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Japão pode estar cogitando fazer as medalhas de Tóquio 2020 com smartphones reciclados

Dizem que o Japão quer fazer as medalhas da Olimpíada de Tóquio 2020 com metais reciclados de smartphones. É viável? Sim. Economicamente interessante? Não, ainda mais com o lado sujo da reciclagem de eletrônicos, que todo mundo finge que não existe.

3 anos atrás

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Quando a gente tem 14 anos e resposta pra todos os problemas do mundo adora soltar aquela bobagem de que ouro só é valioso porque a gente quer assim, o que não deixa de ser verdade, mas assim que você encontra ouro de verdade pela primeira vez entende o motivo de esse metal ter sido motivo de guerras e viagens rumo ao desconhecido por milênios. Ouro é dez!

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Ouro hoje é usado para muito mais do que se livrar de cunhados indesejados, se me desculpam o pleonasmo. Seu celular contém ouro, naves espaciais contém ouro: ele é um excelente condutor, é inerte e atóxico, por isso gente esnobe usa como decoração em comida e gente idiota usa como remédio.

Como ouro não estraga nem fica velho, ele é reaproveitado e reciclado, é possível que sua aliança de casamento tenha ouro que já fez parte de algum tesouro egípcio. Já o ouro usado industrialmente é mais complicado pois o custo de extrair é alto.

Há uma história rodando de que como símbolo de sustentabilidade o Japão fará as medalhas da próxima Olimpíada com metais extraídos de smartphones. Como sempre é uma idéia bonita e simbólica mas em termos práticos, nada sustentável.

Não que não haja ouro em smartphones. Em um ano a Apple reciclou, entre iPhones iPads e MacBooks, uma tonelada de ouro no valor de US$ 40 milhões. Só que gastou mais que isso no processo. Sim, há ouro em seu celular e dá pra extrair em casa, mas adivinhe: sai caro demais.

Um iPhone tem 0,034 g de ouro, ou US$ 1,82. Prata? 0,35 g; US$ 0,36. Platina? 0,00034 g; US$ 0,02.

Uma medalha de ouro olímpica na verdade é mais de 90% prata, só é obrigada a ter 6 gramas de ouro. Ou seja: para produzir UMA medalha é preciso reciclar 176,4 iPhones para obter ouro suficiente para uma medalha.

A medalha de prata também não é de prata, ela é 93% prata, 7% cobre. E sim, 30% da prata vem de reciclagem já. Quanto pesa? 500 g, das quais 465 g prata. Seria preciso reciclar 1.328 para fazer uma única medalha.

Bronze não vou fazer as contas, ninguém liga pra bronze.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - AUGUST 18: Gold medalist Risako Kawai of Japan celebrates during the medal ceremony following the Women's Freestyle 63 kg competition on Day 13 of the Rio 2016 Olympic Games at Carioca Arena 2 on August 18, 2016 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Julian Finney/Getty Images)

Como sempre esbarramos no problema de escala. Reciclagem é algo que raramente é lucrativo, e quanto menos escala menos lucro há na atividade. Este pessoal aqui fez um experimento varrendo o acostamento de uma rodovia atrás de platina expelida por catalisadores.

Eles conseguiram uma média de 6,2 g/tonelada. Respeitável e lucrativo para uma mina em escala industrial, inviável como hobby de fim de semana. Infelizmente esse conceito de escala é algo que ecochatos e deslumbrados de blogs sustentáveis não conseguem entender.

E há um outro lado nesse discurso de reciclagem, um lado muito feio. Reciclagem de lixo eletrônico já existe, é uma realidade. Só que a Apple vende a idéia de que é algo lindo e futurista como aquele robô que mostraram e desmonta iphones, lembra?


Apple | Liam – An Innovation Story

Infelizmente a realidade por trás da reciclagem de eletrônicos não é nem de longe linda asséptica e futurista.


Matthew Johnson | E-Waste - Electronic Waste - Computer Recycling in Nigeria, India, Mexico and China

Fonte: The Next Web.

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