DMR–Eulogia a um Gigante

dennis_ritchie6Uma velha piada nos anos 90 dizia mais ou menos:

  • Hello, World! em Visual Basic: 15MB
  • Hello, World! em Delphi: 6MB
  • Hello, World! em Clipper: 3MB
  • Hello, World! em Pascal: 500KB
  • Hello, World! em C: 1KB
  • Hello, World! em Assembler*: SYSTEM HALTED

* Sim, nós falávamos ASSEMBLER, não Assembly, aprendemos a programar na marra, com manuais xerocados e fazendo engenharia reversa em listagens de revistas.Vá corrigir sua avó, empurrador de mouse!

Nessa época vivíamos o mundo ideal para os linuxeiros mais xiitas, daqueles que acham que Slackware já se vendeu aos preguiçosos da usabilidade: 100% dos micreiros eram programadores. Qualquer um com um computador em casa que só usasse programas prontos estava subutilizando sua máquina.

As várias linguagens buscavam seu espaço, passando por vários sabores de BASIC, Pascal Forth, Pascal e até a linguagem especial para crianças especiais –LOGO. Todas tinham seu mérito (menos Pascal) mas o sonho dourado de todo micreiro era aprender C. Não aquela boiolice de C++, que mané herança, Cezão, C puro.

Saber C era a diferença entre homens e meninos. Enquanto todo mundo brincava com linguagens de brinquedo ou obsoletas, a base do mundo digital moderno era construída em C, com alicerces de Adamantium, pilastras de Uru e paredes de Tritanium. Os sistemas operacionais mais modernos ainda retém código derivado dos sockets BSD, escritos nos anos 80.

A Apple, a Microsoft, o Google, o Android e o Linux só são o que são, só conseguiram chegar tão alto porque estão apoiados em ombros de gigantes, e poucos deles são maiores que Dennis Ritchie.

Por isso mesmo foi triste saber de sua morte dia 8, aos 70 anos.

DMR, como era mais conhecido inventou, entre 1969 e 1973 o C, linguagem que viabilizou a compilação de programas complexos, trabalhando em um ambiente extremamente otimizado, usando o máximo dos recursos das máquinas da época. Para dar uma idéia, as primeiras versões de C rodavam em um PDP-11, um armário que vinha com incríveis 32KB de memória. Não GB, não MB, KB. Hoje a instância do Windows Live Writer que uso neste momento está endereçando 71MB.

Claro, para tornar o PDP-11 realmente útil não basta a linguagem, é preciso um sistema operacional. Mas… e se não há um SO adequado? Simples, você ESCREVE um. Foi o que Dennis Ritchie fez, junto com Ken Thompson. Em 1969 eles criaram o UNIX, ainda em Assembly, mas sentiram falta de uma linguagem mais flexível, afinal dar manutenção em Assembler* é o Inferno, é a Treva. Acreditem, eu sei,

O grupo de Dennis na AT&T reescreveu o UNIX em C, indo contra todas as opiniões sensatas da época. Faz sentido, Uma linguagem de alto nível não era eficiente o bastante para gerar um sistema operacional, seria o equivalente a escrever um emulador de uma máquina Linux rodando em Javascript dentro de um browser.

Como Dennis estava ocupado programando, não prestou atenção aos que diziam que era impossível, e logo o UNIX estava compilando e rodando redondinho, criando o mundo dos sistemas operacionais cujo código-fonte podia ser entendido por pessoas normais. (ok, nem tão normais, afinal são programadores)

dmr

Ken Thompson e Dennis Ritchie recebendo a Medalha Nacional de Tecnologia de 1998 por inventarem O Unix e o C. Presidentes honrando cientistas, igual aqui.

O Unix é o sistema operacional de verdade mais bem-sucedido até hoje, e C evoluiu como linguagem, gerando C++, Visual C, Objective C, ANSI C e muitas outras. A própria Microsoft já teve um UNIX, o falecido XENIX, e apenas por falta de visão deixou de dominar o mercado de desktops muito mais rápido do que dominou. A Apple tem seu Unix desde o ano 2000, o kernel do iOS e do MacOS é o Darwin, um sistema Unix baseado no NEXSTEP e… Open Source.

Isso mesmo, crianças. No coração de cada Mac, cada iPod Touch, cada iPhone e cada iPad roda um filho de Dennis Ritchie, fiel aos padrões, regras e estruturas que seu Criador há muito definiu.

Não é errado ficar triste com a morte de Steve Jobs, mas como os próprios comerciais da Apple exaltando os Jedis por trás dos produtos da empresa deixam claro, ninguém faz nada sozinho. O sucesso vem de um trabalho em equipe harmonioso, baseado no conhecimento e expertise acumulados.

Portanto se Steve Jobs era Harry Potter por conseguir produzir produtos mágicos, Dennis Ritchie foi Dumbledore.

Obrigado, DMR, fico feliz de você ter sido honrado e reconhecido,  e ter vivido para ver o mundo tecnológico que ajudou a criar.E vale sempre lembrar que sem o C estaríamos programando em BASI, OBOL e PASAL.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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