iPad 3–Mesmo Hype, mesma encheção de saco
dica: não é um Playbook
O estado da mídia de tecnologia –e isso é mundial, não falo de Brasil- é preocupante. Há um desespero por novidade que se Steve Jobs anunciasse a cura do câncer (too soon?) e não encerrasse a apresentação com um One More Thing, teria colunista dizendo que a Apple foi fraca e se restringiu a um único lançamento.
Não sei se a empresa está perdendo a mão nos vazamentos ou o jornalismo está ficando melhor, mas vazou bastante coisa do iPad 3, o suposto (primeiro uso correto do termo em MESES, aliás) lançamento que será feito amanhã em um evento da Apple.
Juntando vazamento com especulação, os blogs e sites de notícias fizeram a festa, com os resultados patéticos de sempre. Tem gente dizendo que o iPad 3 com 2048 x 1536 de resolução não atinge os 300dpi da Retina Display (o que é verdade) mas tratam como se fosse um FAIL absurdo. Pelo visto o mercado está cheio de tablets xing-ling com essa resolução e eu não estou sabendo.
iBooks: Uma nova plataforma, um novo formato
Você nem bem se acostumou aos novos formatos do livro digital e já chegou mais um, o iBooks. Não poderia vir de ninguém menos do que da Apple, aquela que adora ignorar os formatos padrão e criar suas próprias coisas, além de decidir quando algo vai ser extinto – a exemplo de disquetes, CDs, DVDs, ZIPs, entre outros.
Todos estávamos acostumados a pensar que um livro digital teria que ser em PDF. Mas, fora na tela do computador, ele praticamente não tem uso. É uma porcaria ler um PDF em um eReader, smartphone e até em um tablet. Aí surgiu o ePub, um formato aberto baseado em HTML e CSS cujas especificações são decididas por grandes empresas. Logo ele se tornou o formato padrão, usado por quase todos – Apple inclusa –, menos a teimosinha da Amazon, que insistiu no Mobi, um formato bem mais pobre.
Bem, a Amazon usa o Mobi, mas estava tudo bem com o ePub, já que a Apple o utilizava, e isso significava um bom futuro, mesmo com a empresa de Jobs não ligando muito para eBooks. Daí, resolveram inventar. Surgiu o ePub layout fixo, que só poderia ser lido no aplicativo iBooks da Apple. Opa.
Daí, ontem, em um grande evento no museu Guggenheim em Nova Iorque, a Apple resolveu que era hora de “revolucionar a educação”. Não revolucionou exatamente, mas deu o start para que novas coisas surjam. Mas está tudo bem? Quais são as implicações nessa sugestão de modelo da Apple? Há mais erros ou acertos? Vamos dar uma olhada.
Tempestade num copo d’água: um Belo Monte de falácias?
Uma ONG convenceu famosos a lerem um teleprompter para compor um belo vídeo (se puderem, assistam-no em full HD) contra a construção da usina hidrelétrica “Belo Monte” na Bacia do Rio Xingu, atual estado do Pará.
O conteúdo do vídeo é interessante: ele convoca todos os espectadores a arranjarem mais dez pessoas para divulgar a preocupação sobre a origem da eletricidade utilizada para recarregar a preciosa bateria dos gadgets importados, além das belas imagens de uma atriz de telenovelas aborrescentes fumando e outra bela loura fingindo que vai tirar a roupa em protesto contra os prováveis impactos ambientais naquela remota região.
O tio Laguna imagina que tais ‘personalidades de mídia’ devem ter estudado anos sobre demanda de energia elétrica na Região Norte do Brasil. Especialistas renomados no assunto, provavelmente: parece ser fácil protestar contra a construção de uma hidrelétrica num belo curta metragem quando, em casa, se toma banho de ducha quentinha (bem instalada, espero) e no calor é só ligar o aparelho de ar condicionado novinho… Certos estudantes universitários das Ciências Humanas que o digam.
Esses famosos doutores globais em demanda de energia elétrica tocaram em pontos interessantes e o tio Laguna gostaria de falar com vocês sobre alguns deles:
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Capitão Retrospecto, Amazon, Siri e a Falácia da Contingência
O vídeo que você gastou 3 minutos de sua vida assistindo é um lindo exemplo de um sistema dinâmico em equilíbrio. O objeto mal-embalado é pesado o suficiente para exercer uma força que desloca a caixa, ao mesmo tempo a esteira se movimenta, recolocando o objeto na posição de “disparo”, reiniciando o processo.
Se essa foi a última caixa em uma linha de distribuição durante a noite ficou horas até algum funcionário a descobrir. Isso seria suficiente para introduzir um atraso no processo que, em cascata faria com que seu tijolo (assumindo que conhecemos a loja em questão) chegue no dia marcado.
“Isso poderia ser evitado”
Como, Capitão Retrospecto? As variáveis para que algo assim aconteça são bem específicas. É perfeitamente possível prever que uma caixa no formato XYZ, carregando um objeto de Massa A e formato S, em uma esteira se movendo a n cm/s e a um ângulo de z graus entraria em “loop”, mas não é possível prever TODAS as variações em que isso aconteceria.
É muito comum ver gente apontando erros como óbvios DEPOIS que eles ocorrem, mas nem todo erro estúpido é estúpido. Descobriu-se por exemplo que é possível guardar um folder dentro do outro no IOS, apesar do sistema não permitir.
O truque é criar um folder E, enquanto a animação de criação estiver sendo executada (coisa de frações de segundo) arrastar o folder desejado para dentro do novo.
Sujeito que descobriu isso é antes de tudo um belo espírito de porco, no melhor sentido do termo. NINGUÉM em sã consciência se preocuparia em checar permissões de arquivo em um sistema mobile nesse exato momento.
Plano de contingência tem limite, ou paraquedistas não saltariam só com um reserva. Um avião de 4 motores aumenta bem mais de 4 vezes o número de possíveis pontos de falha, a um ponto que a segurança ganha com redundância deixa de ser vantajoso.
Não importa o quanto você se prepare, nunca conseguirá prever todas as situações possíveis, que dirá as impossíveis. Já trabalhei com um Datacenter com uptime 99,999% em contrato. Custava uma baba. Um belo dia ficamos 5 horas fora do ar. Os TRÊS backbones, de três fornecedores diferentes caíram ao mesmo tempo. Sobrou pra hospedagem entubar a multa, mas que foi compreensível isso foi.
É essencial que planos de contingência não influenciem na funcionalidade dos projetos. Carros de auto-escola têm um freio do lado do passageiro, carros comuns não. A POSSIBILIDADE de benefício não é suficiente para se sobrepor à POSSIBILIDADE de dano.
Aí eu pergunto: Qual o melhor: Um celular com reconhecimento de voz que só aceite o comando “ligue pra casa” vindo de você ou um que aceite o comando de um estranho? A possibilidade de mau uso pesa mais ou menos do que o eventual uso em uma emergência?
O mundo não é preto e branco, nuances existem nas coisas mais simples, até em design de interfaces.
Mercado de TI: até onde você quer chegar?
Se há na Internet coisas tão certas quanto 2+2 são 4, entre elas estão o fato de que você não foi o primeiro a ter aquela idéia brilhante, se algo existe há uma versão pornô disso (a famosa regra 34) e nunca uma discussão iniciada na Internet terá fim. E isso vale para sistemas operacionais, sejam para desktops, servidores ou dispositivos móveis. Não me entendam mal, não estou dizendo que hajam versões pornô de SOs (por mais que alguns pareçam uma penteadeira de dama que troca favores sexuais por dinheiro).
Falando de SOs, em artigo recente que escrevi aqui mesmo sobre dados acerca do Windows 7 ter superado o Windows XP em números 2 anos após ser lançado, os comentários fatalmente acabaram migrando para tópicos quase que completamente fora do foco do post. E isso é tácito a qualquer site, blog ou portal. A discussão é saudável, principalmente em um site onde se dá opinião, não apenas são traduzidas notícias de onde quer que seja. Só que nenhuma discussão é vencida onde a maior preocupação é ridicularizar o “adversário”. Quando se chega a esse ponto, todos perdem e a discussão passa a ser apenas uma feira livre.
Do ponto de vista profissional, e acredito que centenas ou até milhares dos leitores desse site trabalhem com TI, não é nem um pouco inteligente defender de forma cega ou xiita uma marca ou um sistema específico. Quem trabalha com TI basicamente tem que aprender logo cedo que o que um cliente quer é soluções que atendam suas demandas. Se isso vai vir através de uma distro específica do Linux, com uma rede Novell ou mesmo máquinas rodando Windows 98 sem anti-vírus, não é problema seu. O papel do profissional de TI é mostrar as opções, orientar, focando em custos e resultados. Saber equacionar tudo isso leva tempo e experiência, além de muito estudo.
O que mais tenho visto por aí é muita gente curiosa, mas poucos profissionais de verdade. Nem cabe a mim julgar o que cada um espera de si profissional e financeiramente, tem gente que se contenta com pouco e isso não está errado. Se tirar pó de PCs e passar borracha em memórias satisfaz o sujeito, seja feliz dessa forma. Mas para quem espera MAIS do mercado, para quem quer ganhar bem, galgar degraus mais altos e conquistar melhores posições, fazer parte dessa guerra ideológica é um tiro no pé. É muito mais interessante para você, como (futuro) profissional da área, gastar esse tempo todo que passa discutindo se iOS é melhor que Android ou Windows Phone 7 ou na guerra entre MacOS, Linux e Windows, investindo em si mesmo. Você é o seu capital e a sua mercadoria. Suas qualificações e experiência são o seu melhor argumento de venda no mercado.
O mercado é bem cruel nesse sentido. Em TI nem sempre o cliente tem razão, principalmente porque o cliente não entende nada de TI. Você é o grande responsável por mostrar o melhor caminho, mesmo que não tenha a palavra final. Se o cliente insistir em tomar o caminho errado, faça como o Capitão Nascimento e avise calmamente que essa porra vai da merda. Essa é a diferença entre você poder dizer “Eu avisei” ou o cliente perguntar “Por que você não me avisou antes?”.
Dica: Documente TUDO inclusive dentro da empresa. Guarde seus emails [cardoso]
Finalizando, algo para se pensar: o seu comportamento na Internet com relação aos seus ideais e crenças na área de tecnologia reflete diretamente na forma como você se comporta no trabalho. Ainda há muito espaço para xiitas, defensores cegos de marcas e sistemas e preguiçosos. A diferença desses para os que sabem dialogar, analisar, estudar, observar e absorver conhecimento em todas as tecnologias disponíveis é meramente numérica e só aparece uma vez por mês: quando o salário cai na conta.
P.S.: isso vale pra qualquer mercado, seja ou não de TI.
Só a leitura salva?
Colocando a leitura dos feeds em dia, me deparei com este post do blog da amigolina @alinevalek com um vídeo (abaixo) sobre o poder transformador da leitura, e de como as pessoas que gostam de ler deveriam incutir nos cidadãos comuns o gosto por destrinchar compridas fileiras de caracteres impressos sobre películas de celulose encadernadas em tomos de espessura variável.
Manifesto – Só a leitura salva from Marcos Felipe on Vimeo.
Achei o vídeo simpático e esteticamente agradável, mas discordo. Tendo sido rata de biblioteca viciada em ler verbetes aleatórios da Enciclopédia Britânica na era de trevas pré-internet, eu entendo a intenção, e entendo que mais de vinte mil anos adquirindo e perpetuando conhecimento exclusivamente através da palavra escrita tenha tornado os humanos um tanto preconceituosos com as mídias novas. Mas ler não torna ninguém mais inteligente ou melhor do ponto de vista cultural que alguém que não curte leitura e prefere ver um filme.
É claro que ler desenvolve habilidades específicas — linguagem, imaginação, idioma… —, mas isso é uma particularidade da forma. Nós bem sabemos que o indivíduo que não sabe ler de verdade pode dar dores de cabeça ou no mínimo irritar, mas sua falta de habilidade em interpretar a palavra escrita diz mais sobre ele mesmo que sobre a superioridade da tal palavra escrita. Jogos, quadrinhos e filmes também têm outras particularidades específicas — linguagem, imaginação, continuidade, cultura… — que a leitura não tem. E é claro que algumas histórias funcionam melhor em uma mídia que em outra.

Vou apanhar na rua depois dessa.
É o mesmo caso da escrita cursiva: seus defensores dizem que ela é ensinada às crianças porque desenvolve habilidades motoras específicas, mas também dá pra desenvolvê-las de outras formas, como pintura, artesanato, etc. Hoje, as escolas estão aos poucos abolindo esse tipo de escrita, o que faz amantes de tipografia e caligrafia como eu chorarem de desgosto e profetas do apocalipse rasgarem suas vestes, mas é isso que vai acontecer. Resistir é inútil, e reclamar vai apenas nos tornar iguais aos velhinhos nostálgicos que achavam que inserir fichas no telefone público era bem melhor. Um dia todo mundo vai escrever em letra bastão ou de forma e a arte caligráfica vai ser um campo com uma aplicação bem diferente. Abolir o Sütterlinschrift não levou a Alemanha às trevas.
Dei uma olhada na minha lista de livros e filmes vistos nos últimos dois anos e concluí que as histórias mais cativantes, criativas, originais e inovadoras que vi neste meio-tempo estavam nos games. Demorou cerca de quarenta anos para os games conquistarem o interesse do meio acadêmico; o cinema, enquanto técnica de registrar imagens em movimento, tem pouco mais de cem anos de existência. Perto da escrita, estão apenas na infância, mas há tanto por desenvolver! Há tanto o que fazer! Ler é basicamente sobre story telling, não sobre concatenar palavras. Livro é o meio, mas o que importa é a mensagem. Por que ler a coleção Sabrina é melhor que assistir a Maria do Bairro? Por que ler Os Três Mosqueteiros de Dumas é melhor que jogar Assassin’s Creed?
Os mais de vinte mil anos adquirindo conhecimento através do livro fazem a gente achar que ler é a única forma realmente culta e válida de se ensinar, aprender, viajar no tempo e no espaço sem sair do lugar. É compreensível, explica, mas não é o único meio de enriquecer o indivíduo. Não há nada que o “poder transformador” de um livro tenha que também não esteja presente em um bom filme, música, HQ ou game. Filmes, músicas, HQs e jogos (e o que mais surgir dessa mistureba) não podem mais ser vistos como apenas filhos bastardos da palavra escrita*.
Uma revolução vem acontecendo nos últimos duzentos anos bem diante do nosso nariz. Confundir meio e mensagem só faz a gente perder o foco dela e se ocupar com toneladas de papel velho.
*Parafraseado de Scott McCloud, em “Desvendando os Quadrinhos”.


