Overbooking: a culpa é da United por confiar na matemática

overbooking

A United não se emenda. De vez em quando estão envolvidos em alguma situação constrangedora. Nem sempre é culpa delas, como no caso das meninas proibidas de embarcar por usarem leggings. Código de Vestimenta aplicado à família dos funcionários é praxe. Outras vezes eles pisam na bola MESMO. Um tempo atrás um sujeito despachou com todos os avisos de frágil um violão profissional pela United.

Os gorilas com Parkinson e problemas de agressividade destruíram o pobre instrumento, a empresa se recusou a pagar e o sujeito acabou fazendo um dos primeiros virais da internet, o clássico United Breaks Guitars. A propaganda negativa equivaleu a milhões de dólares, o vídeo foi assunto de todos os jornais e talk shows.

Agora isto:


XENUK — Man Is Forcibly Removed From United Airlines Flight Because It Was Overbooked

É um médico que estava no vôo da United Airlines 3411, de Chicago para Louisville. Ele foi vítima do maior medo dos passageiros aéreos, maior ainda que terroristas ou bebês chorando: overbooking.

A United vendeu mais passagens do que tinha assentos disponíveis. Para resolver isso usou o velho esquema: começaram a oferecer compensações financeiras pros passageiros. Depois que a oferta chegou a US$ 800,00 e ninguém se manifestou, a empresa “escolheu aleatoriamente” passageiros para remover do vôo.

Aleatoriamente, claro, desde que não seja ninguém da primeira classe, não seja portador de Cartão MegaPlatinumAdamantiumFlying Gold Master, etc, etc. Um casal saiu depois de ser escolhido, mas o sujeito se recusou. A United claro fez o que toda empresa séria e comprometida com a qualidade de seus serviços faria: chamou a polícia para remover à força seu passageiro pagante do assento que ele havia adquirido.

Aí, você pergunta: a empresa é incompetente assim? Não sabem contar quantos assentos têm?

Eu respondo: não. Do mesmo jeito que as empresas de telefonia não são incompetentes quando dois aviões batem em um prédio em NY e ninguém consegue falar no celular. A explicação é simples: digamos que você tenha uma locadora de filmes (meus exemplos são velhos). Você tem 4.000 sócios. Sai Rogue One. Você compra 20 cópias. Nos primeiros dias os sócios reclamam. Depois de uma semana sempre tem uma ou duas cópias na prateleira.

Você não compra uma cópia de cada filme para cada sócio. Você joga com a estatística de que somente uma fração dos sócios terá interesse em determinado filme em determinado momento.

Operadoras de telefonia funcionam da mesma forma. Se uma fração considerável dos usuários tentar ver filmes ou falar ao telefone ao mesmo tempo, já era, o sistema cai. O link de seu provedor internet só funciona porque a maior parte do tempo sua conexão não está sendo usada em capacidade plena.

voluntario

United, onde você é voluntário, queira ou não.

O Brasil tem 168 milhões de smartphones. Imagine se todo mundo resolvesse ver YouTube ao mesmo tempo, mesmo com um downlink de 500 kb/s isso significa uma banda total de 84 milhões de Mb/s. Isso é maior que… sei lá, é quase inconcebível.

O sistema de esgotos também trabalha com o mesmo conceito. Se todo mundo resolver dar a descarga ao mesmo tempo, coisas ruins acontecerão. Eletricidade, idem. As operadoras acompanham eventos como jogos de Copa do Mundo ou Olimpíada e se preparam para oscilações na carga quando milhões de TVs são desligadas ao mesmo tempo.

O overbooking é uma prática que segue esse modelo. Partem do princípio que em todo vôo há um percentual de passageiros no-show, o que faz o avião decolar com lugares vazios, o que é ruim.

Existem muitos custos em avião além de combustível, e são custos fixos, independente da quantidade de passageiros. Por isso qualquer trocado a mais que consigam fazer, é lucro. Eu já peguei um vôo Rio-SP por R$ 26,00. Decolando 05:00 do Galeão e descendo em Guarulhos, era um vôo vindo de Miami.

A grande questão é que a mesma estatística que diz que passageiros não vão aparecer para o embarque diz que eventualmente todos os passageiros irão aparecer. Aí a empresa que vendeu passagens a mais tem um problema.

A maioria dos países possuem legislação cobrindo overbooking, mas é bem branda. Em geral a empresa oferece lugar em outro vôo. Em alguns casos rola endosso de passagem em outra empresa, e benefícios financeiros.

O overbooking em si não é ruim. Todo mundo faz, ou vai dizer que você compra cerveja pro churrasco contando que todo mundo que convidou vai aparecer? O que não é admissível é abusar do recurso. O sujeito do vídeo vai entrar com um processo contra a United e vai faturar uma montanha de dinheiro. Merecidamente.

Overbooking é uma aposta que a empresa tem que estar pronta pra perder. Rolou? Entuba o prejuízo.

Agora a United virou manchete.

united2

O Controle de Danos já começou. A United diz que “está apurando”, o policial que comandou a operação arrasta-japa foi suspenso, mas a situação só piora. Segundo o Yahoo os passageiros deveriam ceder lugares para quatro tripulantes da United, que estariam se dirigindo a outro aeroporto.

Ou seja: modelos matemáticos são legais, viabilizam indústrias inteiras, mas na hora em que o elemento humano é envolvido, é preciso um mínimo de bom-senso. Coisa que a United não teve. Agora aguentem.

colbertpipoca

Relacionados: , ,

Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

Compartilhar