The Daily? MOR-REU.

deadparrot

O Daily foi um experimento, e como todo cientista sabe não existe experimento fracassado, sempre aprendemos algo com ele. O ideal, claro, é que outro faça o experimento que não deu certo, afinal essas coisas custam caro.

No caso do Daily, BEM caro. Uma revista em iPad, com atualização diária, escrita por profissionais, editorada com qualidade, cheia de recursos multimídia, isso não sai barato. A não ser que US$2 milhões por mês seja barato pra você.

O Daily sempre esteve bem cotado na App Store, mas mesmo assim as contas não batiam. As assinaturas, em um respeitável número de 100 mil rendiam $4/mês, ou no pacote anual, US$40. Disso a Apple levava 30%. No final a revista ficava com US$1 milhão/ano, o que pode quebrar o galho para você ou para mim, mas não para uma empresa com gastos de verdade.

Mesmo com publicidade o modelo não se sustentou. Todo mundo está buscando explicações, mas citando o escritor inglês mais famoso depois da JK Rowling, a culpa não está nas estrelas, mas em nós mesmos.

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A aplicação tinha vários problemas. O maior deles, principalmente no começo, era a atualização lenta e grande. Baixar todo dia 600MB forçava a amizade e inviabilizava o uso de redes 3G. No iPad 1 o Daily era leeeeento que só. As matérias curtas, de uma ou duas páginas não satisfaziam o leitor de revistas, que era o principal público da publicação, e sim, eu sei que essa forma ficou horrível.

Com o tempo tudo melhorou, como demonstra o NADA desprezível número de 100 mil assinantes, mas como estagnaram nisso? Como não chegaram a um milhão, dez milhões?

Simples, e o problema não tinha nada a ver com a publicação em si: Ninguém quer pagar por noticias em tablets ou sites. Mesmo centavos. R$4,00 por mês é um valor ridículo, eu gasto mais que isso comprando alimentos saudáveis (não muito mais que isso, claro).

A questão é o ato de pagar por conteúdo que existe de graça legalmente em tudo que é canto. Na verdade vai mais além; informação, notícias se tornaram commodities. O leitor de um site não se sente comprando uma revista, mas em pé na banca olhando as manchetes.

Praticamente TODOS os sites que apelaram para paywall fracassaram. Embora tecnicamente uma revista de iPad não seja um site, filosoficamente para o leitor é consumo de notícias online do mesmo jeito. Notem, não estou dizendo que o leitor não valoriza o conteúdo. Ele reconhece o custo envolvido, mas simplesmente não se vê pagando por ele.

O modelo de monetização dos blogs e portais ainda é o mesmo dos primeiros jornais: Publicidade, que no mundo impresso é onde está o dinheiro. Preço de capa mal cobre os custos de impressão.

Uma publicação online precisa que sua publicidade banque produção E gere lucro, só que essa publicidade só renderá quando tiverem muitos leitores. Sendo que esses muitos leitores só virão quando a publicação tiver conteúdo e apresentação de qualidade. Que custam muito dinheiro.

O Daily durou de Fevereiro de 2011 a Dezembro de 2012 (a data da morte anunciada é 15/12, não sei se farão uma crônica). Nesse meio-tempo o prejuízo anual chegou a US$30 milhões. Qual a lição?

Primeiro de tudo, CUSTOS. A News Corp  tratou o Daily como se fosse uma emissora de TV ou uma revista de grande circulação, com todas as extravagâncias que acompanham esse tipo de veículo. Em internet não é assim que a banda toca.

Rupert Murdoch tentou emplacar um produto novo baseado em um modelo de monetização E produção antigo. Mesmo abrindo o Daily para todo mundo, bancando só na publicidade, não teria dado certo. US$30 milhões é MUITA grana para justificar uma revista online. Se sobrevivessem ainda assim seriam ineficientes e com um retorno marginal.

Para dar uma idéia, somando assinatura e publicidade o UOL faturou R$297,4 milhões, ou US$141 milhões. (tks @rmtakata) 30 é uma fração apreciável de 141, com os quais o UOL mantém dezenas de milhares de páginas e serviços. Mesmo aceitando o custo mais baixo da mão de obra aqui, não justifica.

O Daily está de parabéns por ter pensado adiante e ousado, mas infelizmente não dá para saltar muito alto mantendo um dos pés no chão.

Fonte: EG

Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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