Dandara — Review

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O Brasil já mostrou sua excelência em desenvolvimento de games, com títulos dos mais diversos gêneros e alguns até mirando no mercado AAA, mas são os estúdios independentes que chamam mais atenção. Cases bem-sucedidos como os da Behold Studios (Knights of Pen and Paper, Chroma Squad), Aquiris Game Studio (Horizon Chase), JoyMasher (Oniken), Swordtales (Toren) e MiniBoss (TowerFall: Ascension e o recente Celeste) estimulam mais e mais desenvolvedores e mostram que sim, é possível fazer games de qualidade no país e chamar a atenção mesmo no concorrido cenário indie.

A bola da vez é a Long Hat Games, um estúdio de Belo Horizonte até então inexpressivo e conhecido apenas pelo insano Magenta Arcade, que chegou chutando a porta com Dandara, um excelente título que vira de pernas para o ar (literalmente) as convenções do tão experimentado gênero Metroidvania, com uma aventura atraente e toques bem brasileiros.

Acompanhe nosso review e descubra o que este game 100% Made in Brazil tem a oferecer.


Metroidvania à Brasileira

Antes de mais nada, confira nosso gameplay dos momentos iniciais de Dandara:


Meio Bit — MB Gameplay #1 – Dandara

Dandara é um dos poucos games brasileiros no mercado que possui raízes fincadas na nossa própria cultura e história (o único outro que consigo lembrar que segue essa mesma vibe é Aritana e a Pena da Harpia, dos paulistas da Duaik Entertainment), mas ao invés de partir para uma publicação ufanista no estilo dos documentários de formigas que  há aos montes por aí, a Long Hat preferiu introduzir uma aventura épica em um mundo de fantasia, mais apelativo ao público global e por isso mesmo, mais facilmente aceito comercialmente.

Não que essa fosse sua primeira ideia: o projeto original de Dandara consistia em um game de fato histórico, protagonizado pela personagem que até onde se sabe (as informações sobre sua vida são muito escassas e muitas informações disponíveis hoje foram passadas no boca a boca, logo não há como precisar o que aconteceu e o que é lenda) foi a esposa de Zumbi e teria sido uma grande guerreira, tendo liderado o destacamento feminino das tropas que defendiam o Quilombo nos Palmares dos ataques dos holandeses, no que hoje é a Serra na Barriga no estado de Alagoas. Conta-se que uma vez capturada, Dandara escolheu o suicídio ao se jogar do alto de uma pedreira para não voltar à condição de escrava.

O game abordaria o período dos ataques à Palmares e como ela teria atuado na defesa do Quilombo, mas os desenvolvedores viram que tal temática era “brasileira demais” e não seria bem aceita lá fora. Assim, o projeto foi todo remodelado mas Dandara, a protagonista permaneceu, tendo sido convertida em uma guerreira mística de um mundo surreal.

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Só que diferente de outros estúdios brasileiros, que preferem criar títulos mais uniformes temos em Dandara um Metroidvania agradável para todos os fãs do gênero, mas com uma grande dose de elementos de nossa cultura. Há desde os cenários, com paredes reproduzindo grafites de BH a personagens, como a descarada homenagem à pintora Tarsila do Amaral, expoente do Modernismo e autora do quadro brasileiro mais valioso: seu Abaporu, hoje exposto no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires está avaliado em US$ 40 milhões. Aqui, sua obra foi convertida em uma personagem também chamada Tarsila, que auxilia a protagonista em sua jornada.

A trama de Dandara é bem simples e mantém os laços com a ideia original: a personagem-título desperta para livrar o mundo de Sal das garras de um governo tirânico, que oprime o povo. Nada muito além disso, e Dandara conta com suas habilidades naturais únicas para se mover pelos cenários e derrotar seus inimigos, enquanto desvenda os mistérios desse rico e inusitado mundo.

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Até aí não vimos nada de original, a história é até bastante clichê e o fato de ser um Metroidvania faria muita gente pensar “pô, mais um game igual aos outros que não acrescenta nada”. Porém o salto (hehe) de qualidade e originalidade em Dandara é dado não no visual ou na história, e sim em sua jogabilidade.

“♪ Vamo pulá, vamo pulá, vamo pulá, vamo pulá… ♫”

Em primeiro lugar Dandara não anda ou pula normalmente, como estamos acostumados em jogos de plataforma e exploração. Ao invés disso ela é capaz de dar longos e velozes saltos de uma plataforma a outra, como se fosse uma bolinha de pinball quicando (e grudando) nas paredes da máquina. A personagem pode aderir em qualquer plataforma com uma substância branca em cima, o que limita algumas das opções quando é preciso se deslocar rapidamente.

Com o controle analógico (a jogabilidade foi pensada inicialmente para smartphones, o que faz de Dandara um título em que o uso do joystick é quase obrigatório) você deve direcionar para que lado Dandara irá saltar, e caso o eixo alcance o destino esperado ele irá marcar que é possível fazer tal movimento. Assim, ao apertar o botão correspondente você vai pular rapidamente do ponto A para o ponto B, imediatamente se fixando à plataforma. Não há outra forma de movimentação e você só ficará suspenso no ar quando receber dano.

Dandara possui um tiro triplo normal, que viaja lentamente e possui médio alcance e habilidades especiais, que devem ser encontradas ao vasculhar o mapa do game e que consomem uma segunda barra de energia; você poderá fazer upgrades nos dois medidores e nos efeitos dos itens de recuperação coletando pontos de sal, pequenos fragmentos que surgem ao destruir inimigos e caixas, são encontrados em baús ou deixados para trás por outros personagens.

É preciso acumular uma boa quantidade deles para melhorar suas habilidades, deixando a jornada de Dandara um pouco mais fácil porque é preciso dizer o seguinte: o desafio é elevado, um pouco acima do esperado para o gênero Metroidvania e decisões de design foram tomadas para tornar o game ainda mais difícil: não há um recurso de salvamento automático e os save points são poucos e muito distantes entre si (a habilidade de viagem rápida entre eles só é liberada perto do final do game), obrigando o jogador a ter cautela para não morrer; se isso acontecer todos os pontos de sal serão perdidos e permanecerão no local onde você morreu, fornecendo uma única chance de recupera-los. Porém, se no percurso o jogador morrer de novo eles serão irreversivelmente perdidos.

Isso significa que o jogador precisa usar a cabeça e não se lançar à frente como um desesperado (e o game incentiva a fazê-lo), de modo a não sofrer danos desnecessários e e morrer com os bolsos cheios de sal, de modo a evitar refazer o caminho novamente para recupera-los e morrer outra vez, sendo todos os seus pontos acumulados e planejados para aquele upgrade essencial irem para o espaço. E acredite, isso vai acontecer muitas vezes.

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Tecnicamente Dandara é bastante chamativo, com uma pixel art deveras detalhada principalmente na protagonista, negra com traços fortes e um indefectível penteado Afro, além do cachecol que se move bastante; os NPCs, inimigos e chefes são muito bem feitos, bastante criativos muito diferentes um do outro, principalmente o último grupo: há desde uma cabeça voadora gigante de um militar a uma sala viva, que você deve atacar pelo lado de dentro e destruir seu coração enquanto se desvia freneticamente dos tiros. As locações mesclam cenários lúdicos e modernos com algumas particularidades bem brasileiras, em especial várias citações a locais de cidade de Belo Horizonte, onde a sede da Long Hat Studios está localizada.

O som é bom mas não genial, as músicas são bastante originais e marcam bem o ritmo dos combates contra os chefes, ou de quando você encontra um item importante (a lá The Legend of Zelda e o Tema do Baú) mas na maioria do tempo você ouvirá muito mais os efeitos sonoros do que as músicas. Essas são poucas e econômicas, ainda que agradáveis e bem adequadas.

Em última análise, a mescla de jogabilidade, desafio e fatores técnicos em Dandara é muito bem dosada, e nada parece estar deslocado ou fora do ritmo.

Claro, nem tudo é perfeito. A movimentação ágil de Dandara não é acompanhada por seus ataques, que precisam ser carregados por 0,5 segundo para serem disparados; além disso eles são bem lentos e de curto alcance (excluindo habilidades especiais, que consomem a segunda barra de energia), o que prejudica a cadência de tiro e força o jogador a pensar bem antes de atacar. Não serão raras as vezes em que você se deparará com uma grande quantidade de inimigos e tiros na tela, logo é imperativo se mover rápido e atacar ao mesmo tempo para não tomar uma surra; porém, como os tiros viajam mais lento que a protagonista se move, muitas vezes você sofrerá mais dano do que o esperado.

A dificuldade elevada de Dandara e as decisões sobre o sistema de salvamento fazem com que o game seja bastante punitivo, forçando o jogador a fazer bastante backtracking para permanecer vivo e não perder todo o sal que acumulou caso morra. Por fim o mapa simples demais, que não oferece nenhuma referência além dos save points combinado à movimentação da câmera, com seus constantes giros do cenário causam certa desorientação (intencional, é bom frisar) e não é difícil acabar se perdendo, confundindo salas e dando de cara com desafios para os quais você não estará preparado. A dica é sempre prestar atenção por onde anda e evitar se mover sem pensar, pois um salto em falso pode levar à morte certa.

Apesar desses defeitos que podem ser polidos em futuros lançamentos, no geral a Long Hat House mais acertou do que errou em Dandara e oferece um título que proverá horas de diversão, desde que o jogador esteja ciente do que o espera.

Conclusão

Dandara é uma lufada de ar fresco no gênero Metroidvania, que carecia de novas ideias há tempos. O pequeno estúdio de BH conseguiu apresentar um game sólido, com uma protagonista carismática e elementos que remetem à nossa cultura, tudo mesclado numa aventura em um mundo fantástico capaz de apelar a todas as audiências. Sua jogabilidade é inovadora o suficiente para destaca-lo entre todos os outros games similares, ao mesmo tempo em que crava o pé nas convenções de modo a ser palatável aos fãs do gênero e mais uma vez, prova que o Brasil tem um enorme potencial no cenário global dos games independentes.

Os únicos pecados de Dandara ficam por conta da mescla movimentação/ataque, cujas velocidades não conversam entre si e o sistema de mapa simples e rotações constantes, que pode ser bastante desorientador e fazer você se perder algumas vezes. Além disso, a dificuldade já elevada mesclada à falta de autosaving e os poucos save points presentes tornam o game bastante desafiador, o que poderá irritar alguns.

No entanto, como a Long Hat House está começando a se destacar no meio e logo de cara conseguiu com Dandara chamar a atenção, há espaço para aprender, melhorar e entregar próximos títulos mais polidos e esperamos, tão originais, inusitados e divertidos (guardadas as devidas proporções) quanto este.

Cotação:

Quatro de cinco Dandaras (a personagem histórica).


Raw Fury — Dandara Launch Trailer

Ficha Técnica

  • Título — Dandara;
  • Plataformas — PS4, Xbox One, Nintendo Switch, iOS, Android e Windows, macOS e Linux via Steam (análise baseada na versão de Windows);
  • Desenvolvedora — Long Hat House;
  • Distribuidora — Raw Fury;
  • Preço — R$ 45,90 na PSN, R$ 29,00 na Xbox Live, US$ 14,99 na Nintendo eShop, R$ 49,90 no iTunes e R$ 29,99 na Google Play Store e no Steam;
  • Pontos Fortes — jogabilidade inovadora para o gênero Metroidvania; cenários ricos e criativos, com diversas referências à cultura brasileira; chefes originais e nível de desafio empolgante;
  • Pontos Fracos — limitação na cadência de tiro, que não acompanha a movimentação da protagonista exige estratégia e atenção; backtracking obrigatório e save points escassos e distantes uns dos outros; mapa simples demais e rotação do cenário causam constantes confusões.

Agradecimentos à Long Hat House pela cópia de Dandara cedida para review.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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