Millennials sem-noção agora querem destruir os mercadinhos de rua

bodega-cat

No Brasil bodega, ou budega começou como sinônimo de restaurante, depois virou pejorativo e hoje é um termo genérico pra “coisa”. Nos EUA bodega é um armazém de secos e molhados, aquele lugar onde você vai para comprar farinha e charque, trocar dois dedos de prosa e tomar uma cerveja. É uma espécie de loja de conveniência com alma.

Americanos amam suas bodegas, em geral tocadas por imigrantes, e sempre com um gato. Bodega sem gato é poser. Por isso a extrema reação negativa a um app chamado Bodega, anunciado uns dias atrás e criado por dois ex-funcionários do Google.

Tudo porque como sempre eles criaram um serviço para resolver um problema inexistente, seguindo a já cansada linha “disruptiva”. Na linguagem dos “inovadores” lacradores não basta criar um bom produto, você tem que “disruptar” uma indústria, o que é marketing-speak para destruir.

Soa mesquinho, e é. No melhor estilo Google esse tipo de inovador não quer ser o melhor em alguma coisa, eles querem ser aquela coisa e a proposta, como descrita pelos próprios criadores, é destruir as bodegas, tornando-as coisa do passado. Como vão fazer isso?

Com isto:

bodega2

É um armário com 100 produtos mais vendidos em mercadinhos. A pessoa usa um app pra se identificar, pega os produtos, câmeras com Inteligência Artificial identificam o que foi escolhido e o valor é debitado do cartão de crédito da pessoa.

Tudo sem nenhum — argh — contato humano, sem você precisar descer e interagir com o casal de velhinhos da lojinha da esquina nem ter que olhar praquele gato xexelento. É a vitória da Misantropia.

E sim, eles “inventaram” uma máquina automática de vendas, uma absoluta não-novidade, cujo único efeito real será destruir um segmento do mercado que já está mal das pernas, agora que a Amazon vende de urânio a cotonetes e tem entrega em 1 h dependendo do produto.

Os comentários no blog dos caras estão deliciosos. o público está apontando de forma certeira a falta de conexão com a realidade dos Millennials do Vale do Silício. Eles acham inconveniente você descer até a esquina para comprar um pacote de toalha de papel, então a solução é exterminar as lojas de esquina e substitui-las por uma máquina.

Essa gente não tem noção de convivência, do que é fazer parte do bairro. Não conhecem os vizinhos, se incomodam quando alguém dá bom-dia na rua e só interagem por trás de telas, e acham que todo mundo é assim.

Principalmente, eles não entendem que as bodegas atendem muito mais do que millennials, elas são fonte de sustento para muita gente e servem a um público que muitas vezes não tem conta em banco, só algumas notas amassadas no bolso. Servem a idosos, que fazem da ida à bodega seu passeio matinal, servem até a crianças que passam para comprar doces voltando da escola.

Portando, fikadika crianças: criem suas startups pensando no que querem construir, não no que querem destruir. É um primeiro passo essencial.

Fonte: Mashable.

Relacionados: , ,

Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

Compartilhar