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NASA autoriza construção do Dream Chaser; uma rara nave com cara de nave

A NASA aprovou a construção do Dream Chaser, mais uma nave para levar suprimentos pra ISS. A diferença é que é uma rara nave espacial que parece uma nave espacial.

Quando eu vi no Jornal Nacional o primeiro voo do ônibus espacial, nem acreditei. Era algo que eu havia esperado a vida inteira, uma nave espacial que se parece com uma nave espacial. Claro, foguetes são legais, mas na ficção científica naves eram muito mais avançadas e aquele lindo shuttle pousando era, ao menos na mente do garoto que assistia, tudo aquilo que se esperava de uma nave.

Os anos se passaram, os shuttles se mostraram mais mortais do que bala de carabina. Que veneno estriquinina. Que peixeira de baiano. Também eram estupidamente caros e sua reutilização significava seis meses no estaleiro, pelo menos. Eles acabaram sendo substituídos pelas Soyuz, que por muito tempo foi e ainda é o único meio de mandar humanos para o espaço. Sim, as cápsulas chinesas são Soyuz também, o projeto foi basicamente kibado.

Hoje temos várias cápsulas em desenvolvimento e já em operação, como a HTV japonesa, a ATV europeia, a Cygnus americana, a Dragon da SpaceX, a Starliner da Boeing, a Orion da NASA e todas elas possuem uma coisa em comum: Não parecem naves espaciais.

Racionalmente claro que não há comparação entre uma Dragon V2 e uma Apollo, mas do ponto de vista de quem está de fora, ainda é um cilindro de metal que desce com paraquedas. A exceção é o Dream Chaser, da Sierra Nevada Corporation.

O Dream Chaser é o azarão da competição criada pela NASA para fomentar o desenvolvimento de novas cápsulas espaciais, com o objetivo de transportar carga para a Estação Espacial Internacional, o Commercial Orbital Transportation Services.

Inicialmente ele não foi escolhido por atrasos no projeto. Os vencedores foram a Dragon e a Cygnus, mas com extensões do programa a Sierra Nevada continuou recebendo verbas e cumprindo metas, e em 2016 as três empresas receberam contratos para um mínimo de seis lançamentos. Era hora de acelerar o desenvolvimento do Dream Chaser.

A Sierra Nevada continuou desenvolvendo e testando o Dream Chaser, abandonando a mais complicada versão tripulada e preferindo uma versão mais simples, somente de carga.

Ele conseguirá levar 5 toneladas de carga para a Estação Espacial, e trazer de volta 1.750 kg de experimentos, submetendo-os a uma suave reentrada de não mais de 1,5 g.

Ele pousará em pistas convencionais, e isso já foi até testado. Lançado de um helicóptero ele voou caiu com estilo em um pouso quase perfeito, infelizmente o trem de pouso esquerdo não abriu, mas a Sierra Nevada jura que mesmo assim ele quase não se danificou.

Uma coisa que impressiona no Dream Chaser é tamanho. Ele é minúsculo, veja lado a lado com um ônibus espacial:

Ele também é muito, muito mais simples. Ao invés de vários motores complexos de tipos diferentes, o Dream Chaser usa dois motores híbridos de combustível sólido, baseados em... borracha. Mais precisamente, Polibutadienos líquidos hidroxilados, com óxido nitroso como agente oxidante. Com isso eles conseguem regular potência e até desligar e religar o motor, algo não muito comum em motores de combustível sólido.

As manobras mais sutis serão feitas por jatos usando álcool ao invés de hidrazina. Não é tão eficiente, mas é bem menos venenoso.

O mais surpreendente do Dream Chaser é que não é um projeto novo, ele tem um pedigree bem antigo, remontando aos anos 60.

Nos anos 60 os Estados Unidos começaram a experimentar com lifting bodies, um conceito onde não só a asa, mas o corpo todo da aeronave é a principal fonte de sustentação. Isso aumentaria muito a razão de planeio, sem necessitar de uma asa enorme.

O Northrop M2-F2 foi um dos designs testados.

O Dream Chaser bebeu na mesma fonte, e em várias outras, como o substituto do ônibus espacial, o X-33 Venture Star, outro projeto  que nunca saiu do papel.

Talvez meu otimismo inicial tenha sido infundado. Sim, é boa a notícia de que o Dream Chaser ganhou autorização para entrar em produção e o primeiro voo esteja marcado pra 2020, mas com isso tudo estamos celebrando uma nave que é uma versão mais moderna de uma ideia de quase 60 anos atrás.

O grande mistério é como a pesquisa espacial consegue avançar sendo tão conservadora.

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