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Hemisférios de Magdeburgo — primeiro passo rumo a uma morte horrível

Tudo é uma questão de pressão. E o ar (ou a falta dele) é implacável. Saiba o que aconteceu no desastre da Byford Dolphin. Você não vai conseguir dormir hoje.

7 anos atrás

Sim, um monumento à Ciência. Também estranhei.

Estique o dedo, com as costas da mão para baixo. Neste momento a ponta dele está sendo pressionada para baixo com pouco mais de 1 kg de força. É o peso da coluna de ar em uma área de 1 cm quadrado, estendendo-se até a estratosfera.

Você não sente nada pro vários motivos: primeiro, evoluiu em ambiente de uma atmosfera de pressão, é o seu normal. Não faria sentido “perceber” algo cotidiano assim. Segundo, essa força está sendo contrabalançada por uma pressão igual exercida de todas as direções. Inclusive dentro de você.

Não parece, mas da mesma forma que somos insensíveis a uma pressão normal, percebemos rapidamente qualquer mudança. Basta subir uma serra e nossos ouvidos avisam que há algo errado.

Essa noção já foi algo incrível e inexplorado, tendo sido definida lindamente por Torricelli, que no Século XVII criou o barômetro de Mercúrio, fundamentou os princípios da ciência atmosférica:

Vivemos submersos no fundo de um oceano de ar

Um dos grandes exemplos disso foi demonstrado por Otto Von Guericke, em 8 de maio de 1654, exatos 358 anos atrás. Ele montou dois hemisférios de metal com 50 cm de diâmetro, encaixou uma bomba de vácuo (inventada pelo Torricelli) e removeu todo o ar dentro da esfera. Sem cola ou fecho, as duas metades se uniram com uma força incrível. 30 cavalos, 15 de cada lado não conseguiram separar os dois hemisférios.

A atmosfera em volta da esfera exercia uma pressão de 4 toneladas, que não era contrabalançada pela pressão em seu interior.

Aqui uma recriação do experimento, onde os cavalos são trocados por franceses, que igualmente se rendem à força da atmosfera.

joseluis cebollada — Hemisferios de Magdeburgo en Grenoble

Organismos vivos são muito sensíveis a variações de pressão, mas apesar de todos os Total Recalls da vida, exposição ao vácuo é muito “menos pior” do que pressões elevadas. Por isso é incrível não só haver vida complexa no fundo da Fossa das Marianas, a uma pressão de 1.086 atmosferas, como é igualmente incrível termos tecnologia para enviar homens até tão fundo.

Só para comparar, uma nave espacial precisa resistir a uma pressão entre 0 e 1 atmosferas. O submarino do James Cameron suportou mais de uma tonelada por centímetro quadrado.

Qual o risco?

No melhor, mais fantástico cenário, a morte seria instantânea. Em outros casos, o Universo não é tão misericordioso, e se você não quer ter pesadelos, sugiro que pare de ler agora.

Byford Dolphin

A Byford Dolphin é uma plataforma de sondagem e exploração de petróleo operando no Mar do Norte. É infame por seu acidente em 1983, envolvendo 4 mergulhadores e um técnico.

Voltando de um mergulho de rotina, um sino de mergulho foi acoplado às câmaras de descompressão da plataforma. Dois mergulhadores descansavam na Câmara 1, enquanto os dois que estavam no sino abriram a escotilha e se dirigiram para a Câmara 2, através de uma passagem de conexão.

O procedimento seria fechar a escotilha do sino de mergulho, fechar a escotilha entre o sino e a Câmara de descompressão E a escotilha entre a Câmara e a passagem de conexão.

Em seguida a pressão da passagem seria reduzido até uma atmosfera, uma trava seria solta e o sino seria desconectado.

Tudo estava dentro da rotina até um dos mergulhadores tentar fechar a porta entre a Câmara 1 e a passagem de conexão. A porta emperrou, não fechou, ficou com uma fresta.

Sem esperar confirmação, o técnico do lado de fora acionou a trava que soltaria o sino de mergulho, mas ao invés de se desprender de uma conexão sem diferença de pressão, ele se soltou como uma rolha de champanhe, matando o técnico no processo. Seu corpo foi atirado longe e levou meia-hora para ser encontrado.

Isso foi só o começo. As duas câmaras estavam pressurizadas a NOVE atmosferas. os mergulhadores haviam se adaptado e todo seu organismo estava naquela pressão. Em uma fração de segundo foram erguidos para apenas UMA atmosfera.

Com 9 vezes mais ar do que o normal, e uma fresta em uma escotilha de 60 cm para sair, a atmosfera interna levou o que tinha pela frente.

O mergulhador próximo da porta literalmente explodiu com a descompressão dos gases internos de seu corpo. Seus órgãos internos, e até mesmo a espinha dorsal e os membros foram cuspidos pela fresta da porta. Fragmentos de seu corpo foram achados a 10 metros de distância.

Os outros três mergulhadores também morreram, com os vasos sanguíneos cheios de gordura, o que sobrou depois que seu sangue entrou em ebulição, repleto de gases que formaram bolhas, atravessando os tecidos enquanto a pressão era equalizada. Os corpos chegaram a apresentar bolhas no tecido dos olhos.

Graças a Tudo que há de sagrado não existe vídeo do acidente, mas neste aqui, que não é nem NSFW nem NSFL vemos um sino de mergulho onde alguém comete um erro e é iniciada uma despressurização descontrolada. Um sujeito que vai ganhar cerveja pelo resto da vida assume o comando e restaura a pressão. Agora é só aguentar as calças sujas.

harrismagnum04 — diving bell accident

O Universo conhece um monte de formas criativas e cruéis de nos matar, mas nenhuma é tão eficiente e horrenda quando a pressão. Em sua ingenuidade nossos antepassados criaram o conceito do Inferno, onde a punição seria o Fogo, mas a ciência mostrou que a água — e o próprio ar — são capazes de horrores inimagináveis.

Fonte: Boing Boing.

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