Telegram é bloqueado na Rússia por não entregar chaves criptográficas

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A sorte do Telegram na Rússia acabou. Um tribunal de Moscou decidiu pelo bloqueio do mensageiro instantâneo em todo o país, após a empresa continuar se negando a entregar as chaves criptográficas de seus usuários, conforme a Suprema Corte já havia exigido.

A empresa e especificamente o CEO Pavel Durov batem cabeça com o Kremlin há anos: em 2014, quando o executivo ainda era CEO do VKontakte, mais conhecido como VK (o Telegram entrou em operação um ano antes), ele teria sido pressionado pelo governo do presidente Vladimir Putin a entregar dados de membros da oposição; ele acabou saindo da Rússia e sendo desligado da empresa, que posteriormente foi absorvida por completo pela Mail.Ru Group.

No caso específico do Telegram, a startup vinha enfrentando dificuldades no país depois que implementou a criptografia ponta a ponta no software, protegendo totalmente as conversas de seus usuários (não só lá e não só ela; vide os rolos do WhatsApp com a justiça brasileira, pelo mesmo motivo). O FSB, Serviço Federal de Segurança (o órgão que sucedeu a KGBexigiu que a plataforma entregasse as chaves criptográficas e se adequasse às leis anti-terrorismo locais, com a alegação de que era necessário para investigar criminosos e potenciais terroristas (bem como dissidentes, opositores e outros infratores, because reasons).

O Telegram resistiu o quento pôde, inclusive à determinação da Suprema Corte russa de que deveria entregar as chaves de uma vez e buscava recorrer da decisão, quando outra corte de Moscou julgou em tempo recorde (menos de 30 minutos) o mérito da ação que determinou o bloqueio imediato do aplicativo em todo o país. O julgamento não contou com a presença de nenhum advogado do Telegram e para todos os efeitos, a ação foi uma farsa montada para barrar o software de vez e obrigar Durov a tomar uma decisão: ou abaixar a cabeça e abrir a criptografia, ou se recusar a fazê-lo e e aguardar o software ser definitivamente banido.

A Roskomnadzor, a agência de telecomunicações russa informa que o bloqueio tem efeito imediato mas o Telegram tem até 30 dias para recorrer da decisão. A companhia comemorou em março a marca de 200 milhões de usuários ativos por mês em todo o mundo e para ela, tal desdobramento é um golpe e tanto; pesquisas recentes apontaram que a base instalada no país estava crescendo, provavelmente pelo desejo de não querer utilizar uma ferramenta monitorada pelo governo, como… o VK.

Através de seu canal no Telegram, Durov reafirmou o compromisso com a privacidade e que ela não está à venda, criticando diretamente a Apple; a maçã recentemente decidiu instalar servidores na China e mover as chaves criptográficas do iCloud de usuários locais para lá, algo que até a Anistia Internacional criticou duramente; o CEO do Telegram completa dizendo que “os direitos humanos não devem ser comprometidos por medo ou ganância”, o que para bom entendedor significa que a empresa não vai ceder e continuará brigando com o governo russo.

Claro, pelo menos até o Putin inevitavelmente chutar o app para fora da Mãe Rússia.

Fonte: Bloomberg.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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