Microsoft (tecnicamente) ajuda a derrubar primeiro-ministro do Paquistão

2013-06-12-ntsfsdsuv

Nawaz Sharif se sentiria muito à vontade no Brasil. É um daqueles políticos enraizados, foi primeiro-ministro do Paquistão nada menos que três vezes, tem conexões em todos os cantos e uma reputação que o faria um excelente membro do (insira aqui aquele partido que você não gosta).

No seu primeiro mandato como primeiro-ministro ele foi tão corrupto que o presidente o demitiu, ele não aceitou, a briga parou na Suprema Corte. O tribunal ficou do lado de Sharif, mas a situação foi resolvida pelos militares: o Comandante do Exército sugeriu, com a força do argumento, que só uma brigada de tanques tem, que ambos renunciassem. Assim o fizeram.

Isso foi em 93. Em 97 Sharif voltou, afinal se o povo brasileiro não sabe votar, imagine se Pelé conhecesse o paquistanês. Ele logo arrumou briga com o Judiciário e os Militares, demitiu um monte de gente, inclusive o comandante do Exército, colocando no lugar Pervez Musharraf, em 1998. Não deu muito certo, os dois começaram a se estranhar e Sharif resolveu que era hora de demitir Musharraf, que não concordou, usou do argumento dos tanques de novo, e demitiu Sharif.

Musharraf assumiu o poder, Sharif foi exilado na Arábia Saudita. É, foi golpe. E não adianta pedir por juízes amigos, Musharraf emitiu um decreto obrigando todos os juízes a jurar lealdade aos militares.

Sharif voltou pro Paquistão em 2007, depois que a Suprema Corte determinou que ele poderia fazer isso, mas o governo decidiu que não era uma boa idéia e ele voltou para Londres no avião que veio.  Nawaz Sharif só colocaria os pés no país em 2008, quando passou a comandar a Oposição.

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Nawaz Sharif disfarçado de coelho da Páscoa para enganar a polícia.

Em 2013, aproveitando-se do caos político, Sharif conseguiu se eleger, e entrou em um regime de rouba-mas-faz, elevando o crescimento do PIB de 4,14% em 2013 para 5,2% em 2017.

Em 2016, a casa começou a cair, com a divulgação dos chamados Panama Papers, 11,5 milhões de documentos vazados de uma empresa especializada em marmotagens financeiras. Entre os envolvidos que apareceram nos documentos, Sharif, ou mais precisamente sua família, como filhos e cunhados, que nesse caso é parente sim.

Entre outras foram achados seis imóveis em Hyde Park, em Londres. Havia mais de dez empresas de fachada registradas em paraísos fiscais, algumas em nome da filha de Sharif, outras no nome dos irmãos.

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Maryam Sharif

Havia esquemas envolvendo até a ex-sogra de Sharif, uma quantidade de laranjas de deixar a Flórida com inveja. Isso pegou mal quando a Justiça começou a investigar, os envolvidos tentaram a Defesa Lula, “não me lembro”,  e a Defesa Dolores, “isso não se parece com nada para mim”, mas não colou.

A cereja do bolo foi quando investigaram dois apartamentos (se forem juntos é um duplex?) em Park Lane, região bem cara de Londres. Os apartamentos estavam em nome de duas empresas de fachada no Panamá, cuja única acionista era Maryam Sharif, filha do homem.

Ela usou a estratégia de desviar a bola pra outro, no caso o irmão. Ela alegou que era apenas fiel depositária, e que os imóveis eram dele. Confiante na estratégia (do grego strategos…) Maryam até tuitou o documento assinado comprovando tudo.

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A Justiça, que é cega mas não é boba, mandou os documentos pra perícia, passou pela mão de CSI, NCIS, até pelo NTSF.SD.SUV (sério, procure e assista essa bobagem, é ótimo) e não deu outra: o documento era falso.

A prova? Elementar, meu caro Dr Watson.

Ok essa é obscura demais, merece explicação. Dr Watson é um debugger que vinha instalado nos Windows desde o 3.11 pelo menos, e era absolutamente inútil pra 99,999% dos usuários, aparecendo apenas para indicar um crash.

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Ok, voltando.

Os especialistas examinaram o documento e descobriram na hora que algo errado não estava certo: a fonte usada na composição do texto era a Calibri, criada entre 2002 e 2004, mas que só foi tornada pública em 30/1/2007, com o Office 2007 e Windows Vista.

Ou seja: não havia como um documento de 2006 ter sido composto com essa fonte.

Maryam Sharif entregou para a Justiça documentos falsos, e isso é um grande não-não. Com a ligação com os imóveis se tornando inquestionável, sobrou para o pai; Sharif havia declarado a filha como dependente, sem listar nenhuma das propriedades dela.

Sharif foi sentenciado dia 6 de julho de 2018 a 10 anos de cadeia, e multa de US$ 10 milhões. A filha pegou 7 anos de cana e US$ 2,6 milhões de multa, e o marido dela um ano de cadeia pra deixar de ser otário.

É difícil que algum deles acabe numa cela; Sharif e a filha estavam em um dos apartamentos em Londres quando a sentença foi proferida. Ah sim, o Tribunal baniu para sempre Sharif de exercer cargos públicos, mas sendo o Paquistão quase um Brasil, isso deve durar até a próxima eleição.

Fonte: The Globe.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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