E essa agora — feridas que acontecem durante o dia cicatrizam mais rápido do que as de noite.

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Uma das coisas que não mostraram no excelente The Martian, era o inferno que é acompanhar eventos em Marte. Não pela distância, mas por causa do extremamente inconveniente dia marciano, que tem 24 horas e 37 minutos, ao contrário do dia terrestre, com suas exatas 24 horas. Ou 23 horas e 56 minutos se considerarmos o dia sideral mas não vamos entrar nesse atoleiro.

O resultado é que quando o sujeito chega no trabalho para comandar o robozinho marciano, todo dia o dia em Marte está 40 minutos adiante, e logo você está chegando de manhã e em Marte já está anoitecendo, e o Curiosity não tem faróis.

Para evitar isso os operadores passam a viver no tempo marciano, indo dormir todo dia 40 minutos mais tarde, eles deslizam pelos horários das pessoas comuns, o que causa todo tipo de problemas práticos E fisiológicos, pois por causa da Evolução nossos organismos trabalham com um relógio interno sincronizado com o período de dia/noite, é o chamado ritmo circadiano.

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Esse ritmo é regulado como um relógio interno do corpo, mas pode ser ajustado por fatores externos. Por isso em alguns dias você supera o jet lag quando viaja para outro fuso horário. No geral o ritmo circadiano existe para otimizar recursos. Não faz sentido manter o organismo em alerta máximo o tempo todo, e seres que dormem à noite sobrevivem mais se… dormirem durante a noite, então com base no ritmo circadiano e na iluminação, somos induzidos a sentir sono nesse horário.

Ritmos circadianos foram detectados em praticamente todos os seres vivos, mamíferos, aves, répteis, algas, cianobactérias e até alguns comentaristas de portal mais espertos. Em geral eles funcionam num ciclo de 24 h, mas como a duração do dia vem se alterando desde a criação da Terra, alguns organismos perderam a sincronia. Algumas espécies de aranha vivem em um ritmo de 17 horas, e isso — para manter vivo o clichê — intriga cientistas.

Outra coisa que intriga cientistas:

Segundo uma pesquisa publicada no Science Translational Medicine, com título Circadian actin dynamics drive rhythmic fibroblast mobilization during wound healing, ferimentos cicatrizam em ritmo diferente, de acordo com a hora do dia.

Isso mesmo. Um corte feito pela manhã tem um tempo de cicatrização diferente de um ocorrido durante a noite. E não é pouca coisa. Em experimentos feitos com ratos, queimaduras diurnas levaram 17 dias para cicatrizar (sim, pelo visto churrascaram o pobre Fievel). Já as noturnas precisaram de 28 dias.

A explicação: quando você sofre algum trauma físico (não estou falando do trenó que você não ganhou) a primeira linha de defesa são células chamadas fibroblastos, elas compõe o tecido conectivo, e imediatamente montam a estrutura de fibras e colágeno onde as outras células vão se agarrar e consertar o dano.

Fibroblastos aparentemente também seguem o ritmo circadiano, e de noite eles estão mais lentos, cansados e preguiçosos, assim quando o organismo é ferido, eles demoram, outros processos tomam conta do ferimento e fica mais difícil reconstruir a área lesionada.

Essa pesquisa vai ser repetida por outros cientistas, pois é assim que ciência funciona, e se comprovada, causará mudanças fundamentais por exemplo em cirurgias. Fará sentido adiar para a parte da manhã cirurgias noturnas, e em acompanhamento de pós-operatório, o horário da intervenção passará a ser levado em conta.

Fonte: Business Insider.

Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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