Brasileiro é acusado de montar foto e perde o prêmio em concurso de fotografia de natureza

Olha, essa treta está correndo desde a semana passada. Eu poderia ter falado algo na sexta-feira, mas queria que a coisa se desenrolasse mais um pouco e que as conclusões fossem concretas, inclusive com o direito de resposta da parte afetada. Mas, acho que agora as coisas estão mais sedimentadas e não possuem a possibilidade de mudarem.

Em 2017 o fotógrafo brasileiro Marcio Cabral conseguiu uma grande façanha. Ele foi vencedor da categoria “Animais em seu ambiente” do prestigiado concurso fotográfico “Wildlife Photographer of the Year“. A imagem, intitulada  “The Night Raider”, mostra um tamanduá se alimentando em um cupinzeiro (imagem abaixo).

Junto com a foto o fotógrafo enviou o seguinte texto:

“Por três temporadas, Marcio acampou na região do Cerrado, no Brasil, na vasta savana sem árvores do parque nacional das Emas, esperando para capturar a exibição de luzes dos cupinzeiros. As larvas de besouros que vivem nas camadas externas dos montes exibem seus “faróis” bioluminescentes para atrair presas – os cupins que voam. Saiu da escuridão um tamanduá gigante, indiferente a Marcio em seu esconderijo, e começou a atacar o monte alto de concreto e lama com suas poderosas garras para alcançar os cupins bem no fundo.”

Muito bacana ter um brasileiro entre os melhores fotógrafos de natureza do mundo, não é verdade? Mas, semana passada, aparentemente, a casa caiu. Uma denúncia anonima enviou para a organização do concurso a foto abaixo que é de um tamanduá que se encontra na entrada do parque. O animal empalhado é muito parecido com o animal registrado na foto. Como os ganhadores são obrigados a enviar o arquivo original da foto para a comissão julgadora, e chegou-se a conclusão que a foto não passou por manipulação, a acusação é de que o fotógrafo teria movido o animal empalhado até o cupinzeiro para fazer a foto.

O fotógrafo se defende dizendo que ele não fez a montagem e que a foto é legítima. Ele enviou toda a sequência de fotos para a organização do concurso. O tamanduá aparece em apenas uma imagem. Nas fotos anteriores e posteriores não existe sinal do animal. O fotógrafo se defende dizendo que as imagens são longas exposições de 30 segundos e que usou flash para iluminar o animal. O acessório de iluminação teria espantado o tamanduá que foi embora antes de uma nova imagem. É uma explicação plausível, mas não suficiente para a comissão julgadora.

O Museu de História Natural, que administra o concurso, contratou 5 especialistas em vida animal que, trabalhando independentemente, chegaram à mesma conclusão de que os dois espécimes são o mesmo animal. O Museu de História Natural informou ao Petapixel que:

Estamos confiantes em nosso rigoroso processo de investigação e na perícia dos cinco cientistas envolvidos, que entre eles têm experiência em mamíferos, taxidermia, conservação, mamíferos sul-americanos e tamanduás, Eles chegaram à mesma conclusão independentemente após um extenso exame das evidências, que incluíam várias fotografias de alta resolução tiradas de diferentes ângulos. Se novas evidências factuais emergirem, o Museu revisitará o assunto e avaliará isso apropriadamente.”

Marcio Cabral foi desclassificado, perdeu o prêmio e foi proibido de participar das edições posteriores do concurso. Fora isso, a ampla divulgação do ocorrido na imprensa mundial deixou sua reputação manchada. Uma pena, pois o portfólio do fotógrafo é impecável. Desde já deixo aqui o espaço no Meiobit para um esclarecimento do Marcio Cabral e, quem sabe, um bate papo sobre o assunto.

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Autor: Gilson Lorenti

Geógrafo de formação e fotógrafo de coração, comecei a fotografar com 18 anos de idade (antes disso nunca tinha pegado uma câmera na mão). Depois de muito estudo veio a carreira profissional que passou por várias modalidades da fotografia até realmente descobrir o que gosto de fazer. Hoje me dedico ao ensino de fotografia, fotografia Fine Art e Books Fotográficos (gestante, moda, sensual). Tomando emprestado as famosas palavras de Ansel Adams "Quando as fotografias não forem mais suficientes, me contentarei com o silêncio".

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