PayPal acusa mulher de quebra de contrato por estar morta

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Longe de mim pagar de ludita, ou embarcar naqueles delírios de que a Inteligência Artificial quando desenvolvida irá se debelar e dominar o mundo, mas dito isso, afirmo: a Automação vai acabar com a Raça Humana!

Nem nas maiores distopias kafkianas Howard Durdle deveria passar o que passou. Ele foi vítima do destino, tendo perdido sua esposa Lindsay pra o câncer, e foi vítima da incompetência e da automação do PayPal.

Howard cumpriu uma das partes necessárias ao se lidar com a morte de um ente querido, colocar as pendências da pessoa em dia, cancelar cartões, contas bancárias, etc. Ele enviou uma correspondência comunicando o falecimento para vários lugares, inclusive o PayPal.

Três semanas depois ele abre uma notificação endereçada a… Lindsay Durdle.

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Basicamente avisavam que a conta dela estava com saldo negativo de umas 3 mil libras, e que a morte caracterizava quebra de contrato. E por isso estavam no direito de fechar a conta, cancelar o contrato e exigir pagamento imediato da dívida.

Também instruíam Lindsay a como lidar com a situação, e detalhavam as ações que tomariam contra a falecida.

A mensagem termina num tom mais compreensivo, dizendo que entendem que ela talvez esteja passando por dificuldades financeiras. Acho justo, afinal mortalha não tem bolso.

Howard compreensivelmente ficou menino pequeno em Portugal, e botou a boca no trombone. A história logo chegou a um monte de sites de notícias, inclusive a BBC. O PayPal rapidamente entrou em controle de danos, pediram milhares de desculpas e se tiverem um mínimo de semancol devem ter anulado o débito também, mas o mal já estava feito.

O tal artigo 15.4(c) do contrato diz:

“We may close the Credit Account and demand repayment of the full amount you owe us if you die or become of unsound mind”

Ou seja: “nós podemos fechar sua conta e exigir pagamento do débito total se você morrer ou se tornar insano”

A rigor é justo, os herdeiros diretos assumem as dívidas junto com o patrimônio, mas algum JÊNEO da programação achou que toda situação de quebra de contrato é legal, programou isso no sistema e ninguém havia percebido que estavam enviando correspondências ameaçadoras pra gente morta.

Eu adoro computadores, dependo deles para prover os meios que garantem minhas necessidades básicas, como comer dormir e me alimentar, mas automação demais não dá. Não sem um controle de qualidade de verdade no desenvolvimento dos softwares, com gente responsável para testar a sério os sistemas, não aquela postura “se compilou manda pra produção”.

 

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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