaz de saber se alguém está mentindo ouvindo os batimentos cardíacos, e tem um sentido de radar igual ao dos morcegos, já que Stan Lee não sabia o que era um sonar em 1964.

Os personagens conhecidos estão todos lá, inclusive Karen Page e o bom e velho Tucão, mas você não precisa ter conhecimento prévio de nada.

O Universo

Matt Murdock nasceu, cresceu e vive na Cozinha do Inferno, uma região em NY originalmente ocupada por irlandeses, e era um buraco. Na época irlandeses tinham fama de bêbados vagabundos e encrenqueiros, havia um preconceito enorme contra eles.

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Na fase clássica do Demolidor, quando Frank Miller assumiu o título foi dado bastante destaque à vizinhança, que ainda era uma quebrada da pior espécie, mas hoje em dia a região foi renovada, a Cozinha do Inferno se tornou um bairro simpático, cheio de barzinhos hipster. Como encaixar a decadência que o Demolidor precisa em uma região tão pra cima?

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Exato. A Cozinha do Inferno foi uma das áreas mais afetadas com a invasão Chitauri mostrada em Vingadores. Isso criou oportunidade para muito dinheiro ser movimentado na construção civil, e com isso sindicatos, empresas corruptas, propinodutos, mensalões, aqueles esquemas que estamos acostumados.

Os Supers

Por enquanto não há nenhum, mas inevitavelmente irão aparecer. Jessica Jones tem superpoderes e fará parte do mini-verso dos Defensores, Luke Cage idem. Rosario Dawson aliás faz Claire, que será namorada de Cage, e é personagem fixa em Demolidor.

Os vilões provavelmente ficarão limitados aos humanos, não acho que Ultron ou o Dr Octopus vão aparecer na série. Tudo bem, o Rei e o Mercenário já darão trabalho pro Homem Sem Medo.

As Lutas

Murdock é filho de boxeador, se tornou um exímio lutador de rua e isso é demonstrado na excelente coreografia. As lutas são doídas, sofridas. Ele bate muito e apanha muito, sangra e cambaleia.  

Não é uma dança como a Viúva Negra, não é uma demonstração de um atleta exímio como as lutas do Capitão América. São lutas pela sobrevivência, Murdock bate pra doer. Em uma cena do 2º episódio ele finaliza um oponente com uma voadora e se estabaca no chão. Steve Rogers jamais faria isso.

O que falta?

É completamente injusto achar que vão enfiar 51 anos de histórias em uma série de 13 episódios, mas em um mundo ideal teríamos integração com a SHIELD, Deadpool e o nome que ninguém fala mas está entalado, ELEKTRA.

Também é uma pena que com o cachê atual da Scarlett Johansson, dificilmente ela vá aparecer em uma ponta…

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Os Coadjuvantes

Foggy Nelson está excelente, não é um ajudante, é o sócio de Murdock, ambos são jovens advogados montando seu primeiro escritório, a dinâmica entre eles é excelente. Karen page, a cliente do primeiro caso da dupla e que mais tarde se tornará atriz também funciona muito bem. Ben Uirch passa o tempo todo falando mal da Internet, vai cobrir notícias com um bloquinho e no final tem o que merece: vira blogueiro.

Tucão basicamente apanha toda hora que aparece, com direito a uma última cena linda, se por linda você entender ele se ferrar de novo.

Há Ninjas?

Sim, há ninjas, tudo fica melhor com ninjas.

O Rei

Eu confesso que sou biatch do Michael Clarke Duncan, mas bati palmas de pé para a versão atual do Rei. Vincent D’Onofrio consegue tornar um personagem mau feito o Pica-Pau humano, complexo e… honesto. Ele realmente ama Nova York, o problema é que os métodos que usa pra tornar a cidade um lugar melhor não são os melhores.

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Ayelet Zurer, que fez a mãe de Kal-El no Homem de Aço é Vanessa, futura esposa do Rei e meninos, que coroa. Mesmo se eu fosse cristão continuaria achando que ela foi a melhor coisa que já veio de Israel.

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Referências e Ovos de Páscoa

Você não precisa de nenhum conhecimento do Universo Marvel para assistir Demolidor. Nada, mas os fãs vão reconhecer referências a eventos como a Invasão Chitauri, Thor, Tony Stark, nomes como Roxxon, A Mão, os Virtuosos, Inumanos, Elektra, etc, etc, etc.

Por exemplo: a luta final de Jack Murdock foi com Carl Creel, mais conhecido como o vilão de 4º escalão Homem-Absorvente. Outra: Matt Murdock passou um tempo no orfanato Sta Agnes. O mesmo onde ficou… Skye, de Agentes da SHIELD.

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Onde estão os outros heróis?

Ai meu saco. Toda vez a mesma história. Querido chato que nunca leu quadrinhos: quando algo acontece em uma história de um personagem e outros não aparecem pra ajudar, estão ocupados com alguma outra missão. De resto Thor é praticamente um Deus, tem mais o que fazer do que correr atrás do Tucão. Aceita que dói menos.

Tem Stan Lee?

Tem.

Qual a maior referência gibizística?

Bem, o Rei usa um colete criado por Melvin Potter, que será o vilão Gladiador. Murdock vai atrás de Potter, e na oficina do armeiro entre outras peças algo que absolutamente não se esperava achar numa série “séria”: parte da armadura do Metalóide.

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Isso mesmo, um dos vilões mais ridículos da Marvel.

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Felizmente foi só uma piada e ninguém levará adiante essa possibilidade.

É pra crianças?

Não, definitivamente não. Embora discuta os mesmos temas do gibi, a versão em vídeo acaba muito mais violenta. Por ser na Netflix e não cair na mão de censores de emissoras, há mais liberdade, as lutas são muito mais doídas longas e sujas do que nas versões sanitizadas dos seriados da NBC. Demolidor mostra o óbvio: bater nos outros na rua não é algo bonito ou glamouroso.

Estranhamente há pouco sexo e nudez na série, uma rara exceção é uma cena onde a maaaaaaravilhosa Karen Page troca de roupa na frente de Murdock.

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Antes que você fique com peninha, lembro que o Murdock é cego mas o ator enxerga muito bem.

A quem devemos agradecer?

Um nome: Frank Miller. Nos Anos 80 ele criou toda a mitologia atual do Demolidor, a maior parte dos personagens coadjuvantes, Elektra e deu o tom usado na versão atual. Infelizmente Miller anda politicamente incorreto demais para os liberais de Hollywood, então fingem que ele não existiu, exceto na hora de usar todas as idéias do cara, até o capuz de pano da fase inicial.

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Temos Uniforme?

Temos sim, e dá pra ver bastante, não é aquela coisa de história de origem onde o sujeito só veste o uniforme na última cena, ou simplesmente sacaneiam como o Rino no último filme do Aranha.

O Melhor Momento

A luta no corredor. É linda, linda.

http://www.youtube.com/watch?v=7knz_uh6eBwPink Panter71 — Daredevil episode 2 hallway fight scene

O trailer oficial

Aqui:

Marvel – Demolidor – Trailer legendado – Netflix [HD]

Onde assistir:

Na Netflix, uai.

Quando passa?

Em que Século você vive, vovô?

Conclusão

Houve quem reclamasse do pacote de séries que a Netflix acordou coma a Marvel. Se desse errado muita coisa legal seria estragada. A própria Agentes da SHIELD demorou pra engrenar, um pacote fechado de 13 episódios poderia ser bem prejudicial à ambição de dominar o mercado televisivo, e convenhamos a Netflix não tem experiência de super-heróis.

Pois bem: a parceria com a Marvel foi excelente, resultou em uma série extremamente fiel ao material original SEM cair na simples cópia/versão, o Demolidor não é um coadjuvante mesmo em um mundo de supers, e é cinza sem ser chato e dramático.

Funciona assim: gente que lê gibis do Demolidor desde nos Anos 80 e está careca de saber todas as histórias viu e adorou a série. Quem não conhece nada da mitologia no mínimo vai adorar.

Quanto à Netflix, que ainda tem que entregar Defensores, Luke Cage, Punho de Ferro e Jessica Jones, só tenho uma coisa a dizer:

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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