Finalmente o Falcon Heavy subiu; e agora?

Elon Musk fez de novo. Ainda que tenha levado mais tempo do que o esperado, a SpaceX mostrou que está preparada para a exploração comercial do espaço com o voo inaugural do Falcon Heavy, seu foguete monstruoso que é o mais potente ativo atualmente (só perde para o Saturn V) e colocou um Tesla no espaço, que pode muito bem se tornar daqui a milhões de anos uma das poucas evidências de que a humanidade existiu.

Daqui para a frente, o céu é o limite o espaço é a Fronteira Final.

O Falcon 9 é uma excelente solução para o transporte de cargas e para colocar satélites em órbita baixa, mas ele é bastante limitado: com capacidade para apenas 28,8 toneladas ele ficava bem atrás do Delta IV Heavy, da ULA. O Falcon Heavy é uma resposta aos concorrentes não só em capacidade de carga (54,4 t) como em preço: cada voo do Delta IV Heavy custa US$ 375 milhões, já a SpaceX gasta em teoria US$ 60 milhões se conseguir reaproveitar todos os módulos, ou US$ 135 milhões se abrir mão deles.

O projeto em si do Falcon Heavy não é simples, são três núcleos do Falcon 9 e 27 poderosos motores Merlin, e ao que tudo indica fazê-lo funcionar não era nada simples. Por vários meses Musk desconversou quando a imprensa perguntavas dele, preferindo se focar no BFR e nos planos para Marte mas com o tempo conseguiram fazê-lo funcionar. O lançamento, programado originalmente para o fim de 2017 foi realizado nesta terça-feira (06) e foi lindo, para dizer o mínimo.


SpaceX — Falcon Heavy Test Flight

Como todo voo inaugural muita coisa podia dar errado, Musk mesmo dizia que havia 50% de chances do Falcon Heavy sofrer uma “desmontagem não planejada”, mas é importante demonstrar as capacidades de carga e normalmente na primeira vez foguetes sobem com “simuladores de massa”, blocos de metal no formato e peso de uma carga padrão. Só que é a SpaceX, Musk é um showman e para fazer diferente já mandaram outras coisas, inclusive um queijo.

A carga vez seria um Tesla Roadster vermelho, mais especificamente o veículo pessoal de Musk. Ele foi “pilotado” por um manequim devidamente trajado, que foi nomeado adequadamente como Starman e o Roadster recebeu alguns mimos, como um disco contendo uma cópia digital de Fundação, de Isaac Asimov, o Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams e como não podia deixar de ser, uma toalha.

No momento em que o Falcon Heavy subiu roncando alto (dica: ouça o lançamento em som binaural e com fones de ouvido, é de enlouquecer) e o Roadster foi liberado, ao som de Life on Mars? de David Bowie muita gente, dentro e fora da SpaceX foi ao delírio. Isso é hard science sendo aplicada e exibida ao vivo, não dá para não se empolgar.

 

O teste do Falcon Heavy é importante não só para demonstrar que a SpaceX é plenamente capaz de colocar cargas pesadas em órbita, como seus voos já são bastante confiáveis e mais importante, os custos ficarão lá embaixo dada a economia ao recuperar os módulos. Os núcleos com os propulsores laterais voltaram como planejado, pousando de forma sincronizada e sem sofrer maiores danos, é só passar um paninho e estão prontos para outra.

Claro que por ser um voo de testes, problemas eram esperados e eles de fato apareceram: primeiro, o núcleo central não pousou como previsto, já que dois dos três motores não se ativaram e ele caiu como um meteorito a 500 km/h, atingindo a lateral da balsa de pouso e dois dos motores do barco. Musk espera recuperar o vídeo mas até onde se sabe, o módulo deu PT. Enfim, com o tempo e trabalho esse problema poderá ser contornado e todos os módulos serão fatalmente recuperados nos próximos voos.

Do ponto de vista do contratante nada muda, a carga subiu e isso é ótimo, o que acontece com os módulos é problema da SpaceX e convenhamos, por décadas a norma foi jogar tudo fora. AGORA que estamos aprendendo a controlar os propulsores e trazê-los de volta, afinal é muito melhor e mais barato não destruir um avião a cada voo realizado.

O Starman também sofreu um pouquinho, mas porque as coisas deram certo demais. O foguete, que era esperado colocar o Roadster numa órbita entre Marte e o Sol funcionou melhor do que o previsto, e ele ultrapassou o limiar. A princípio Musk disse que ele estava a caminho do Cinturão de Asteroides, mas essa informação foi revista; novos dados sugerem que ele perdeu a janela para se aproximar da área de influência do planeta vermelho, mas o foguete não é potente o bastante para ir muito mais longe.

Segundo o dr. Jonathan McDowell, astrofísico de Harward o foguete da SpaceX ainda chegará perto de Marte, mais precisamente a 7 milhões de km de distância em 2020, ainda fora do zona de influência gravitacional e portanto improvável que ele entre em órbita; ao mesmo tempo ele não passará próximo da Terra antes de 2030, e a menor distância que ele atingirá antes disso é de 45 milhões de km em 2021. Logo, o Starman ficará um bom tempo sozinho no espaço.

De qualquer forma, o Falcon Heavy coloca a SpaceX no mapa em definitivo como uma forte player na exploração espacial rentável e viável, e ao demonstrar que ele funciona Musk fatalmente garantirá mais e melhores contratos com agências espaciais. Principalmente a NASA, que poderá enfim se livrar de pagar o Uber do camarada Putin. E mais, o Falcon Heavy abre caminho para a pesquisa séria e a viabilidade de missões na Lua e em Marte, podendo até mesmo estabelecer bases permanentes.

Eu diria que sonhar não custa nada, mas já passamos dessa fase. É realidade, nós vamos para o espaço.

Fonte: SpaceX.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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