Confirmado, The Orville é basicamente Star Trek disfarçado de Family Guy

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A nova série de Jornada nas Estrelas, Star Trek: Discovery estréia domingo e involuntariamente está mais engraçada do que The Orville. De um lado temos a Militância Lacradora comemorando a diversidade e igualdade de gênero por finalmente uma série ter uma capitã mulher, do outro lado temos a ala conservadora achando um absurdo uma série de Star Trek discutir questões sociais atuais.

Entre os trekkers há a preocupação real de Star Trek se tornar lacradora, dada a incapacidade dos Millennials em entender metáforas. Hoje um episódio falando sobre racismo não poderia ser escrito como o clássico Let That Be Your Last Battlefield:

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Enquanto Star Trek não estréia, trekkers em crise de abstinência desde Enterprise correram pra assistir The Orville. Sim, é estranho um sujeito com voz de cachorro comandando a nave, e as referências são todas século XX/XXI, mas se o corpo é estranho, a alma é pura Star Trek.

Isso ficou evidenciado no episódio de ontem, e antes que reclamem…

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Um dos personagens principais é o tenente-comandante Bortus.

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Ele é um Moclan, uma raça meio Klingon, super-séria e que só tem um gênero, todos or Morclanos são homens. E botam ovos. Bortus vive com um parceiro, mas como a raça é só de um gênero ninguém faz piadas gays com ele. Com botar ovo, aí tá valendo.

O ovo de Bortus chocou, e para surpresa dele e do companheiro, a criança era uma menina, algo muito raro na sociedade Morclana. Bortus leva a filha até a médica da nave, explica que como estão longe de seu planeta-natal, cabe a ela tratar a criança para corrigir o defeito de nascença: ela precisa de uma cirurgia de mudança de sexo.

A Dra Claire fica indignada, e se recusa a fazer uma cirurgia dessas em uma criança saudável.

Bortus procura o Capitão, que também acha um absurdo e nega forçar a médica a fazer o procedimento. Ele chega a implorar, diz que a criança sofrerá muito, será vista como deficiente, não se integrará na sociedade. Ele argumenta que crianças com lábio leporino são operadas imediatamente, e na sociedade dele nascer mulher é igualmente um defeito genético.

Conversando com sua primeira-oficial (e ex-esposa) o capitão Mercer tenta ponderar qual o limite da interferência. Se uma criança humana nascer com 3 pernas, ninguém questionará uma cirurgia, mesmo havendo espécies na galáxia onde 3 pernas é a norma. Ao mesmo tempo ninguém consideraria errado interferir se ao invés de cirurgia, a tradição Moclana fosse matar as meninas. Ainda bem que isso é ficção, né China? Cof cof…


adamszachowicz — Family Guy – China’s One-Child Policy

Bortus tem uma mudança de espírito quando dois tripulantes invadem seus aposentos com cerveja e filmes velhos, assistem Rudolf, a Rena do Nariz Vermelho e Bortus percebe que Rudolf sofreu por ser diferente mas no final salvou o Natal. Ao alterar o sexo da filha ele a poderia estar privando de um futuro maravilhoso.

O companheiro de Bortus não aceita que a filha não seja operada, e vão para Moclan, onde um tribunal decidirá se a criança será operada ou não. Eles se despedem do capitão com a tradição Moclana de citar um grande escritor, ao que a Comandante Kelly responde com uma letra do Destiny`s Child.

Bortus discute com o companheiro intransigente, dizendo que quem tem que decidir é a filha, quando tiver idade suficiente. Klyden diz que ela irá sofrer muito até ter idade para decidir, e que é melhor tratá-la logo. Ele sabe, pois nasceu mulher mas foi operado quando criança. Bortus fica irritado por Klyden nunca ter mencionado esse detalhe. Pelo visto os cirurgiões Moclanos são excelentes.

No tribunal o promotor tenta demonstrar que mulheres são fracas, inferiores, incapazes de conviver em sociedade. A comandante Kelly mostra uma das tripulantes, que tem super-força, o piloto da nave, que é ótimo mas um idiota completo, deixando claro que qualidades não dependem de gênero.

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Enquanto isso o Capitão tem uma idéia, manda a Orville escanear o planeta atrás de um DNA específico. Eles vão até uma montanha, e em uma caverna acham uma mulher Moclana, adulta.

Levada ao tribunal ela se apresenta, diz que nasceu mulher mas os pais não tiveram coragem de tratá-la, foram morar longe da cidade, onde ela cresceu feliz e saudável. O promotor fica horrorizado. Ela responde com uma citação do mesmo escritor que Bortus citou mais atrás, Gandis Eldar, o mais famoso autor do planeta.

“Imagine como Gandis Eldar se sentiria se soubesse que uma mulher está usando suas palavras!” — diz o promotor, indignado.

“Por que você não pergunta pra ele?” respondeu a mulher. Ela revela então que Eldar é um pseudônimo, que ELA era o tal escritor que todo mundo adorava.

O tribunal se reúne, mas no final o juri decide que a criança será sim operada.

O episódio termina com Bortus e o companheiro recebendo o filho, dizendo que ele será amado e cuidado, não importa o gênero.

The Orville demonstrou nesse episódio uma maturidade rara. Não houve um final feliz, e mais ainda, não mudaram uma sociedade com um discurso bem-feito. Sim, a revelação da mulher-escritora (o que mais vão inventar?) terá profundas consequências na sociedade deles, mas mudanças sociais, para tristeza da turma da lacração, são lentas. Não são impostas nem aceitas do dia para a noite.

Ao contrário de Star Trek eles não têm uma primeira-diretriz de não-interferência, e o próprio capitão fala que precisa se policiar para não julgar outras culturas pelos padrões humanos.

Se você colocasse o elenco da Nova Geração e removesse algumas piadas, teria um episódio que seria elogiado por qualquer trekker. Eu não esperava algo tão bom e sério tão cedo, é do mesmo nível do episódio da Nova Geração onde eles encontram uma raça com gênero neutro, um deles se apaixona pelo Comandante Riker, começa a desenvolver características femininas e é punida, pois isso é considerado uma doença, e é submetida a um tratamento de neutralização de gênero.

Acima de tudo o episódio de Orville não teve liçãozinha de moral, nem tentou responder perguntas complicadas. Fez o certo, colocou em discussão os temas.

Não que a turma da lacração vá apreciar, eles provavelmente chegaram na parte do alienígena mostrando algo que não era um tentáculo e correram pros seus Tumblrs pra denunciar a série como machista e sexista.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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