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Geek Wars – Episódio IV – A New Hope

9 anos atrás

Durante milênios o Universo da Informática viveu estabilizado, com pequenas escaramuças nas regiões periféricas, mas o Status Quo era mantido. Mesmo quando grandes Mudanças de Poder ocorriam, ainda era mantida a divisão entre os iniciados (Siths ou Jedis) e o resto, o populacho, buchas de canhão.

Um dia uma empresa de frutas de Cupertino surgiu, comandada por um sujeito complexo (complexo é “polêmico”, pra quem tem QI acima de 15) e misterioso. ele se posicionava como um Cavaleiro do Bem, um Pirata lutando contra um império opressor (a IBM, moleque, pare de mimimi Microsoft, estude sua História), um grupo de Rebeldes com a promessa de um futuro brilhante para os Geeks.

Ao invés de décadas de treinamento e dedicação, como exigiam os Jedis e os Siths, esse rebelde dizia que religiões esquisitas e armas antiquadas não eram páreo para um blaster do seu lado. Ele demonstrou isso mais de uma vez:

Mesmo assim ele era tolerado por uns, respeitado por outros. Era benéfico ter Steve Jobs a seu lado, apesar da postura rebelde e arrogante. Ele inspirava as pessoas, foi uma porta de entrada para muita gente que achava que jamais entenderia algo tão complexo quanto computadores. Era uma figura útil, muitos viraram Siths ou Jedis por causa dele.

Com o tempo a Apple ampliou seu domínio, qual um contrabandista coreliano transportando princesas de Alderaan sob as barbas do Império criou um mercado no qual deixou de ser um meio e se tornou um fim. Não mais brinquedo de hobbistas, não mais computadores limitados, não mais “coisa de designer”, os Macs se tornaram uma alternativa de fato.

Os Líderes religiosos não conseguiam mais convencer os novatos, eles eram felizes com seu blaster, cumpria a função, matava seus inimigos, imprimia sua planilha e não exigia anos de dedicação para aprender a ser usado.

O pirata rebelde, útil a todos os lados, como Nicholas Cage n’O Senhor das Armas se rebelou. Não mais um aprendiz, agora era um Mestre, independente de tudo e todos.

Todos os que se sentiam especiais por serem admirados pelos seguidores do Pirata Jobs descobriram que não eram mais necessários. A idéia de que seriam chamados quando os usuários quisessem fazer algo mais complexo desapareceu.

O iPhone tornou obsoleta a figura do amigo que entende de computador, instalar um programa nele não é mais o processo tortuoso do Windows Mobile ou do Symbian. Céus, é preciso ter alta contagem de midichlorians para não tremer ou desistir diante de uma mensagem sobre certificados inválidos quando instalamos em um Nokia um software disponibilizado pela Nokia no site… da Nokia.

O iPod acabou com a complicação de achar, baixar, converter, codecar filmes e músicas. A iTunes Store tem tudo para a pessoa normal ser feliz.

Aconteceu antes e acontecerá de novo: Os Geeks denunciam o produto Apple como tecnicamente inferior, o consumidor demonstra com seu bolso que não está preocupado em quantos MIPS tem o processador, nem quantos núcleos ou se o iPhone faz VideoChamadas, a função mais alardeada e menos utilizada na Galáxia.

O iPad então está sendo o sabre de luz duplo na barriga dos Especiais.

Nunca a Galáxia Geek se uniu como no ataque ao iPad. Praticamente TODOS os sites, blogs e autores são unânimes em apontar os defeitos do aparelho. Demonstram cientificamente que ele será (ou seria) um fracasso, apontam como ele não tem as funções de um notebook, como um NETbook faria a mesma coisa e até comparam com o iPhone. Sim, alguns definiram o iPad como inferior por… não fazer ligações.

A origem dessa implicância toda era um mistério, mas começo a ver a origem. Os Escolhidos não são mais necessários. Não mais ouvimos o “nossa, que legal, dá pra fazer isso tudo com um telefone?”. Puxar um Palm e acessar web no meio de uma reunião já me valeu um emprego. Hoje qualquer mané faz isso.

A briga não é com a Apple. Vai além, é o Medo da Mudança, é o medo do CONCEITO de um produto fácil de usar.

Nós geeks vivemos nossa Era de Ouro nos anos 90/00, hoje nossa mágica é de domínio público. Por anos fomos os guardiões da Paz e da Justiça na Velha República, impressionamos o povo com nossos sabres de luz, encarnados na forma de PDAs, Notebooks, Fax-Modems, Scanners. Hoje o mesmo povo responde a um N900 com um iPhone, mostra uma App super-legal que NÃO TEMOS em nossos Nokias e Androids, e ficamos sem o que dizer, qual um Almirante do Império que falhou pela última vez.

O Mercado mostra que quer facilidade e soluções, mostra que a admiração pelos brinquedos complexos de antanho (ok, isso foi pedante até pra mim) era fruto da falta de opção, que preferem algo que resolva seus problemas SEM anos em uma Academia ou Templo.

Não, não é metáfora. Nos anos 80/90 proliferaram cursos de informática ensinando o básico do básico. É como se você comprasse um carro e fizesse uma auto-escola para aprender a abrir a porta e ligar o rádio. E cada carro novo a pessoa faria novo curso. Isso do ponto de vista de usabilidade é um absurdo! Um produto de consumo que precisa de meses de treinamento é uma aberração.

Aqui, da mesma forma que a necessidade cria estranhos companheiros de cama (mas não tão estranhos assim, cai fora, Morróida) os Siths e Jedis se apropriaram do discurso dos Gungans (acharam que eu iria livrar a cara do pessoal do Linux?) e passaram a atacar os consumidores.

São chamados nos sites de preguiçosos, acomodados, burros. Dizem que não sabem o que querem, e que suas necessidades NÃO estão sendo atendidas, mesmo com o iPhone vendendo 42 milhões de unidades, 8 milhões delas só no 1o trimestre de 2010. O mesmo discurso tão criticado, com resultados isolacionistas que tiraram o Linux da disputa pelo Poder no Desktop está sendo usado, apesar das conhecidas conseqüências.

Somos Nós vs Eles, Eles sendo os Usuários Comuns, nós os Geeks. Só que isso não vai durar muito tempo. Nossos maiores aliados, o exército de clones montado com nosso dinheiro, nossa dedicação está prestes a nos trair. De todos os lados virão tiros de usabilidade, ataques de design simples e funcional e hordas de praticidade, com nossos queridos brinquedos tecnológicos se transformando em ferramentas simples e eficientes nas mãos de gente que não MERECE utilizá-las, pois não sofreram todo o longo treinamento.

Merecimento não tem nada a ver com isso.

O Windows Phone 7 é isso. O iPhone OS, idem. O Android apesar de ter muitas das deficiências atribuídas ao iPhone E ao Windows Mobile (fragmentação de Versões, performance desigual, Bluetooth capado) cresce e muito. Segue o mesmo caminho. A Nokia, ao contrário da Palm aprende com os próprios erros e promete algo muito bom e muito simples.

Antigamente as pessoas contratavam motoristas não pela comodidade, mas pela complexidade em operar automóveis. Antigamente existia algo chamado Datilógrafo, antigamente existia algo chamado Fotógrafo de Festa Infantil, em breve dirão que antigamente existiam geeks, lendários guardiões do Arcano Conhecimento, uma Era Negra onde gente pagava chopps em troca de ajuda para configurar um celular para acessar Internet, e scripts do Trumpet/Winsock eram passados como Material Sagrado, segredo mais bem-guardado que a localização de Kamino.

Os tempos estão mudando. Nós geeks não mais dominamos o mundo, nosso tempo nesse papel acabou.

Podemos continuar, podemos ser Senhores Secretos do Mundo. A aparente complexidade que os Consumidores querem e conseguiram é só aparente. A quantidade de processamento, a quantidade de inteligência por trás de uma “interface simples” de um iPad é imensa. A diferença entre uma interface de texto e um comando CP e uma interface gráfica trabalhando com arrastar e soltar é de centenas de milhares de linhas de código.

Geeks são mais que nunca necessários. Steve Jobs é o Grande Geek, junto com Mark Shuttleworth, Scott McNeally, Larry Ellison, Ray Ozzie e tantos outros. Eles são reconhecidos muitas vezes por sua aparente ausência. O Ubuntu não perde complexidade por não pedir mais para se configurar manualmente o X11. O XBox Live não é ruim por qualquer criança poder (e) usar.

Podemos também nos exilar no deserto, negar o Mundo lembrando dos velhos tempos, das grandes aventuras, contando para os raros visitantes como lutamos até o fim, como ignoramos os fatos, batalhando cegamente contra os Mercado, os Consumidores, as empresas antigas Aliadas. Sim, podemos nos agarrar a nossas memórias quando transformamos isso em uma guerra, mas um Grande Sábio nascido em Dagobah já disse: Guerra não faz ninguém Grande.

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